Insights Logweb – O movimento da semana de 28 de setembro a 02 de outubro

A logística do equilíbrio: crescer, transformar e continuar competitivo

*Por Valeria Lima

E se a próxima vantagem competitiva estiver em trocar o “ou” pelo “e”?

Durante muito tempo, administrar uma operação significou fazer escolhas. Crescer ou reduzir custos. Ganhar velocidade ou aumentar o controle. Investir em sustentabilidade ou preservar competitividade. Manter estoques ou liberar capital. Internalizar ou terceirizar. Expandir ou ganhar eficiência.

Mas as notícias desta semana sugerem que a logística está entrando em uma fase na qual escolher apenas um dos lados talvez já não seja suficiente.

As empresas estão sendo pressionadas a crescer e reduzir emissões. Aumentar capacidade e utilizar melhor os ativos. Ganhar velocidade e controlar riscos. Incorporar novas tecnologias e desenvolver pessoas. Reduzir custos e construir resiliência. Talvez essa seja uma das grandes mudanças da gestão logística contemporânea: a nova competitividade não será construída escolhendo entre eficiência, crescimento e sustentabilidade. Será construída pela capacidade de avançar nas três dimensões ao mesmo tempo.

Crescer mais e emitir menos – Um dos exemplos mais emblemáticos desta semana vem de uma operação particularmente complexa: a cadeia fria.

A Emergent Cold LatAm divulgou crescimento de 52% de sua capacidade operacional na América Latina, ao mesmo tempo em que registrou redução de 23% nas emissões totais de gases de efeito estufa. Em uma atividade intensiva em energia, a empresa informa ainda que fontes renováveis passaram a representar 65% de sua matriz energética e que as emissões diretas recuaram 53%.

Os números colocam diante do setor uma questão importante. E se crescer e reduzir impacto deixarem de ser movimentos necessariamente opostos?

Durante muito tempo, crescimento empresarial significou quase automaticamente mais estrutura, mais energia, mais transporte e maior impacto ambiental. Esse vínculo começa a ser questionado. Não significa que crescer tenha deixado de consumir recursos.

Significa que a qualidade do crescimento passou a importar tanto quanto sua velocidade. Talvez o próximo estágio da logística não seja escolher entre objetivos concorrentes. Seja construir operações capazes de conciliá-los.

Quando energia deixa de ser apenas custo – A discussão se torna ainda mais concreta quando observamos outra notícia da semana.

Dados da Veloe/Fipe revelam: preço do diesel sobe para R$ 7,17 com impacto do conflito EUA-Israel-Irã

O diesel acumula alta de 20,4%, pressionando o piso do frete e levando o SETCESP a alertar para impactos sobre contratos, margens e toda a cadeia logística. Aqui, a transição energética deixa de ser uma discussão exclusivamente ambiental. Energia passa a representar simultaneamente: custo, dependência, risco, previsibilidade, competitividade e estratégia.

No agronegócio, essa equação já começa a produzir movimentos concretos.

Biometano, eletrificação e outros combustíveis renováveis ganham espaço na logística agrícola, mas sem uma única tecnologia apontada como solução universal. E talvez essa seja justamente a questão. As características de cada operação, as distâncias, a disponibilidade de infraestrutura, o tipo de equipamento e a geografia exigirão combinações diferentes.

Não existe equilíbrio sem escolhas diferentes para realidades diferentes. É uma continuidade natural da discussão que fizemos no 12º Insights Logweb sobre Adaptação. Adaptar-se também significa não procurar uma resposta única para problemas que são diferentes.

Quando sustentabilidade precisa enfrentar a estrada – A Henkel colocou em operação três carretas movidas a biometano, com capacidade de 75 toneladas. É mais um movimento importante porque tira a discussão do campo exclusivamente conceitual. A sustentabilidade precisa enfrentar a operação. A estrada. A carga. A distância. A disponibilidade do veículo. A infraestrutura de abastecimento. A produtividade. O custo.

No 8º Insights Logweb, quando discutimos Maturidade, observamos que a sustentabilidade começava a ser submetida ao teste da operação. Esse teste continua.

A pergunta já não pode ser apenas: “Essa tecnologia é sustentável?”

Precisa ser também: “Essa tecnologia consegue ser sustentável sem deixar de ser operacionalmente competitiva?”

Quando essas duas respostas começam a convergir, a transição ganha condições reais de escala.

Quando sustentabilidade entra na cotação – Outro caso desta semana mostra como essa transformação começa a percorrer as cadeias produtivas.

A OMR divulgou um projeto que reduziu em mais de dois terços a pegada de carbono associada à produção de componentes automotivos. A iniciativa envolveu eficiência energética, uso de energia renovável, otimização de processos e circularidade dos materiais. Mas existe um elemento especialmente importante nesse caso: o movimento nasceu também de uma demanda do cliente.

Isso muda a natureza da discussão. Sustentabilidade deixa de permanecer restrita à reputação corporativa e começa a participar diretamente da relação comercial entre empresas.

