Insights Logweb – O movimento da semana de 19 a 23 de outubro

A logística já tem dados. Agora precisa transformar inteligência em resultado.

*Por Valéria Lima

O que realmente muda quando uma operação se torna mais inteligente?

Imagine uma empresa que acompanha sua operação em tempo real.  Os veículos são monitorados.  Os equipamentos possuem sensores.  Os sistemas produzem indicadores.  A inteligência artificial identifica padrões, analisa informações e recomenda decisões.  Os gestores recebem alertas sobre desvios e riscos.  A empresa nunca teve tantos dados disponíveis.  Mas os processos continuam lentos.  As decisões permanecem concentradas.

As equipes enfrentam dificuldades para utilizar as informações.   E os problemas identificados pelos sistemas continuam se repetindo.  A empresa se tornou mais informada.

Mas será que se tornou mais eficiente?

Essa pergunta ajuda a compreender o movimento revelado pelas notícias desta semana.  A logística brasileira avança na utilização de inteligência artificial, telemetria, automação e novas soluções digitais.

Ao mesmo tempo, enfrenta pressões sobre custos, desafios de qualificação profissional, necessidade de integração e exigências crescentes de produtividade.  São movimentos que revelam uma questão fundamental.

A próxima vantagem competitiva da logística não estará em quem possui mais informações, mas em quem consegue transformar conhecimento em decisões, ações e resultados.

É o que podemos chamar de Inteligência Aplicada. 

Da informação à execução – Durante muitos anos, a transformação digital da logística esteve concentrada na obtenção de visibilidade.  Era necessário conhecer a localização dos veículos.  Monitorar estoques.  Acompanhar entregas.  Identificar atrasos.  Medir produtividade.  Integrar informações.  Esses avanços continuam essenciais.

Mas a evolução da inteligência artificial começa a modificar a natureza dessa transformação.  Os sistemas deixam de apenas apresentar informações e passam, em determinadas aplicações, a participar da execução de atividades.

A parceria entre CMA CGM e HappyRobot, com a expansão de uma solução global de inteligência artificial por voz, ilustra esse movimento.  A tecnologia amplia as possibilidades de automatização de interações e processos relacionados à operação logística.

Outro exemplo vem da startup brasileira UpFlux, que utiliza agentes autônomos para automatizar atividades de compras corporativas, especialmente aquelas associadas a itens de menor valor e grande diversidade, conhecidos como long tail.  São aplicações diferentes.  Mas apontam para uma mesma direção.

A inteligência começa a deixar de ser apenas uma ferramenta de consulta para participar diretamente do trabalho.

Isso modifica a discussão sobre retorno dos investimentos em tecnologia.  Não basta perguntar quantos processos foram digitalizados.  É necessário compreender quantas atividades foram efetivamente melhoradas.  Quanto tempo foi liberado.  Quantos erros foram evitados.  Quanto retrabalho foi eliminado.  E qual valor foi produzido.

Digitalizar uma atividade não significa necessariamente torná-la mais inteligente.  A inteligência aparece quando a tecnologia contribui para modificar a qualidade da execução.

A diferença entre monitorar e compreender  –  A evolução da telemetria na gestão de frotas e no mercado de locação de equipamentos oferece outro exemplo importante.  Durante muito tempo, monitorar significava saber onde um equipamento estava e se permanecia em funcionamento.

Hoje, as informações podem contribuir para compreender padrões de utilização, necessidades de manutenção, disponibilidade e produtividade.  Essa evolução também aparece nas discussões sobre a passagem do monitoramento à inteligência nas operações logísticas.

Mas existe uma diferença fundamental entre possuir indicadores e compreender o que eles representam.  Um equipamento pode apresentar elevada utilização e, ainda assim, produzir resultados insatisfatórios.  Um caminhão pode percorrer mais quilômetros sem necessariamente transportar mais valor.  Um centro de distribuição pode registrar aumento de movimentação enquanto acumula desperdícios. 

Os indicadores mostram o que está acontecendo.  A análise precisa explicar por quê.  E a gestão precisa decidir o que fazer.

O valor da informação não está apenas naquilo que ela revela. Está na decisão que ela permite melhorar.  Essa é uma mudança importante para empresas que já investiram em tecnologia, mas ainda procuram capturar seus benefícios de maneira consistente.

O paradoxo da inteligência artificial e do conhecimento humano  –  Uma das notícias mais interessantes desta semana vem do Guia Salarial 2027 da Michael Page, que aborda o paradoxo da inteligência artificial e as transformações nas competências profissionais do supply chain.  A questão merece atenção porque existe uma interpretação simplificada sobre a evolução tecnológica.

