Edital da Rodovia do Frango deverá sair ainda este mês

17/03/2016

O governo espera publicar ainda este mês o edital de leilão de concessão da “Rodovia do Frango”, informou ao jornal “O Estado de S. Paulo” o secretário do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Maurício Muniz. Trata-se, na verdade, de um conjunto de trechos rodoviários (BRs 476, 153, 282 e 480) no interior de Santa Catarina, cujos estudos técnicos foram liberados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 17 de fevereiro passado, com uma série de recomendações. “Estamos fazendo os ajustes necessários”, afirmou. A expectativa é leiloar mais cinco lotes ainda em 2016 – e não mais um total de 11, como originalmente programado.

O leilão desse primeiro lote rodoviário, que, se tudo correr como o planejado, deverá ocorrer no final de junho ou início de julho, será o primeiro teste do mercado após o início das investigações da Operação Lava Jato. Na primeira etapa do programa de concessões, em 2013, as grandes construtoras dominaram os leilões. Agora, os sinais são que os lotes serão arrematados por outros grupos, inclusive estrangeiros. O secretário cita concessionárias que já estão em operação no País, sobretudo no Sul, como potenciais candidatas.

Essa nova rodada do Programa de Investimento em Logística (PIL) já foi adaptada para um ambiente mais restrito de crédito e mais cautela por parte dos empreendedores. Por exemplo: foi revista a exigência, presente na primeira edição do PIL, de o concessionário duplicar todo o trecho sob sua administração no prazo de cinco anos. Agora, a duplicação será feita conforme o crescimento da demanda. Além disso, os lotes ficaram menores. Na primeira etapa, eram de cerca de 800 km e agora, de perto de 400 km. Esses ajustes, disse o secretário, deverão aumentar a atratividade das concessões.

O governo também melhorou as condições de financiamento das concessões, após haver detectado que esse era o principal gargalo, do ponto de vista do setor privado. Assim, na semana passada, foi anunciado que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) elevará a parcela financiada ao custo da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), o que resultará numa redução de 2 pontos porcentuais no custo da operação. Foram adaptadas, ainda, as condições para emissão das debêntures de infraestrutura.

O banco oficial ainda não liberou os financiamentos para todos os concessionários da primeira etapa do PIL. “É fundamental que eles saiam, até para dar credibilidade para as próximas concessões”, disse Muniz. Ele explicou que esse é um processo naturalmente demorado e que algumas concessionárias (MGO, Concepa e MSVias) já conseguiram o empréstimo.

O governo também espera leiloar este ano as concessões dos aeroportos de Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre. Juntos, eles deverão gerar R$ 3 bilhões em outorgas à União ao longo do período de concessão. O governo conta com algum ingresso ainda este ano, mas a cifra não é revelada.

A crise política tem algum impacto no interesse das empresas privadas nas concessões, “mas não é determinante”, segundo o secretário, pois se tratam de projetos de longo prazo. Pesa a favor do governo, por exemplo, o histórico de 21 anos de concessões rodoviárias sem nenhuma afronta aos contratos. Os órgãos reguladores do Brasil são bem avaliados internacionalmente. Na América Latina, estão próximos do Chile, segundo o relatório Infrascope, da Economist Intelligence Unit.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
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