O cliente estabelece requisitos. O fornecedor modifica processos. A indústria mede resultados. A cadeia inteira começa a se movimentar.

Quando sustentabilidade entra na cotação, deixa de ser apenas reputação e passa a fazer parte da competitividade. E talvez esse seja um dos movimentos mais importantes a observar nos próximos anos.

Metas ambientais podem acelerar mudanças não apenas porque empresas desejam comunicar compromissos, mas porque clientes, mercados, investidores e cadeias produtivas começarão a exigir resultados concretos.

Fazer o mesmo ativo produzir valor por mais tempo – Outro movimento aparentemente distante da descarbonização ajuda a compreender a lógica do equilíbrio. Usinas de cana estão investindo em modelos híbridos para operar também com etanol de milho durante a entressafra. O efeito logístico e econômico é relevante. Estruturas administrativas, laboratórios, armazéns e outros ativos existentes podem permanecer produtivos por períodos maiores.

A operação reduz ociosidade. Dilui custos fixos. Utiliza melhor a capacidade instalada.  Essa discussão nos leva diretamente ao nosso 10º Insights sobre Produtividade e ao 12º sobre Adaptação.

O ativo existe. A pergunta passa a ser: quanto valor conseguimos extrair dele ao longo do tempo?

E existe uma conclusão importante: equilíbrio também significa reduzir a distância entre capacidade instalada e capacidade utilizada. Talvez muitas oportunidades de competitividade ainda estejam escondidas exatamente nessa distância.

Eficiência ou autonomia?

O investimento de R$ 1,7 bilhão anunciado pela Usiminas em Ipatinga acrescenta outra dimensão à discussão. A reconstrução de uma bateria de coque busca ampliar a produção própria de um insumo estratégico, reduzindo dependências externas e aumentando previsibilidade operacional.

A decisão coloca diante das empresas uma questão que ganhou importância depois das rupturas globais dos últimos anos: qual é o equilíbrio adequado entre eficiência e autonomia?

Durante décadas, cadeias de suprimentos buscaram eficiência por meio de especialização, terceirização, redução de estoques e concentração de fornecedores.

Em muitos casos, funcionou. Mas crises, oscilações de custos, conflitos, gargalos e rupturas mostraram que eficiência excessivamente dependente de determinadas condições também pode produzir vulnerabilidade.

Isso não significa internalizar tudo. Significa fazer uma pergunta mais sofisticada: qual dependência ainda gera eficiência — e qual já começou a gerar vulnerabilidade?

Resiliência também possui custo. Mas a ausência dela pode custar muito mais.

Crescer continua exigindo estrutura – Enquanto empresas procuram utilizar melhor ativos existentes, outras continuam ampliando capacidade física.

A Madesa anunciou investimento superior a R$ 4 milhões em um centro de distribuição ligado à expansão de suas operações e de sua presença internacional.

A SHEIN ampliou seu centro logístico em Guarulhos e anunciou 850 vagas de emprego.

A Kothe avança em São Paulo com um novo complexo logístico de 64 mil metros quadrados em Cajamar.

Esses movimentos mostram que otimização não elimina a necessidade de expansão. Em determinados momentos, crescer exige acrescentar estrutura.

A questão passa a ser como essa nova estrutura será utilizada, integrada, energizada, automatizada e preparada para mudanças futuras.O futuro da logística não será simplesmente fazer menos. Será, cada vez mais, crescer de maneira diferente.

Velocidade sem controle também destrói valor – A proximidade da Black Friday acrescenta outra tensão. As empresas precisam preparar frotas, equipes e operações para um aumento significativo da demanda. Mas precisam fazer isso diante de mudanças no perfil do roubo de cargas e de novos riscos operacionais.

Mais veículos na rua. Mais entregas. Mais pressão por prazo. Mais valor circulando. A tentação natural é acelerar. Mas acelerar sem preservar controles pode apenas transferir o problema.

Uma operação não é realmente rápida quando ganha tempo na execução e perde valor no risco. Por isso, outra equação começa a ganhar importância: velocidade e controle. Não velocidade ou controle.

Em operações cada vez mais complexas, performance dependerá da capacidade de entregar os dois.

A mobilidade também procura seu ponto de equilíbrio – Inteligência artificial, eletrificação e conectividade estiveram no centro das discussões sobre o futuro da mobilidade nesta semana.

Ao mesmo tempo, empresas testam biometano, eletrificação, combustíveis renováveis e novas tecnologias aplicadas aos transportes. A Bridgestone assume o fornecimento exclusivo de pneus da Fórmula E para a temporada 2026/27 colocando sustentabilidade e alta performance dentro da mesma proposta tecnológica.

Essa combinação é simbólica. Porque durante muito tempo sustentabilidade foi tratada como uma possível restrição à performance. Agora, a inovação começa a buscar exatamente o contrário: transformar sustentabilidade em parte da performance.

Quando isso acontece, a agenda ambiental deixa de disputar espaço com a competitividade. Passa a integrá-la.