A de que sistemas cada vez mais inteligentes tornarão o conhecimento humano progressivamente menos importante.  Mas a realidade das operações sugere uma transformação mais complexa.

À medida que atividades repetitivas são automatizadas, outras competências podem ganhar relevância.  Capacidade analítica.  Pensamento crítico.  Interpretação de cenários.  Gestão de exceções.  Conhecimento operacional.  Comunicação.  Liderança.  Tomada de decisão.

A inteligência artificial pode processar grandes volumes de informação e executar determinadas tarefas com velocidade.  Entretanto, a aplicação dessa capacidade depende de objetivos claros, processos adequados, supervisão, conhecimento do negócio e responsabilidade sobre as decisões.

Quanto mais inteligência incorporamos aos sistemas, mais importante se torna compreender o que esperamos que eles façam.  A tecnologia não elimina a necessidade de profissionais preparados.  Ela modifica o tipo de preparação necessária.  E talvez essa seja uma das questões mais estratégicas para a logística brasileira.

Estamos investindo na modernização dos sistemas.  Mas estamos investindo, na mesma proporção, na evolução das competências das pessoas?

A disputa por profissionais também é uma disputa por capacidade  –  Outra notícia da semana destaca como o crescimento da logística intensifica a disputa por mão de obra e exige novas estratégias de atração.

Esse movimento se conecta diretamente ao debate sobre inteligência artificial.  A expansão das operações exige profissionais.  A digitalização modifica competências.  A automação transforma atividades.  E o setor precisa administrar essas mudanças simultaneamente. 

A Hidrovias do Brasil, ao anunciar a sexta edição do Programa Aceleraê, com uma certificação inédita em classificação de grãos no Pará, apresenta um exemplo de investimento em qualificação ligado às necessidades de uma operação concreta.

A competição nacional de habilidades técnicas promovida pela Ford também chama atenção para a valorização do conhecimento especializado.

São iniciativas que reforçam uma ideia importante.

Competência profissional não é um recurso complementar à tecnologia. É parte da capacidade de transformá-la em resultado.  Uma operação pode adquirir sistemas avançados.  Mas precisa de pessoas capazes de utilizá-los, supervisioná-los, questioná-los e aperfeiçoar os processos aos quais estão conectados.

No Insights anterior, discutimos a Transformação Sistêmica e observamos que não adianta modernizar uma parte da operação se as demais não estiverem preparadas para acompanhar.  Agora, essa reflexão ganha uma dimensão adicional.

A inteligência aplicada depende tanto da evolução tecnológica quanto da evolução humana.

A Fenatran e o teste da aplicação prática  –  A Fenatran 2026 concentra uma série de lançamentos e discussões que ajudam a compreender esse movimento.

A Scania apresentou novas soluções para coleta de resíduos, flexibilidade de eixos e uma gama de motores Super de 11 litros voltada à eficiência.

A VAMOS anunciou a apresentação de tecnologias associadas à redução de mais de 172 mil toneladas de CO₂, segundo dados divulgados pela empresa.

A feira também reúne debates sobre os desafios do transporte de cargas, além de soluções para diferentes necessidades operacionais.

O aspecto mais importante não está apenas na quantidade de novidades. Está na diversidade de problemas que essas tecnologias procuram resolver.  Consumo de combustível.  Disponibilidade dos veículos.  Adequação às aplicações.  Eficiência energética.  Custos de manutenção.  Produtividade.  Sustentabilidade.

A evolução tecnológica do transporte não pode ser medida apenas pela sofisticação dos equipamentos.  Precisa ser avaliada pelos resultados obtidos nas condições reais de utilização.

Uma tecnologia não se torna estratégica apenas porque é avançada. Torna-se estratégica quando resolve um problema relevante da operação.  Essa distinção é essencial para empresas que precisam decidir onde investir recursos limitados.

Quando o custo exige decisões mais inteligentes  –  A pressão sobre os custos do transporte continua presente.  Segundo levantamento divulgado pela TruckPag, o diesel subiu 5% em setembro e encerrou o mês 17% acima da média de janeiro.

Ao mesmo tempo, as discussões sobre o piso mínimo do frete reforçam a necessidade de contratos mais previsíveis e de maior disciplina na gestão dos custos logísticos.

Essas pressões tornam ainda mais importante a utilização inteligente das informações.  Mas também evidenciam seus limites.  Nenhum sistema consegue eliminar, por si só, o aumento do preço de um combustível.

Nenhuma ferramenta digital substitui a necessidade de contratos adequados.  A inteligência aplicada precisa ajudar as empresas a compreender sua exposição, avaliar alternativas, melhorar a utilização dos recursos e tomar decisões economicamente sustentáveis.  Isso pode envolver planejamento de rotas. Redução de deslocamentos improdutivos.  Melhor aproveitamento da capacidade de carga.  Manutenção preventiva.  Negociação contratual.  Análise de custos por operação.

