A logística não evolui por partes: o desafio de transformar o sistema inteiro

*Por Valeria Lima
O que acontece quando a tecnologia avança mais rápido que o sistema?
Imagine uma transportadora que incorpora caminhões mais inteligentes, sistemas de gestão avançados e ferramentas capazes de antecipar problemas.
Os veículos tornam-se mais eficientes. Os dados chegam mais rapidamente. As decisões ganham precisão.
Mas os profissionais não recebem a capacitação necessária. As estruturas de apoio permanecem inadequadas. Os processos continuam fragmentados. E os demais participantes da cadeia não conseguem acompanhar a evolução.
A empresa modernizou seus equipamentos. Mas será que modernizou sua operação?
Essa pergunta ajuda a compreender o movimento revelado pelas notícias desta semana.
A logística brasileira avança em automação, inteligência digital, infraestrutura, sustentabilidade e novos modelos de negócios. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados à integração entre modais, condições de trabalho, formação profissional, diversidade e capacidade de adaptação.
São transformações que acontecem simultaneamente, mas nem sempre na mesma velocidade.
Não adianta modernizar uma parte da operação se as demais não estiverem preparadas para acompanhar essa evolução. Talvez estejamos entrando em uma etapa na qual a competitividade dependerá menos de avanços isolados e mais da capacidade de conectar essas mudanças.
É o que podemos chamar de Transformação Sistêmica. Quando a tecnologia começa a demonstrar resultados.
A VLI divulgou resultados expressivos obtidos com sua tecnologia de condução ferroviária semiautônoma. Segundo a empresa, a solução proporcionou economia superior a 4 milhões de litros de diesel e evitou a emissão de aproximadamente 9,3 mil toneladas de CO₂. Os resultados mostram como a automação pode contribuir simultaneamente para eficiência operacional, produtividade e sustentabilidade.
No agronegócio, a VAMOS apresentou a aplicação do caminhão semiautônomo Agronomous no transbordo de cana-de-açúcar durante a safra da Adecoagro.
São iniciativas que demonstram como tecnologias antes associadas a cenários futuros começam a encontrar aplicações concretas nas operações brasileiras.
Entretanto, existe uma questão importante. O valor dessas tecnologias não está apenas no equipamento. Está na integração com processos, equipes, manutenção, infraestrutura, planejamento e gestão.
Um caminhão semiautônomo depende de condições operacionais adequadas. Uma ferrovia automatizada depende de sistemas confiáveis e profissionais preparados. Uma solução digital precisa conversar com os demais processos da cadeia.
A tecnologia pode transformar uma atividade. Mas somente sua integração com o restante da operação consegue transformar o resultado.
Essa diferença será cada vez mais importante. O Brasil precisa de infraestrutura que funcione como sistema – Um dos acontecimentos mais relevantes da semana foi a divulgação de dados sobre o setor de operadores logísticos.
Segundo estudo da ABOL, desenvolvido com o ILOS, os operadores logísticos movimentaram R$ 247 bilhões em 2025. O levantamento também evidencia o avanço da multimodalidade, embora a utilização integrada dos diferentes modais ainda encontre limitações.
A diretora executiva da ABOL, Marcella Cunha, contribui para essa discussão ao destacar a importância da conexão entre infraestruturas e da integração logística. Essa reflexão merece atenção. O Brasil possui rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e hidrovias. Mas possuir diferentes estruturas de transporte não significa necessariamente contar com uma rede logística plenamente integrada.
A eficiência de uma ferrovia pode ser limitada pela conexão com o porto. A capacidade de um terminal pode ser comprometida pelo acesso rodoviário. Uma hidrovia pode oferecer vantagens competitivas, mas depender de investimentos, condições de navegabilidade e integração com outros modais.
O Brasil não precisa apenas de uma logística com mais infraestrutura. Precisa de uma infraestrutura capaz de funcionar como sistema.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da necessidade de adaptar os portos brasileiros para receber navios porta-contêineres cada vez maiores. Não basta que os navios evoluam. Os canais de acesso, berços de atracação, equipamentos, terminais e conexões terrestres precisam acompanhar essa evolução. Caso contrário, a modernização de um elo pode simplesmente transferir o gargalo para outro.
A modernização de um elo não garante a evolução da cadeia. Essa talvez seja uma das principais lições desta semana. As associações também ajudam a construir a transformação – A contribuição das entidades representativas merece destaque nesse processo.
A ABOL coloca em evidência a necessidade de integração, multimodalidade e desenvolvimento dos operadores logísticos.
