Da transação à estratégia: o novo cálculo do risco financeiro na logística

Por Ademir Terra*

A volatilidade econômica global, marcada principalmente por incertezas geopolíticas, impôs uma nova realidade às cadeias de suprimentos, em que a busca por parcerias meramente transacionais tem dado lugar à procura por relações estratégicas. Essa foi uma das conclusões da edição mais recente do Third-Party Logistics Study, que avalia anualmente o setor logístico dos Estados Unidos.

Um dos principais desafios para os operadores logísticos é equilibrar o nível de exigência de serviço com a eficiência de custos, principalmente em um cenário em que os embarcadores exigem que  os operadores logísticos assumam uma fatia cada vez maior dos riscos operacionais e financeiros envolvidos na cadeia de suprimentos. Quando, por exemplo, a área de compras de um contratante foca exclusivamente no valor do lance inicial (bid price), a tendência é que a operação logística se torne deficitária ao longo do tempo.

Da transação à estratégia: o novo cálculo do risco financeiro na logística
Foto gerada por IA/ChatGPT

O modelo tradicional de contratação, muitas vezes rígido e focado exclusivamente no preço transacional, já mostra sinais de exaustão diante da pressão de custos. A construção de relações mais estratégicas passa necessariamente pelo estabelecimento de contratos mais sustentáveis para ambas as partes. O estudo citado no primeiro parágrafo também mostrou que 56% das rupturas contratuais por parte dos operadores logísticos foram motivadas por falta de rentabilidade.

Sob o ponto de vista dos embarcadores, privilegiar negociações que ofereçam preços iniciais mais baixos pode ser “um tiro no pé”, pois contratos insustentáveis geram ruptura de serviço e perda de competitividade, que superam qualquer pequena economia obtida no início da parceria.

As interrupções na cadeia de suprimentos e a necessidade de otimização de custos são hoje os maiores impulsionadores para a busca de relações estratégicas em vez de meramente transacionais. Em um mercado como o brasileiro, em que a flutuação de demanda e os custos operacionais são dinâmicos, modelos de remuneração variável baseados em performance e eficiência compartilhada oferecem a proteção de fluxo de caixa que a rigidez das tabelas fixas não consegue entregar.

Para viabilizar essa sofisticação contratual, a tecnologia deixa de ser um gasto e passa a atuar como ferramenta de gestão de risco. A maioria dos embarcadores considera a capacidade tecnológica crítica na escolha de um parceiro logístico, mas o índice de satisfação com as soluções atuais ainda indica um espaço para evolução. Preencher essa lacuna tecnológica com inteligência de dados e visibilidade em tempo real é essencial para antecipar gargalos que, de outra forma, se transformariam em despesas de frete emergencial ou penalidades contratuais.

O olhar dos executivos sobre a logística não deve se restringir à linha de despesas de transporte, mas sim focar no chamado total landed cost (custo total da operação). A sustentabilidade financeira da logística no Brasil dependerá, cada vez mais, de substituir a relação cliente-fornecedor por alianças estratégicas de longo prazo, em que o objetivo em comum é obter a melhor eficiência de recursos possível.

* Ademir Terra é diretor financeiro da Penske Logistics Brasil

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