Na crise, empresas migram para galpões

13/08/2020

A pandemia de coronavírus obrigou muitos empreendedores brasileiros a se virarem para encontrar formas de não fechar as portas em meio a uma crise sem precedentes. Pequenos lojistas de shopping center e distribuidores de produtos de moda, por exemplo, encontraram uma forma mais barata e prática para economizar nesse momento difícil: trocaram os show rooms e as lojas tradicionais, que exigem contratos de longo prazo, pelos guarda-móveis. A economia de custo, em muitos casos, é de 90% – vital para negócios que viram seu faturamento cair vertiginosamente.

No Guarde Aqui, empresa do grupo Pátria, a quantidade de pessoas jurídicas buscando o serviço atingiu um pico nos últimos meses. “Isso aconteceu por dois motivos. Primeiro porque a demanda pelo e-commerce aumentou muito; e, segundo, porque o sistema do self storage é mais flexível. Você pode aumentar ou diminuir o tamanho do espaço, e do gasto, conforme as vendas”, resume Everton Silva, diretor de operações do Guarde Aqui.

Com 25 unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, o Guarde Aqui tem hoje 2,5 mil clientes corporativos. Eles representam 33% do movimento total, perfil diferente do visto nos Estados Unidos, onde as empresas são, em geral, 20% dos clientes. É por isso que a rede estruturou o Guarde Aqui Empresas, que permite que os donos dos boxes entrem e saiam conforme sua necessidade, usando uma senha, várias vezes ao dia.

Os pequenos e-commerces puxam a clientela corporativa dos guarda-móveis. Muitos fecharam as lojas físicas que mantinham antes da pandemia e agora tentam ganhar a vida na internet. A empreendedora Maria Verônica da Silva Matias, de 46 anos, é dona da tabacaria Unity. Havia aberto uma loja física no segundo semestre de 2019, no Shopping SP Market, na zona sul de São Paulo. Lá, pagava R$ 8 mil de aluguel por mês. As vendas iam bem, garante a empreendedora.

Tanto era assim que, apenas dois dias antes de a prefeitura de São Paulo determinar o fechamento dos shopping centers na cidade, ela havia se comprometido com um novo contrato de aluguel de dois anos. À medida que a ameaça de um polpudo prejuízo se avizinhava, e já com as portas fechadas, Maria Verônica teve de tomar uma decisão. Com a ajuda do marido, insistiu com a administradora do shopping e reverteu o acordo assinado – sem multa.

Assim que conseguiu desfazer o contrato, correu para tirar seus pertences do shopping. E não precisou ir muito longe: carregou os materiais de ponto de venda e o estoque para um box de 7 metros quadrados na unidade do Guarde Aqui que fica literalmente ao lado do Shopping SP Market. A economia de aluguel superou os 90%. Ao pechinchar no guarda-móveis, conseguiu acertar uma locação de R$ 350 por mês. “Foi a minha sorte, porque hoje faturo só uns 10% do que eu ganhava.”

Mas nem tudo está sendo fácil nessa “virada”. Maria Verônica conta o que vem enfrentando no e-commerce por causa das restrições à propaganda a produtos relacionados ao tabagismo. “Não consigo anunciar no Instagram e no Facebook”, diz. Era uma dificuldade que ela não tinha nos tempos de shopping centers. Na loja física, o fluxo de clientela era determinado pela proximidade.

Distribuição

Ex-jogador de futsal, Cláudio Jesus Ribeiro, de 43 anos, é responsável pela operação da marca de itens esportivos espanhola Joma no Brasil. A maior parte da administração da empresa e da distribuição de produtos no Brasil é realizada a partir de um galpão de 200 metros quadrados localizado em outra unidade do Guarde Aqui, também na zona de sul de São Paulo.

“Fui atleta durante muito tempo e depois fiz faculdade de marketing e migrei de setor”, conta Ribeiro.

A Joma está presente há seis anos no Brasil e atua com produtos para diversos tipos de esportes. Os itens da marca espanhola vendidos no Brasil são fabricados no Vietnã. Embora as roupas e calçados da Joma sejam distribuídos também em lojas físicas, o principal cliente da empresa é o e-commerce, em especial o Netshoes, que hoje pertence ao Magazine Luiza. Ribeiro diz que, para uma operação de baixo custo, o galpão é uma boa saída. “Concentro todo o meu estoque aqui.”

Fonte: O Estado de S. Paulo

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