A ABRALOG, por sua vez, trouxe ao debate os possíveis impactos econômicos e operacionais de mudanças na jornada de trabalho, diante das discussões legislativas sobre o fim da escala 6×1.
São questões distintas, mas ambas revelam a complexidade de transformar um setor. A evolução logística não depende apenas de investimentos empresariais. Depende também de políticas públicas, legislação, infraestrutura, formação profissional, condições de trabalho e diálogo entre os diferentes agentes econômicos.
No caso da jornada de trabalho, a discussão envolve dimensões que precisam ser consideradas conjuntamente. De um lado, estão as preocupações com custos, dimensionamento de equipes, escalas operacionais e continuidade de serviços essenciais.
De outro, estão as demandas por melhores condições de trabalho, descanso, saúde e qualidade de vida.
As estimativas de impacto apresentadas por entidades setoriais são contribuições ao debate e precisam ser examinadas à luz das diferentes propostas e possibilidades de adaptação. O desafio não deve ser reduzido a uma oposição entre produtividade e bem-estar.
É necessário compreender como diferentes modelos de organização do trabalho podem afetar empresas, profissionais e serviços. Nesse contexto, as associações exercem um papel importante ao reunir informações, representar experiências do setor e contribuir para a construção de soluções.
A transformação da logística não depende apenas das decisões individuais das empresas. Depende também da capacidade de suas entidades representativas de produzir conhecimento, antecipar impactos e contribuir para o debate sobre o futuro do setor. Quando esse diálogo acontece de maneira qualificada, o setor ganha condições de avançar de forma mais consistente.
A transformação também precisa mudar quem ocupa os espaços – Duas notícias desta semana merecem ser observadas em conjunto.
Uma mostra o avanço das mulheres em posições de liderança na logística e no comércio exterior.
A outra destaca o crescimento da participação feminina no transporte rodoviário de cargas, embora persistam barreiras nas atividades operacionais e nos postos de decisão.
O tema possui uma dimensão que vai além da diversidade. Durante décadas, a logística brasileira foi construída em um ambiente predominantemente masculino. Essa característica marcou sua cultura, suas estruturas de liderança e a distribuição das oportunidades profissionais.
Mas esse cenário vem mudando. Mulheres ampliam sua participação em diferentes funções, desde a gestão de operações até posições executivas e atividades tradicionalmente ocupadas por homens.
O movimento não significa que as desigualdades tenham sido superadas. Ao contrário, a persistência de barreiras mostra que ainda existe um caminho importante a percorrer. Entretanto, há uma transformação em andamento. E ela também faz parte da modernização do setor.
Diversidade não significa apenas permitir que mais pessoas participem de uma atividade. Significa ampliar as experiências, competências e perspectivas que ajudam a construir seu futuro.
Uma lembrança da história da Logweb –
Há mais de duas décadas, a Logweb já chamava atenção para a presença feminina no setor ao publicar uma edição especial dedicada à “Logística de Batom”. Aquela publicação, lembrada até hoje por profissionais e leitores, registrou um tema que ainda buscava conquistar maior visibilidade.
Relembrá-la agora não é apenas revisitar a história editorial da Logweb. É observar a continuidade de uma transformação.
Se antes a presença feminina precisava conquistar reconhecimento em um universo predominantemente masculino, hoje a discussão também envolve ampliar oportunidades de liderança, participação nas decisões e acesso às diferentes atividades da cadeia logística.
A transformação não acontece de uma única vez. Ela avança por meio de conquistas, mudanças culturais, novas oportunidades e superação de barreiras.
E deixa uma reflexão importante: Uma logística que pretende transformar seus sistemas também precisa transformar as oportunidades de participação de quem os constrói.
A modernização do setor não será completa se permanecer restrita às máquinas, aos equipamentos e aos processos. Ela também precisa alcançar as pessoas.
Cuidar de quem transporta também é modernizar – Outra iniciativa da semana reforça essa perspectiva. A parceria entre Algar e Grupo Decio para oferecer telemedicina 24 horas a caminhoneiros nas estradas aproxima serviços de saúde de profissionais cuja rotina frequentemente dificulta o acesso ao atendimento.
A iniciativa merece atenção porque amplia a discussão sobre o que significa modernizar o transporte. Durante muito tempo, os investimentos em transporte foram avaliados principalmente a partir dos veículos. Potência. Consumo. Capacidade de carga. Manutenção. Tecnologia embarcada. Disponibilidade operacional.
Esses fatores continuam fundamentais. Mas uma operação também depende das condições de trabalho e da saúde de quem a executa. O profissional que passa longos períodos nas estradas enfrenta desafios que não podem ser resolvidos apenas com equipamentos mais modernos.