A inteligência não elimina as restrições econômicas. Mas pode ampliar a capacidade de administrá-las.  E, em um ambiente de margens pressionadas, essa diferença pode ser decisiva.

A inteligência também precisa conectar a cadeia  –  A notícia sobre a integração logística do agronegócio, da fazenda ao destino, amplia a discussão.  A competitividade de uma cadeia não depende apenas da eficiência de cada participante.  Depende da coordenação entre produção, armazenagem, transporte, terminais e mercados consumidores.

O recorde de carregamento de celulose da Suzano no Porto de Santos, com 77,2 mil toneladas embarcadas no navio Star Nordkapp, demonstra a escala alcançada por operações especializadas.

O Porto de Imbituba também apresentou resultados expressivos de movimentação em 2026.

Enquanto isso, investimentos em novos berços para granéis líquidos no Porto de Santos e a construção de um navio Handymax encomendado pela Transpetro mostram a continuidade da ampliação da infraestrutura.

São movimentos que envolvem ativos físicos.  Mas sua eficiência depende cada vez mais da qualidade das informações utilizadas para coordená-los. 

A inteligência aplicada precisa ultrapassar os limites de cada empresa.  Porque uma decisão eficiente dentro de um terminal pode não produzir o melhor resultado para toda a cadeia.  Um transporte otimizado isoladamente pode gerar espera em outro elo.  Uma programação de produção pode pressionar a armazenagem ou o embarque.

A inteligência de uma cadeia não corresponde simplesmente à soma da inteligência de seus participantes.  Ela depende da capacidade de compartilhar informações relevantes e coordenar decisões.  Essa é uma das fronteiras mais importantes da evolução logística. 

A Black Friday mostra onde a inteligência encontra a realidade  –  A preparação para a Black Friday oferece um exemplo particularmente concreto.  Uma das notícias desta semana aponta a previsão de movimentação de 55 milhões de pacotes na logística internacional até dezembro.  Outra destaca que a preparação logística para a data começa meses antes do aumento das compras.

São operações que exigem previsões de demanda, planejamento de capacidade, gestão de estoques, organização de equipes e integração entre diferentes participantes.  Mas a previsão é apenas o início.  A inteligência precisa ajudar a decidir onde posicionar mercadorias.  Quanto espaço contratar.  Como distribuir recursos.  Quais rotas priorizar.  Quando reforçar equipes.  Como reagir a desvios.

A expansão das entregas expressas da Loja do Mecânico para produtos de médio e grande porte acrescenta outra dimensão: a exigência de velocidade alcança operações com características físicas cada vez mais complexas.  Nesse cenário, a qualidade das decisões pode ser tão importante quanto a capacidade instalada.

A Black Friday não testa apenas quanto uma operação consegue movimentar. Testa quanto conhecimento ela conseguiu transformar em preparação.  E essa é uma diferença fundamental.

Quando a logística passa a criar valor para a marca  –  Outra notícia desta semana mostra como o supply chain influencia o valor e a experiência das marcas de beleza e luxo.  É uma discussão relevante porque amplia a maneira de compreender o resultado logístico.

Em determinados mercados, a entrega não representa apenas a conclusão de uma transação.  Ela participa da experiência do consumidor.  A disponibilidade do produto.  A apresentação.  A integridade.  O prazo.  A rastreabilidade.  A confiabilidade.  Todos esses elementos podem influenciar a percepção da marca.

Nesse contexto, inteligência aplicada não significa apenas reduzir custos operacionais.  Significa compreender como decisões logísticas afetam o valor entregue ao cliente.

Uma logística inteligente não é necessariamente aquela que custa menos. É aquela que consegue demonstrar o valor que produz.  E esse valor pode aparecer em eficiência, qualidade, experiência, confiabilidade e competitividade.

O próximo avanço não será apenas tecnológico  –  Ao longo das últimas edições, acompanhamos uma sequência de movimentos. 

Discutimos Escala, quando crescer passou a exigir maior capacidade de coordenação.

Depois, Produtividade, ao observarmos a necessidade de utilizar melhor os recursos disponíveis.

Avançamos para Capacidade, procurando compreender os limites reais das operações.

Chegamos à Adaptação, diante de mercados e condições em transformação.

Em seguida, discutimos Equilíbrio, quando objetivos aparentemente concorrentes passaram a exigir soluções simultâneas.

A Antecipação Estrutural mostrou que prever problemas não basta quando a operação não possui condições de responder.

Na última edição, a Transformação Sistêmica revelou que modernizar componentes isolados não significa transformar o conjunto.

