Como o acordo União Europeia–Mercosul pode redesenhar o Supply Chain no Brasil

O colunista do Portal Logweb, Leonardo Benitez, analisa como o acordo entre União Europeia e Mercosul pode provocar mudanças estruturais no Supply Chain brasileiro, com impactos em logística, indústria, exportações e sustentabilidade.

Depois de mais de 20 anos de negociações, o acordo entre União Europeia e Mercosul começa a ganhar forma prática, e os impactos podem ir muito além da redução de tarifas.

O tratado conecta um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$ 20 trilhões. A expectativa é que as exportações brasileiras cresçam cerca de 13% até 2038, com alguns setores industriais podendo avançar mais de 20%.

Mas talvez a maior transformação não esteja no comércio em si. O principal impacto deve acontecer dentro das operações das empresas, redesenhando cadeias de suprimentos, decisões industriais e estratégias logísticas.

Durante muitos anos, grande parte das empresas brasileiras estruturou sua operação pensando principalmente no mercado interno.

Com maior integração entre Europa e América do Sul, empresas passam a revisar:

– fornecedores;

– localização de fábricas;

– centros de distribuição;

– hubs logísticos;

– rotas internacionais;

– estratégias de estoque.

Na prática, o Supply Chain brasileiro tende a ficar mais conectado às cadeias globais.

O agronegócio continua como um dos principais beneficiados, principalmente em café, frutas, proteína animal, açúcar, celulose e alimentos processados.

No setor automotivo e de autopeças, o acordo pode acelerar integração com fornecedores europeus e pressionar a indústria local por maior eficiência e modernização.

Já telecom, tecnologia e infraestrutura digital podem ganhar acesso mais competitivo a equipamentos, eletrônicos e componentes avançados.

Máquinas industriais, energia renovável, biocombustíveis e equipamentos ligados à transição energética também aparecem entre os segmentos com maior potencial de crescimento.

Oportunidades de localização industrial e logística

Outro efeito importante pode ser a revisão da localização das operações.

Empresas europeias podem ampliar presença industrial ou logística no Brasil para atender toda a América Latina com maior competitividade.

Ao mesmo tempo, empresas brasileiras podem usar o acordo para criar operações mais integradas com a Europa, dividindo etapas produtivas entre continentes.

Isso abre espaço para:

– novos hubs logísticos;

– centros de consolidação regional;

– expansão industrial próxima a portos;

– revisão de malhas de distribuição.

Regiões próximas aos principais corredores logísticos podem ganhar relevância estratégica, especialmente áreas ligadas aos portos de Porto de Santos, Porto de Suape e Porto de Pecém.

O Nordeste, por exemplo, pode se beneficiar da proximidade geográfica com a Europa em operações internacionais.

Sustentabilidade entra definitivamente na operação

Outro ponto que deve acelerar mudanças é a exigência europeia sobre sustentabilidade e rastreabilidade.

A Europa já pressiona empresas em temas como:

– emissões de carbono;

– origem de produtos;

– rastreamento de fornecedores;

– compliance ambiental.

Isso deve impulsionar investimentos em digitalização, monitoramento da cadeia, logística verde e eficiência operacional.

Na prática, sustentabilidade deixa de ser apenas discurso institucional e passa a influenciar diretamente decisões de Supply Chain.

Nem todos os impactos serão positivos

O aumento da concorrência pode pressionar setores brasileiros menos competitivos, principalmente empresas com baixa produtividade ou estruturas industriais defasadas.

Além disso, o Brasil ainda enfrenta gargalos importantes:

– infraestrutura logística limitada;

– burocracia aduaneira;

– dependência do transporte rodoviário;

– custo tributário elevado;

– baixa integração multimodal.

Outro risco é a velocidade da adaptação. Empresas que não evoluírem em eficiência, tecnologia e compliance podem perder espaço para competidores globais.

O novo momento para o Brasil

Mais do que ampliar exportações, o movimento tende a acelerar uma transformação estrutural nas cadeias de suprimentos, exigindo operações mais eficientes, conectadas, sustentáveis e preparadas para competir globalmente.

O Brasil possui vantagens importantes, como capacidade produtiva, matriz energética relativamente limpa e posição estratégica na América Latina, mas o sucesso dependerá da capacidade das empresas de evoluir sua infraestrutura, tecnologia e modelo operacional.

Nos próximos anos, as empresas que conseguirem transformar complexidade em eficiência terão a oportunidade de ocupar um espaço muito mais relevante dentro das cadeias globais.

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Leonardo Benitez

Leonardo Benitez

Engenheiro com pós-graduação em Administração de Empresas e com MBA em Gestão de Negócios focado em Transportes. Certificações PMP, Black Belt em Lean Six Sigma e CSCP (Certified Supply Chain Professional pela APICS). Experiência de mais de 20 anos em Supply Chain (Diretor de Operações, COO) atuando em operadores logísticos e transportadoras de grande porte nos mais diversos segmentos. Hoje atua como Managing Director/Partner na Andersen Consulting (ex-Connexxion Consulting).

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