A eficiência de uma operação não pode ser medida apenas pelo desempenho de seus ativos. Precisa considerar também as condições de quem os torna produtivos.
Essa é uma dimensão importante da transformação sistêmica. Porque cuidar das pessoas não é uma atividade paralela à operação. É parte das condições necessárias para que ela funcione.
Redes logísticas começam a assumir novas funções – A Jadlog anunciou ter alcançado 5.500 pontos de atendimento, com a ambição de ampliar significativamente sua proximidade com os consumidores brasileiros.
Os Correios, por sua vez, passaram a disponibilizar mais de 6 mil agências para o descarte gratuito de lixo eletrônico.
As duas iniciativas revelam uma mudança interessante. Redes construídas originalmente para movimentar e entregar mercadorias começam a assumir funções mais amplas. Atendimento. Conveniência. Proximidade. Coleta. Logística reversa. Destinação de resíduos. Integração com novos serviços.
O valor dessas redes deixa de estar apenas na capacidade de transportar um objeto de um ponto a outro. Passa a incluir a possibilidade de conectar pessoas, empresas e serviços por meio de uma estrutura já instalada.
A capilaridade logística começa a se transformar em uma plataforma de novas possibilidades.
É uma evolução importante. Mas ela também exige integração entre sistemas, processos, parceiros e modelos de atendimento. Mais uma vez, o desafio não está apenas na expansão da rede. Está na capacidade de fazê-la funcionar de maneira coordenada.
O comércio exterior também precisa evoluir como sistema – O crescimento das exportações brasileiras e os gargalos operacionais têm acelerado discussões sobre o chamado Comex 3.0.
A proposta de modernização envolve maior digitalização, integração de informações, automação e eficiência nos processos de comércio exterior. Mas a transformação do comércio exterior não pode ser limitada à adoção de ferramentas digitais.
Uma operação internacional envolve empresas, transportadores, agentes de carga, terminais, autoridades, sistemas e diferentes exigências documentais. Se cada participante evoluir isoladamente, a cadeia continuará sujeita a retrabalho, atrasos e fragmentação de informações.
Digitalizar etapas isoladas não significa necessariamente digitalizar a cadeia. Nesse contexto, a parceria entre a eComex e a Universidade Presbiteriana Mackenzie para capacitação de profissionais também ganha relevância.
Novos sistemas exigem novas competências. Novos processos exigem compreensão das mudanças. E a transformação digital depende de pessoas capazes de utilizar a tecnologia de maneira efetiva.
A logística do futuro será cada vez mais digital. Mas continuará profundamente dependente da capacidade humana de interpretar, decidir e coordenar.
Expandir é importante. Integrar é indispensável.
A expansão do Infinity Business Park, da Fulwood, em Extrema (MG), com novos galpões e previsão de mais de 800 vagas de emprego, mostra a continuidade dos investimentos em infraestrutura logística.
A Buslog anunciou a inauguração de nove lojas em outubro, ampliando sua presença nas regiões Sul e Sudeste.
A Ativa Logística inaugurou uma filial em Varginha, alcançando seis unidades em Minas Gerais.
A Scania apresentou iniciativas voltadas à cobertura estendida do trem de força e a investimentos em sua rede de atendimento.
São movimentos que reforçam a expansão e a sofisticação do setor. Entretanto, o crescimento físico precisa ser acompanhado por capacidade de gestão. Novos galpões precisam estar conectados a fluxos eficientes. Novas unidades precisam operar dentro de redes coordenadas. Novos veículos exigem manutenção, serviços e profissionais preparados.
A ampliação de uma estrutura pode criar novas oportunidades. Mas também pode acrescentar complexidade. Por isso, a pergunta estratégica não deve ser apenas quanto uma empresa está crescendo.
Deve incluir como as novas estruturas estão sendo integradas à operação existente. Essa preocupação retoma uma das discussões centrais do nosso 9º Insights, sobre Escala.
Crescer é acrescentar recursos. Escalar exige coordená-los.
O futuro não pode ser instalado por partes – Ao longo das últimas semanas, o Insights Logweb acompanhou diferentes movimentos da logística brasileira. Discutimos Escala, quando observamos que crescer não significa necessariamente ganhar eficiência. Depois, Produtividade, ao questionar como utilizar melhor os recursos disponíveis.
Avançamos para Capacidade, procurando compreender os limites reais das operações. Chegamos à Adaptação, diante da necessidade de responder a ambientes em transformação. Em seguida, discutimos Equilíbrio, quando objetivos aparentemente concorrentes passaram a exigir soluções simultâneas.
