Obras paradas e infraestrutura precária encarecem até 40% do custo de transportes de cargas

10/05/2016

O sistema rodoviário tem sofrido não somente com a crise econômica do país, mas também com a precariedade das estradas e a promessa de duplicação de rodovias. Apesar da importância das estradas no desenvolvimento econômico, pouco valor se tem dado a elas. “O desprezo com a infraestutura é uma constante. A especulação de possíveis cortes no orçamento e a suspensão de contratos de supervisão de obras pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), incluindo a BR-381 acendeu ainda mais o alerta para o nosso setor”, comenta Vander Costa, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais (Fetcemg).

De acordo com dados do setor, de 12 a 15 mil caminhões estão parados em Minas Gerais. A estimativa é de que desde o início do ano o número de demissões tenha aumentado 35% em média. Já o Ministério dos Transportes aponta 25,3 mil postos de trabalho nas empresas de transporte e logística somente no primeiro bimestre de 2016. O número representa um terço dos resultados de 2015 quando 76,4 mil pessoas perderam suas vagas no setor.

Dados divulgados pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) no início do ano já apontavam a redução em 11,8% os valores destinados pelo Governo Federal a investimentos para infraestrutura de transporte pelo Projeto de Lei Orçamentária de 2016, redução decorrente dos cortes orçamentários definidos para promover o ajuste fiscal. A mesma entidade também detectou em pesquisa que apenas 11% das estradas brasileiras são pavimentadas, fator que reduz a eficiência do transporte, compromete a segurança dos usuários e encarece em até 40% o custo do transporte.

“Os empresários do setor têm visto o faturamento minguar enquanto a crise política e econômica deixa o país estagnado. É lamentável essa postura do governo. Qualquer leigo sabe que investimento em infraestrutura é a melhor maneira para dar um alento à economia e ajudar o país a voltar a crescer”, afirma Vander Costa.

Segundo o dirigente, essa mudança de planos fez os empresários que investiram em equipamentos amargarem ainda mais prejuízos. Esse investimento se deu na esperança de que as obras como a da BR-381 fossem melhorar a rota entre Belo Horizonte e o Espírito Santo. “Muitos empresários investiram e agora ficarão no prejuízo. Trata-se de mais um crime de responsabilidade do governo, ao começar obras e não terminá-las”, enfatiza Costa.

A sobrecarga da rodovia produz lentidão, buracos e risco de acidentes, gerando prejuízo para os transportadores. “Uma estrutura que já era ruim, com a paralisação de investimentos e obras, vai ficar caótica”, afirma o diretor do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais (Setcemg), Ulisses Cruz.

“Com as obras paradas, ou seja, com bloqueios na pista, mas sem avanço nas obras, nos restou mais tempo de viagem, mais consumo de combustível, mais consumo de pneus e de componentes de suspensão”, conclui o diretor.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science

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