ECONOMIA INSTITUTO LOGWEB – Ed. 180

13/06/2017

ARTIGO EXCLUSIVO

SUPERÁVIT PRIMÁRIOS, JURO E DÍVIDA PÚBLICA

A economia brasileira exibiu, ao longo de dezesseis anos (1998 a 2013), superávits primários, o que não impediu o salto da dívida bruta do setor público do patamar de 40%, em 1998, para quase 58% do PIB em 2013, acompanhado da elevação de 6% na carga fiscal, também medida em relação ao PIB.
Essa dinâmica perversa decorre dos efeitos da política monetária no resultado fiscal: mesmo no ano da desgraça fiscal de 2016, mais de 90% do déficit nominal que engordou a dívida bruta no primeiro trimestre foi devido ao pagamento de juros nominais, e não ao déficit primário.
A Grécia detém uma dívida equivalente a 170% do seu PIB, mas despende 5% do seu PIB em juros, enquanto o Brasil paga quase 10% do PIB em juros com uma dívida inferior a 70% do PIB. A história recente da evolução da dívida pública no Brasil demonstra o avesso da sabedoria convencional. Dizem os sabichões que a taxa de juro é elevada por causa do estoque da dívida, mas o caso brasileiro parece afirmar que a dinâmica da dívida é perversa por causa da taxa de juro de agiota.
Tal trapalhada nas relações de determinação entre juro e dívida decorre de outra: ignorar que no sistema monetário internacional prevalece hierarquia entre as moedas – o dólar é mais “líquido” do que o real. Assim, na era da globalização financeira, a descuidada abertura da conta de capitais aprisionou as políticas econômicas “internas” à busca de condições atraentes para os capitais em livre movimento.
Em 1994 a forte valorização cambial reduziu a inflação mensal para a casa dos 1%, porém ampliou o componente que correlaciona a formação da taxa de juros com a expectativa de desvalorização do câmbio. Assim, as taxas reais não podem ser reduzidas abaixo de determinados limites exigidos pelos investidores para adquirir e manter em carteira um ativo denominado em moeda fraca. Desde então, a volatilidade dos fluxos financeiros é o fio desencapado que detona choques de juros na instância fiscal e traumas de valorização/desvalorização do câmbio, desorganizando as expectativas de longo prazo – leia­-se, as decisões de investimento. A aventura de 1994 terminou na desvalorização tumultuada da “banda diagonal endógena” de 1999.
Os emergentes que galgaram posições hierarquicamente superiores na competição global apostaram no controle de capitais e no planejamento estratégico para o desenvolvimento nacional, ao invés de se ajoelharem diante da desmoralizada crença na eficiência dos mercados financeiros.
Nesse mês foi publicado pelo FMI o artigo “Neoliberalism: Oversold?”, abordando especificamente os efeitos de duas políticas da agenda neoliberal: a remoção das restrições do movimento de capitais (liberalização das contas de capital); e a consolidação fiscal (“austeridade” para reduzir déficits fiscais e o nível da dívida).
O estudo afirma que alguns influxos de capitais, como investimento direto estrangeiro, parecem impulsionar o crescimento no longo prazo, mas o impacto de investimentos de portfólio e, especialmente, influxos de aplicações especulativas de curto prazo não estimulam o crescimento e muito menos garantem um financiamento estável do balanço de pagamentos.
A ocorrência, desde 1980, de aproximadamente 150 episódios de convulsões, associadas a fluxos de capitais em mais de 50 mercados emergentes, credencia a reivindicação do economista de Harvard, Dani Rodrik, de que esses “dificilmente são efeitos ou defeitos secundários nos fluxos de capital internacional; eles são a história principal”.
Quanto à austeridade, o estudo do FMI indica: a elevação de impostos ou do corte de gastos para reduzir a dívida pode ter um custo muito maior do que a mitigação do risco de crise prometido pela sua redução. É preferível a eleição de políticas que permitam a redução do percentual da dívida, diz o FMI, “organicamente pelo crescimento”.
Segundo o estudo, as políticas de austeridade não só geram substanciais custos ao bem estar pelos canais da oferta, como deprimem a demanda e o emprego. A noção de que a consolidação do orçamento pode ser expansionista – isso é, aumenta o crescimento e o emprego –, por elevar a confiança do setor privado e o investimento, não se confirmou na prática. Episódios de consolidação fiscal foram seguidos por reduções mais do que expansões no crescimento. Na média, a consolidação de 1% do PIB eleva a taxa de desemprego em 0,6% no longo prazo, e o coeficiente de Gini (concentração de renda) em 1,5% dentro de cinco anos (“The Distributional Effects of Fiscal Consolidation”).
O estudo conclui que os benefícios das políticas da agenda neoliberal aparentemente foram um pouco exagerados. O FMI, que supervisiona o sistema monetário internacional, tem estado na dianteira dessa reconsideração. Já os, digamos, envelhecidos neoliberais do Brasil teimam em não ouvir as novas do velho patrão.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo – Doutor em economia. Autor de vários livros e professor titular da Unicamp e Facamp

Compartilhe:
Veja também em Conteúdo
Grupo Casas Bahia amplia monetização da operação logística e fortalece nova frente de negócios
Grupo Casas Bahia amplia monetização da operação logística e fortalece nova frente de negócios
Imediato Nexway assume centro de distribuição da Ambev em Araçatuba, SP
Imediato Nexway assume gestão do Centro de Distribuição da Ambev em Araçatuba, SP
Hub logístico multimodal do BH Airport concentra operações da mineração em Minas Gerais
Hub logístico multimodal do BH Airport concentra operações da mineração em Minas Gerais
Certificação ABNT para big bags cria padrão técnico para transporte e armazenamento de cargas não perigosas
Certificação ABNT para big bags cria padrão para transporte e armazenagem de cargas não perigosas
Centro Logístico Rio Claro recebe investimento de R$ 15 milhões para expansão da capacidade operacional
Centro Logístico Rio Claro recebe investimento de R$ 15 milhões para expansão da capacidade operacional
Exportações brasileiras ao Golfo recuam em abril, mas agronegócio mantém crescimento nas vendas
Exportações brasileiras ao Golfo recuam em abril, mas agronegócio mantém crescimento nas vendas

As mais lidas

01

Eduardo Barreiros assume liderança da Miebach Consulting no Brasil após mudança na estrutura executiva
Eduardo Barreiros assume liderança da Miebach Consulting no Brasil após mudança na estrutura executiva

02

Leilão de imóveis dos Correios inclui Complexo Baumann, em São Paulo, SP, e outros 33 ativos em várias regiões do Brasil
Leilão de imóveis dos Correios inclui Complexo Baumann, em São Paulo, SP, e outros 33 ativos em várias regiões do Brasil

03

Prestex reduz banco de horas em 80% e amplia produtividade com foco em saúde mental e adequação à NR-1
Prestex reduz banco de horas em 80% e amplia produtividade com foco em saúde mental e adequação à NR-1