Na última edição, abordamos a Antecipação Estrutural, destacando que prever problemas não basta quando a operação não possui condições de responder. Agora, as notícias apontam para outro desafio.
Transformação Sistêmica.
Não basta melhorar a frota se a infraestrutura não acompanha.
Não basta automatizar se os processos permanecem desconectados.
Não basta ampliar a capacidade física se faltam profissionais preparados.
Não basta digitalizar documentos se os sistemas não compartilham informações.
Não basta incorporar novas tecnologias se as condições de trabalho permanecem inadequadas.
Não basta investir em um modal se ele não consegue se integrar aos demais.
O futuro da logística não será determinado apenas pela tecnologia mais avançada de cada empresa. Será determinado pela capacidade de fazer todas as partes funcionarem melhor juntas.
Os Cinco Movimentos da Semana
1. Tecnologia começa a entregar ganhos mensuráveis
A automação ferroviária da VLI e as aplicações semiautônomas no agronegócio mostram avanços concretos em eficiência, produtividade e sustentabilidade.
2. Integração torna-se condição para o crescimento
Os dados da ABOL e do ILOS, as discussões sobre multimodalidade e a evolução do comércio exterior reforçam a necessidade de conectar infraestruturas, processos e informações.
3. Pessoas tornam-se parte central da transformação
As discussões sobre jornadas de trabalho, saúde dos caminhoneiros, capacitação profissional e participação feminina mostram que modernizar a logística também significa transformar suas relações de trabalho e oportunidades.
4. Redes logísticas ampliam sua função econômica e social
A expansão da Jadlog e a utilização da rede dos Correios para logística reversa mostram como a capilaridade pode gerar novas aplicações e serviços.
5. Infraestrutura precisa acompanhar a evolução dos ativos
A adaptação dos portos a navios maiores, a expansão dos centros logísticos e os investimentos em transporte evidenciam que a modernização de uma parte da cadeia exige evolução das demais.
O que observar daqui para frente
Talvez uma das questões mais importantes para os próximos anos seja compreender como o setor conseguirá integrar transformações que estão acontecendo em velocidades diferentes.
A tecnologia continuará avançando. Novos equipamentos chegarão às operações. Sistemas serão digitalizados. Redes serão ampliadas. A infraestrutura receberá investimentos.
Mas será necessário observar se essas mudanças estarão acompanhadas por integração entre modais, qualificação profissional, condições adequadas de trabalho e maior coordenação entre os participantes das cadeias.
Também será importante acompanhar a contribuição das entidades representativas na construção de soluções para desafios que ultrapassam os limites de cada empresa. E observar se o crescimento da participação feminina continuará avançando, especialmente em atividades operacionais e posições de liderança. Porque a transformação sistêmica exige mais do que investimentos.
Exige coordenação. Diálogo. Formação. Inclusão. Planejamento. E capacidade de compreender que o desempenho de uma operação depende também da qualidade de suas conexões.
O desafio não é apenas incorporar o futuro em cada operação. É impedir que estruturas, processos e relações concebidos no passado limitem os resultados das tecnologias do presente.
Reflexão Logweb
Imagine uma empresa que decide modernizar sua logística. Compra equipamentos mais avançados. Investe em automação. Implanta inteligência artificial. Amplia seu centro de distribuição. Renova a frota. Digitaliza processos.
Mas mantém departamentos que não compartilham informações. Profissionais sem capacitação adequada. Processos que não acompanham as novas tecnologias. Fornecedores desconectados. Estruturas que não conversam entre si.
A empresa investiu no futuro. Mas parte de sua operação continua funcionando segundo a lógica do passado. Talvez essa seja uma das maiores contradições da transformação logística.
Podemos modernizar todos os componentes de uma operação e, ainda assim, não conseguir transformar o sistema. Porque a eficiência não depende apenas da qualidade de cada elemento. Depende também da maneira como esses elementos trabalham juntos.
E essa reflexão vale para equipamentos, infraestrutura, tecnologia e pessoas.
Vale para empresas. Para cadeias produtivas. Para os diferentes modais. E para a própria logística brasileira.
Por isso, a pergunta desta semana é: Sua empresa está modernizando sua operação ou apenas modernizando partes dela?
Talvez a resposta revele onde estão os próximos desafios de competitividade. Porque uma logística verdadeiramente moderna não é aquela que reúne as tecnologias mais avançadas.
É aquela em que infraestrutura, processos, informações e pessoas conseguem evoluir juntos.
E talvez seja essa a transformação mais difícil.
Não a de cada parte.
Mas a do sistema inteiro.
Valeria Lima
Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain
Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”








