Crescimento econômico impulsiona transportadoras, mas incertezas sobre retorno das tributações preocupam

26/02/2024

Segundo dados levantados pelo Banco Central (BC) e publicados pelo Boletim Focus, com a projeção para os principais indicadores econômicos, a previsão do mercado financeiro para o crescimento da economia brasileira este ano subiu, passando de 1,52% para 1,59%.

Mesmo que pequeno, esse crescimento econômico foi impulsionado também pelo transporte rodoviário de cargas, segmento responsável por movimentar 65% de tudo aquilo que é transportado no Brasil. De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), o setor foi responsável por gerar mais de 100 mil empregos entre janeiro e novembro de 2023, um saldo de mais de oito mil novas vagas quando comparado ao ano de 2022.

Apesar do saldo positivo, o setor de transportes está preocupado e cauteloso quanto ao ano de 2024. Na última semana de 2023, o governo federal publicou a Medida Provisória (MP) nº 1.202/23, realizando modificações significativas nas normas de recolhimento da contribuição previdenciária das empresas privadas, anteriormente regida pela Lei nº 14.784/2023, que permitia a cobrança deste tributo com alíquotas variando de 1% a 4% conforme a natureza da atividade econômica da empresa.

Adriano Depentor, presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região – SETCESP, entende que o momento é de incerteza. “Estamos observando o desenvolvimento econômico com muita cautela face às incertezas relacionadas ao momento político que trava embates entre congresso e governo sobre possíveis alterações na questão tributária. Se as alterações trazidas pela MP nº 1.202 forem mantidas, é possível que os efeitos sejam negativos nas contas das transportadoras, e esse custo precisará ser repassado para o cliente, causando grandes reflexos no consumidor final”.

Segundo o presidente do SETCESP, é impossível fazer um planejamento exato sobre 2024 sem a clareza da forma de tributação. “Mesmo com a possibilidade de repasse do custo do imposto para o consumidor, as empresas dependem da certeza para montar as suas tabelas de preço de venda. Nesse momento incerto, é possível que o melhor plano seja desenvolver sua tabela de preço de venda com a reoneração”, comentou. A referida medida provisória já entrou em vigor, entretanto seus efeitos só serão efetivos a partir de 1º de abril de 2024; até lá, o segmento aguarda que as Casas Legislativas possam derrubá-la.

De forma mais otimista, Depentor afirma que as eleições municipais de 2024 podem favorecer a economia das cidades e consequentemente impulsionar o transporte rodoviário de cargas. “As campanhas fazem com que as cidades aumentem o consumo local, e isso movimenta o transporte de maneira geral, já que consome insumos na macroeconomia. Esse movimento é cíclico, contribuindo com a economia do país”.

Outro aspecto que deve movimentar o transporte rodoviário de cargas em 2024 é a Fenatran, principal feira da América Latina no setor de transporte rodoviário de cargas. Apenas em 2022, o evento gerou mais de R$ 9 bilhões em oportunidades de negócios, além de reunir expositores de todo o mundo, como fabricantes de caminhões, de implementos rodoviários, de autopeças, de combustíveis, de seguros e de tecnologia e serviços.

“É um evento importante para a geração de negócios, para networking e para disseminação de conhecimento. As montadoras trarão alguma novidade a respeito de novas tecnologias energéticas em função das diretrizes mundiais nas emissões, e os demais fornecedores apresentarão itens de tecnologia. Para nós, a Fenatran sempre traz as tendências que se estabilizarão nos próximos anos. Estamos animados para o que teremos nesta edição”, finaliza Depentor.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science

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