Vibra usa cabotagem para levar biodiesel do Sul para o Nordeste. E retira cerca de 900 caminhões das rodovias

29/08/2022

Líder no mercado brasileiro de distribuição de combustíveis e de lubrificantes, a Vibra Energia (ex-BR Distribuidora) foi desafiada a encontrar uma solução que mitigasse os impactos ambientais gerados pelos milhares de caminhões necessários para a entrega de biodiesel do Sul para o Nordeste pelo modal rodoviário.

Em 2019, em fase de testes, a empresa realizou a primeira operação de cabotagem de biodiesel do Rio Grande do Sul – onde o combustível é produzido –para Pernambuco. Diante do sucesso, novos envios de testes foram realizados em 2020.

Ao longo de 2021, com a estrutura consolidada, a operação passou a ser feita com frequência. Pioneira nessa rota, um único navio com biodiesel faz a mesma entrega de 200 caminhões. Ao longo do ano, foram 7 navios. Resultado: redução nas emissões de carbono, otimização de custos e facilitação das operações logísticas. 

A empresa não só alterou a logística para retirar cerca de 900 caminhões das rodovias, como criou uma nova rota de Cabotagem Sul – Nordeste para levar biodiesel para a região. 

Como era

Antes de tudo, é necessário compreender que a distribuição de usinas de biodiesel pelo país é desproporcional ao consumo de cada região. Atualmente, as regiões Sul e Centro-Oeste abrigam a maioria das usinas de biodiesel. Por outro lado, o Nordeste possui poucas usinas e estas não são suficientes para atender o mercado local.

“Assim, para que o mercado da região Nordeste seja atendido é necessário coletar o biodiesel de outras regiões do país. Historicamente, o suprimento (inbound) de B100 da região Nordeste era realizado, em parte, pelas poucas usinas da região e complementado pelas usinas localizadas na região Centro-Oeste, por meio do modo rodoviário”, explica Aurelio Souza, diretor de Logística da Vibra. 

As viagens entre as duas regiões tinham uma distância média de 2.630 km, gerando elevados riscos de acidentes e poluição atmosférica. Além disso, o Nordeste sofre com um déficit estrutural de caminhões em sua região e a destinação desses veículos para a realização das coletas de longa distância agravava esse cenário.

Por outro lado, o Estado do Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de biodiesel do país, e a distância de suas usinas para o porto do Estado viabiliza que a operação seja realizada por cabotagem.

“Para que a prática de transferência modal pudesse ser aplicada foi necessário superar diversos desafios. Primeiramente, a alteração do modo rodoviário para qualquer outro modo de grande capacidade requer que toda a cadeia logística esteja bastante integrada, pois envolverá, na maioria dos casos, um número maior de interfaces do produto entre os diversos agentes.”

Com o avanço dos estudos para a realização da cabotagem – continua o diretor de logística da Vibra – houve a necessidade de inclusão de novas etapas para a operação de suprimento de biodiesel no NE, como, por exemplo, a contratação de tancagens próximas aos portos de origem e destino.

Então, para atender às características desse novo modo de transporte, além de reuniões periódicas com todas as áreas da cadeia logística, também houve a necessidade da contratação de tancagens nos portos de origem e destino, para que fosse possível formar os lotes necessários para o carregamento por navio.

Mudando

Em 2019, a Vibra realizou a primeira operação de cabotagem de biodiesel do Rio Grande do Sul para Pernambuco. A operação foi um sucesso, e em 2020, foram realizadas novas viagens. Em 2021, com a estrutura da operação consolidada, foi realizado um carregamento total da ordem de 47.000 m³.

“Como dito, era necessário encontrar uma solução para melhorar a logística de distribuição dos combustíveis. A cabotagem foi a melhor opção encontrada, estando presente nas operações da Vibra desde então.”

Em função da significativa alteração logística, novos parceiros foram selecionados para apoiarem essa operação, como as empresas de navegação por cabotagem. “Vale ressaltar que foram fundamentais a participação e o engajamento de todos os agentes envolvidos neste processo. Tanto os clientes internos (compras, armazenagem, planejamento, transportes, qualidade e operações), quanto os nossos fornecedores (usinas, armazenagens, transportadoras e inspetoras).” 

Falando sobre os problemas encontrados neste processo de mudança, o diretor de Logística da Vibra ressalta que, no cenário anterior, onde o suprimento era realizado pelo transporte rodoviário, o veículo buscava o produto na usina de biodiesel e realizava a entrega diretamente nas bases de destino da Vibra. “Com a cabotagem, o primeiro desafio foi identificar se conseguiríamos transportar o biodiesel mantendo as especificações de qualidade informadas pela ANP. Para isso foi realizado um amplo estudo sobre as características do produto e também do navio, já que se tratava de uma operação pioneira.”

Além disso, a estrutura logística do Brasil atualmente é voltada para o modo rodoviário. Assim, quando a empresa começou a construir o projeto de cabotagem foi necessário desenvolver toda a estrutura que daria suporte para que a operação de cabotagem pudesse ocorrer. Como exemplo desses desenvolvimentos podem ser citados: a criação da rota rodoviária usina x Porto; desenvolvimento da rota marítima Rio Grande x Suape para combustíveis; tancagens com especificações adequadas para o recebimento do biodiesel; entre outros fatores.

