Testes mecânicos em sistemas de transporte de medicamentos: por que o Brasil precisa de parâmetros próprios

Por Liana Montemor*

Não é raro ver caixas com medicamentos sendo literalmente jogadas durante o transporte. Essa cena, infelizmente comum, expõe um problema estrutural sério: a ausência de treinamento, capacitação e boas práticas logísticas, que comprometem a segurança de cargas farmacêuticas. Quedas e impactos podem, por exemplo, quebrar frascos, romper vedação e causar extravasamento de líquidos. As vibrações contínuas, decorrentes das precárias condições das rodovias brasileiras, também contribuem para rachaduras por fadiga em ampolas, enquanto o empilhamento inadequado pode deformar embalagens, comprometer sua integridade física e gerar vazamentos.

Testes Mecânicos em Sistemas de Transporte de Medicamentos: Por que o Brasil precisa de parâmetros próprios
Imagem gerada por IA

Nesse cenário, os testes mecânicos em sistemas passivos de transporte, como caixas térmicas com elementos refrigerantes, são fundamentais para garantir a integridade física e térmica dos produtos durante todo o trajeto logístico. Esses testes simulam condições adversas enfrentadas ao longo do transporte, permitindo identificar vulnerabilidades e antecipar riscos. Entre os principais ensaios aplicados estão:

1) Teste de Vibração:

Simula as vibrações contínuas que ocorrem em caminhões, aviões, trens e outros modais, por meio de mesas vibratórias que reproduzem diferentes frequências e amplitudes, conforme padrões internacionais como a ASTM D4169 ou ISTA. Após o ensaio, são verificados aspectos como quebras, rachaduras, deslocamentos, falhas de vedação e integridade da carga;

2) Teste de Choque (Drop Test):

Avalia a resistência a quedas e impactos acidentais durante o manuseio e carregamento. Realizado a partir de quedas livres, em diferentes ângulos e alturas, sobre superfícies rígidas, conforme normas ISTA ou ASTM D5276, esse teste observa danos estruturais e a preservação do conteúdo interno;

3) Teste de Impacto:

Simula colisões e pancadas localizadas, como as causadas por empurrões durante o empilhamento ou transporte. Utilizando massas com energia controlada, o impacto é direcionado a pontos estratégicos da embalagem. São seguidas normas como ASTM D880 (impacto horizontal) e ASTM D4003, com avaliação posterior de deformações e comprometimento da vedação.

Contudo, é necessário fazer uma ressalva: embora esses ensaios sigam normas internacionais amplamente reconhecidas – como as da ASTM, ISTA e WHO PQS -, a realidade logística brasileira impõe desafios muito distintos daqueles contemplados por esses padrões. A malha rodoviária esburacada, a ausência de infraestrutura adequada e os longos trechos sem pavimentação expõem os medicamentos a riscos que extrapolam os cenários simulados em laboratório.

Essa constatação leva a uma reflexão necessária: quais parâmetros de ensaio realmente representam as condições enfrentadas no transporte de medicamentos no Brasil? A resposta passa, primeiramente, pelo mapeamento de dados reais.

Assim como a RDC nº 430 e a mais recente RDC nº 653 exigem o mapeamento térmico das rotas, é imprescindível também avaliar os níveis de vibração, impacto e choque que as embalagens sofrem ao longo dos percursos. Com essas informações em mãos, seria possível recalibrar os testes mecânicos, adaptando-os à realidade nacional e promovendo maior confiabilidade na cadeia logística farmacêutica.

O Brasil apresenta um perfil logístico especialmente desafiador, marcado por uma malha rodoviária extensa e com conservação irregular, predomínio do transporte terrestre em trechos longos, variações climáticas extremas entre regiões e manuseio inadequado das cargas. Diante desse panorama, é urgente evoluir para uma qualificação de sistemas de transporte que vá além do cumprimento de normas, incorporando parâmetros próprios que reflitam os riscos concretos aos quais os medicamentos estão expostos.

O convite está feito: avancemos juntos na construção de uma logística mais segura e aderente à realidade brasileira, baseada em Boas Práticas de Armazenamento, Transporte e Distribuição de Medicamentos. A integridade dos produtos e, sobretudo, a segurança dos pacientes dependem disso.

* Liana Montemor é Farmacêutica e Diretora Técnica e de Estratégia em Cadeia Fria do Grupo Polar.

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