Agora, chegamos à Inteligência Aplicada.

É uma continuidade importante.  Porque não basta possuir tecnologia.  Não basta produzir informações.  Não basta identificar problemas.  Não basta integrar sistemas.  É necessário transformar tudo isso em melhores decisões e resultados concretos.

Talvez a próxima etapa da logística brasileira não seja definida pela quantidade de inteligência artificial incorporada às operações.  Seja definida pela capacidade de transformar essa inteligência em produtividade, eficiência, qualidade, sustentabilidade e valor.

E, principalmente, pela capacidade de preparar as pessoas para participar dessa transformação.

Os Cinco Movimentos da Semana

1. A inteligência começa a participar da execução – Soluções de IA por voz e agentes autônomos mostram como a tecnologia avança do fornecimento de informações para a realização de atividades operacionais.

2. O conhecimento humano ganha novas exigências – O Guia Salarial 2027, a disputa por profissionais e os programas de capacitação reforçam a importância de competências analíticas, técnicas e de gestão.

3. A tecnologia precisa demonstrar resultado operacional – Telemetria, automação e inovações apresentadas na Fenatran ampliam a discussão sobre produtividade, custos, disponibilidade e eficiência energética.

4. A pressão econômica aumenta o valor das boas decisões – A elevação do diesel e as discussões sobre o piso do frete exigem maior previsibilidade contratual e utilização inteligente dos recursos.

5. A inteligência precisa alcançar toda a cadeia – Agronegócio, portos, comércio, distribuição e Black Friday mostram que resultados dependem da coordenação entre informações, ativos e participantes.

O que observar daqui para frente

A expansão da inteligência artificial deverá trazer uma pergunta cada vez mais importante para os gestores logísticos:  Quais resultados estão efetivamente mudando depois da implantação da tecnologia?

Será necessário observar se os investimentos em automação estarão acompanhados de indicadores claros de desempenho.

Se as empresas conseguirão transformar dados em decisões mais rápidas e consistentes.

Se a utilização de agentes autônomos modificará processos de compras, atendimento e gestão operacional.

Se os ganhos de telemetria e automação serão convertidos em produtividade mensurável.

E, especialmente, se a qualificação profissional acompanhará a velocidade dessas mudanças.

Outro ponto será compreender como a inteligência poderá ultrapassar as fronteiras das empresas e contribuir para decisões mais coordenadas entre os participantes das cadeias.

Porque o futuro não dependerá apenas de sistemas capazes de produzir respostas.  Dependerá também de organizações capazes de fazer as perguntas certas.

A inteligência artificial poderá ampliar extraordinariamente a capacidade de execução. Mas continuará sendo necessário definir o que merece ser executado, por quê e com quais resultados.

Reflexão Logweb

Durante muito tempo, a grande dificuldade da logística foi obter informação.  Não sabíamos exatamente onde estavam as cargas.  Não conhecíamos suficientemente a utilização dos equipamentos.  Não conseguíamos acompanhar todos os processos.  As decisões eram tomadas com informações incompletas.  Então vieram os sistemas de gestão.  O rastreamento.  A telemetria.  Os indicadores em tempo real.  A análise de dados.

E agora a inteligência artificial.  Nunca tivemos tantas possibilidades de compreender uma operação.  Mas talvez estejamos diante de uma nova contradição. 

É possível ter mais inteligência disponível e continuar tomando decisões pouco inteligentes.

É possível conhecer um desperdício e não eliminá-lo.

Identificar uma oportunidade e não aproveitá-la.

Prever um problema e não agir.

Automatizar um processo que deveria ser redesenhado.

Investir em tecnologia sem preparar as pessoas.

Produzir indicadores sem transformar resultados.

Por isso, a pergunta desta semana é:  Sua empresa está investindo em inteligência para compreender melhor a operação ou para transformar efetivamente a maneira como ela funciona?

Talvez a resposta revele a diferença entre uma empresa digitalizada e uma empresa verdadeiramente inteligente.  Porque o valor da tecnologia não está apenas no que ela consegue identificar, analisar ou executar.  Está naquilo que a organização passa a ser capaz de fazer melhor.

E essa transformação continua dependendo de pessoas.  Pessoas que compreendem o negócio.  Que questionam processos.  Que interpretam resultados.  Que reconhecem limites.  Que assumem decisões.  E que conseguem utilizar novas ferramentas para construir soluções melhores.

A inteligência só se torna vantagem competitiva quando modifica o que a operação é capaz de fazer.

Talvez a logística do futuro não seja aquela que possui mais inteligência artificial.  Seja aquela que consegue transformar melhor a inteligência — humana e tecnológica — em valor real.

Valeria Lima
Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain
Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística

“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”

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