“Para termos sucesso nessa jornada, sabíamos que era imprescindível que o projeto fosse baseado em estudos robustos, dando o amparo técnico necessário para que a operação pudesse ser colocada em prática. Após a conclusão dos estudos, contatamos nossa rede de fornecedores, que prontamente se colocaram à disposição do nosso projeto, ofertando os seus recursos, confiando no sucesso da operação e nos ganhos ambientais que seriam alcançados.”

Souza lembra, por outro lado, que a vocação da cabotagem para grandes volumes requer um planejamento e acompanhamento mais frequentes por todos os envolvidos na logística. Além disso, como se trata de uma operação realizada em grandes lotes e com uma maior imprecisão de datas de carregamento e descarga quando comparado ao modo rodoviário, é necessário um estoque melhor dimensionado, para cobrir eventuais atrasos.

Outro ponto de atenção é a quantidade de interfaces realizadas pelo produto durante o processo de cabotagem, onde é necessário a contratação de tanques de combustíveis na origem e destino dos portos onde o navio irá operar. Além disso, é necessário que produto chegue da usina até o porto de Rio Grande e, após o transporte de cabotagem, também realize o trajeto entre o porto de Suape e o seu destino final. Estas viagens de curta distância são realizadas por caminhões-tanques.

Processo hoje

Atualmente, o processo de cabotagem da Vibra tem início com a coleta rodoviária do biodiesel nas usinas localizadas no Rio Grande do Sul, que segue até a armazenagem localizada ao lado do porto de Rio Grande. Após a chegada dos veículos no terminal de armazenagem é realizada a aferição da qualidade do produto e posterior descargas nos tanques.

“Em um processo que dura aproximadamente um mês é realizada a formação do lote que irá carregar o navio. Assim, após a atracação do navio no porto, que acontece mensalmente, enviamos o produto via duto, da armazenagem até o navio. Ao completar a carga do navio, novos testes de qualidade são feitos e a embarcação segue para o destino. Em média, a viagem dura de 5 a 7 dias, a depender da parada em outros portos no caminho.”

Após a chegada do produto em Suape, novas análises são feitas e o mesmo é bombeado, via duto, do navio para os tanques de combustível, que ficam localizados nas proximidades do porto. “A partir daí, o produto pode ser misturado ao Diesel A, em nossa base de Suape, ou seguir para ser misturado em nossas bases secundárias, localizadas na região Nordeste, para depois ser distribuído aos clientes da Vibra.”

Souza comemora os resultados desta nova logística: a operação de cabotagem colaborou com uma série de ganhos, sendo o primeiro deles a redução das viagens rodoviárias de longa distância, recuando drasticamente a poluição atmosférica emitida ao longo do processo de suprimento de biodiesel da região Nordeste – a operação de cabotagem resultou em uma redução de 1.818 tCO²e.

“Ao longo do ano de 2021, evitamos 900 viagens rodoviárias de longa distância entre as regiões Centro-Oeste e Nordeste, onde as distâncias médias percorridas eram de 2.630 km. Porém, como realizamos as viagens de curta distância no Sul e no Nordeste para levar e buscar o combustível nos Portos, a redução total de distância percorrida pelo modo rodoviário foi de 2.200 km por viagem.”

Souza também destaca que, com este novo processo, a Vibra ganha mais uma alternativa de transporte em sua logística, na qual é possível assegurar que o produto chegará ao seu destino final com a mesma qualidade da operação anterior, em que as viagens eram realizadas apenas pelo modo rodoviário.

Com o sucesso do projeto, a cada ano a Vibra está aumentando o volume de biodiesel cabotado para a região Nordeste, consolidando cada vez mais a cabotagem como um importante pilar para as alternativas logísticas, com foco em sustentabilidade, que a Vibra vem buscando assiduamente.

“Além disso, após o sucesso ambiental obtido com o uso da cabotagem no transporte de biodiesel, iniciamos também o uso do modal para realizar as transferências de etanol, aumentando significativamente a participação da cabotagem na matriz de transporte da Vibra.”

A empresa

No mercado automotivo, a Vibra detém a licença de uso da marca Petrobras, formando uma rede com 8,3 mil postos de combustíveis, em todo o País. As franquias da Vibra Energia para o segmento são as lojas de conveniência BR Mania e os centros de lubrificação automotiva Lubrax+.

Com uma estrutura logística que garante sua presença em todas as regiões do país, a empresa conta com um portfólio de mais de 18 mil grandes clientes corporativos, em segmentos como aviação, transporte, indústrias, mineração, produtos químicos e agronegócio.

Com a marca BR Aviation, a companhia possui cerca de 70% do mercado de aviação, abastecendo aeronaves em mais de 90 aeroportos brasileiros. Em lubrificantes, é líder de mercado com a marca Lubrax, Top of Mind, e possui a maior planta industrial para produção de lubrificantes da América Latina.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
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