E novamente chegamos às pessoas – Ford e Volkswagen anunciaram programas de estágio voltados às próximas gerações de profissionais, enquanto a JSL abriu mais de 300 vagas para motoristas. As necessidades são diferentes. Mas as notícias reforçam algo que apareceu fortemente no nosso 12º Insights. Uma operação pode comprar tecnologia rapidamente. Competência não se compra na mesma velocidade.

IA. Eletrificação. Conectividade. Novos combustíveis. Automação. Novas cadeias internacionais. Todas essas transformações exigirão profissionais capazes de operar uma logística diferente daquela que conhecemos hoje.

E surge mais um equilíbrio: automatizar e formar. Tecnologia e pessoas. Novamente, não deveria ser uma escolha entre uma coisa ou outra.

A logística está mudando suas equações – Ao longo das últimas semanas, o Insights Logweb acompanhou uma sequência interessante.

Falamos de Escala. Depois, de Produtividade. Em seguida, de Capacidade. Na semana passada, chegamos à Adaptação. Agora, as notícias nos levam ao Equilíbrio.

A sequência não foi planejada. Surgiu dos acontecimentos. Primeiro, as empresas precisam descobrir como crescer sem aumentar a complexidade na mesma proporção. Depois, como utilizar melhor os recursos disponíveis. Em seguida, precisam compreender onde realmente estão seus limites.

Quando a realidade muda, precisam saber se adaptar. E então surge um desafio ainda mais complexo: administrar simultaneamente objetivos que parecem contraditórios.

Talvez essa seja uma das características mais importantes da logística que está sendo construída. Ela não poderá escolher simplesmente entre custo e serviço. Entre crescimento e sustentabilidade. Entre eficiência e resiliência. Entre tecnologia e pessoas. Entre velocidade e controle.

As novas equações começam a exigir “e” onde antes aceitávamos “ou”.

Os Cinco Movimentos da Semana

✔ Crescimento e descarbonização começam a caminhar juntos — operações mostram que ampliar capacidade não precisa significar aumentar impacto ambiental na mesma proporção.

✔ Energia torna-se uma variável estratégica — diesel, biometano, eletrificação e combustíveis renováveis colocam custo, dependência e sustentabilidade dentro da mesma decisão.

✔ Sustentabilidade entra na competitividade — requisitos ambientais começam a influenciar fornecedores, processos, investimentos e relações comerciais.

✔ Ativos precisam produzir valor por mais tempo — novos modelos operacionais mostram que produtividade também significa reduzir ociosidade e aproveitar melhor estruturas existentes.

✔ Resiliência redefine a eficiência — autonomia, segurança, fornecedores, riscos e controles passam a fazer parte de uma equação que antes era dominada principalmente pelo custo.

O que observar daqui para frente

Talvez uma das mudanças mais importantes seja observar quantas decisões empresariais deixarão de ser tratadas como escolhas excludentes.

Empresas conseguirão crescer sem elevar emissões na mesma proporção?

Combustíveis alternativos conseguirão competir também em custo, disponibilidade e desempenho?

Metas ambientais passarão a influenciar cada vez mais as relações entre embarcadores e fornecedores?

Quanto as empresas estarão dispostas a investir em resiliência para reduzir dependências críticas?

Como equilibrar velocidade, segurança e qualidade em períodos de pico?

E como formar pessoas na mesma velocidade em que mudam tecnologias e operações?

Não haverá uma resposta única. Mas provavelmente haverá uma característica comum entre as empresas que conseguirem avançar: a capacidade de administrar várias dimensões da competitividade ao mesmo tempo.

Reflexão Logweb

Durante muito tempo, administrar significou escolher.

Crescer ou reduzir custos.

Ganhar velocidade ou aumentar controle.

Investir em sustentabilidade ou preservar competitividade.

Internalizar ou terceirizar.

Expandir ou ganhar eficiência.

Mas talvez a logística esteja entrando em uma fase na qual escolher apenas um lado já não seja suficiente.

As empresas serão pressionadas a crescer e reduzir impacto.

Ganhar velocidade e controlar riscos.

Incorporar tecnologia e desenvolver pessoas.

Aumentar capacidade e utilizar melhor seus ativos.

Reduzir custos e construir resiliência.

Talvez a competitividade do futuro esteja justamente na capacidade de administrar essas tensões sem transformar uma prioridade em obstáculo para outra.

Por isso, a reflexão desta semana não é sobre qual lado escolher.

É sobre quantas escolhas talvez precisem ser repensadas.

Quantas decisões da sua logística ainda são tratadas como “ou” quando o futuro talvez esteja exigindo “e”?

Talvez essa pergunta revele onde estão alguns dos próximos movimentos estratégicos da sua operação. Porque equilíbrio não significa ficar no meio do caminho.

Significa encontrar uma forma de continuar avançando sem deixar para trás aquilo que também se tornou essencial.

Valeria Lima
Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain
Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”

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