Exportações do agronegócio devem bater recorde e superar a barreira dos US$ 100 bi pela 2ª vez na história

08/01/2021

Depois de um ano de preços e vendas em alta, o agronegócio brasileiro deve viver novo recorde em 2021. O setor, que ajudou a minimizar o impacto da crise na economia brasileira, deve exportar US$ 112,9 bilhões, segundo projeção da MB Agro. Caso a projeção se confirme, será a segunda vez na história que a atividade supera a marca dos US$ 100 bilhões em vendas ao exterior. A primeira foi em 2018, com um total exportado de US$ 101,7 bilhões.

Alguns sinais evidenciam o dinamismo do setor. Até o terceiro trimestre, a agropecuária foi a única atividade a registrar crescimento, com alta acumulada de 2,4% segundo o IBGE. Mesmo durante a pandemia, a atividade encerrou 2020 com criação de vagas formais.

Dois fatores explicam os prognósticos positivos para este ano: quantidade e preço. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) prevê colheira recorde de 265 milhões de toneladas de grãos na safra 2020/2021, o que significa alta de 3,5% sobre a anterior. Essa projeção representa um aumento de produtividade, pois a área plantada cresceu apenas 1,6%.

A alta da produção tem papel relevante, mas é a elevação do preço de commodities, como soja e milho, a principal responsável pela estimativa de exportações recordes.

Um dos fatores que contribuem para o aumento da demanda por grãos é a retomada da produção chinesa de suínos. Após a peste suína africana de 2018, que comprometeu cerca de 20% do seu plantel, a China está ampliando a criação de porcos. Os grãos são usados na alimentação dos animais.

A expectativa, porém, é que o recorde de exportações não se traduza em novo salto na inflação de alimentos como no ano passado, quando a escalada de preços foi de tal magnitude que alguns supermercados chegaram a restringir temporariamente a compra de unidades de alguns produtos.

Isso em razão do fim do auxílio emergencial, que aumentou a demanda entre as famílias de renda mais baixa, e da perspectiva de um ano com menos sustos no câmbio.

— O produtor começa o ano com uma perspectiva muito boa. Os preços internacionais estão em patamares elevados e muitos produtores já venderam a próxima safra por valores, em dólar, muito maiores que a realizada em 2019/2020 — afirmou José Carlos O’Farrill Vannini Hausknecht, sócio da MB Agro Consultoria. — Esse impacto tende a ser maior que o aumento da safra, que ainda pode sofrer com problemas de clima.

De fato, a própria Conab já reduziu sua previsão de safra, que antes estava em 268 milhões de toneladas. Além de estarmos em período de “La Niña”, quando ocorre um resfriamento das águas do Pacífico, alterando todo o clima na América do Sul, as secas maiores que o previsto no segundo semestre causaram atraso no plantio de soja. Este atraso da produção pode afetar ainda a produção de milho.

O clima desta safra está pior e mais desafiador que a safra anterior e já compromete a produção de culturas perenes, como café e laranja, além da cana de açúcar. O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, atualmente coordenador do Centro de Agronegócio na Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), avalia que ainda é cedo para cravar que a produção de grãos baterá recorde.

Porém, além do clima, outro fator determinante no agronegócio em 2021 — e em toda a economia — será a evolução da pandemia. Uma piora no quadro antes que a vacinação em massa surta efeito pode estressar o mercado, que em meados de 2020 correu para formar estoques, por medo de desabastecimento.

— A pandemia trouxe de volta o fantasma do desabastecimento. Isso gerou debates protecionistas, mas, do lado brasileiro, foi uma surpresa positiva, pois estávamos com uma grande safra. Se a pandemia não for debelada no primeiro semestre, é muito provável que a demanda global por alimentos continue muito aquecida. Por outro lado, é possível que não tenhamos planos de auxílio tão grandes, que elevam a demanda por alimentos. Essa é a variável fundamental em 2021 — afirmou Rodrigues.

Tarso Veloso, gerente da AgResource, em Chicago, nos EUA, afirma que a perspectiva de preços de commodities em alta segue por mais um ano, em razão da maior demanda global por causa da pandemia.

— O que acontece agora no mercado é uma demanda ainda crescente da China e de outros mercados e uma frustração de safra grande. Tivemos quebra de safra de trigo na Rússia, no ano passado em Iowa, Estados Unidos, e agora tivemos o pior início de safra de soja, na plantação, no Mato Grosso em 40 anos — disse.

Ele afirma ainda que o agronegócio brasileiro tende a viver em 2021 um novo risco: a questão ecológica. A má imagem do país no setor pode afetar negócios:

— Empresas e governos vão usar o desmatamento da Amazônia para criar barreiras comerciais, fitossanitárias e tentar baixar os preços de produtos brasileiros — disse Veloso, lembrando que pode ser o argumento de governos protecionistas. — A postura do governo prejudica o agronegócio.

Fonte: O Globo

Compartilhe:
Veja também em Conteúdo
JSL lança “Estrada de Prêmios” para fidelizar motoristas, reduzir turnover e ampliar eficiência operacional
JSL lança “Estrada de Prêmios” para fidelizar motoristas, reduzir turnover e ampliar eficiência operacional
ID Logistics Brasil inaugura centros de distribuição para a Amazon e amplia operação de fulfillment
ID Logistics Brasil inaugura centros de distribuição para a Amazon e amplia operação de fulfillment
Alta no tráfego rodovias paulistas reflete avanço de veículos leves e pesados, aponta Veloe/Fipe
Alta no tráfego rodovias paulistas reflete avanço de veículos leves e pesados, aponta Veloe/Fipe
Gestão climática ganha relevância no setor logístico diante de eventos extremos: destaque do primeiro ABOL Day do ano
Gestão climática ganha relevância no setor logístico diante de eventos extremos: destaque do primeiro ABOL Day do ano
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science

As mais lidas

01

Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor
Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor

02

Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega
Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega

03

Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal
Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal