O impacto da redução da escala 6×1 no Transporte Rodoviário de Cargas 

*Por Raquel Serini

O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro das discussões públicas e legislativas, impulsionado por propostas que preveem mudanças no atual modelo 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso. Entre as alternativas em análise estão a redução da jornada semanal de 44 horas para 40 horas, ou até mesmo para 36 horas, em alguns cenários, mantendo-se, em diversos casos, o atual patamar salarial.

Embora a discussão tenha forte apelo social e político, é essencial que setores econômicos estratégicos sejam avaliados a partir de uma perspectiva técnica, que considere não apenas os impactos trabalhistas, mas também a viabilidade operacional e a sustentabilidade das atividades produtivas.

No caso do transporte rodoviário de cargas, essa agenda ganha uma dimensão ainda mais sensível. Trata-se de um setor essencial para a economia, que opera de forma contínua, 24 horas por dia, e que depende diretamente de equipes especializadas, logística coordenada e alta previsibilidade operacional.

Nesse contexto, eventuais mudanças na jornada de trabalho exigem uma análise cuidadosa sobre seus efeitos em cadeia, desde a disponibilidade de mão de obra até a reorganização de escalas, custos operacionais e manutenção da eficiência em um setor já pressionado por desafios estruturais e regulatórios.

Nas estradas, a operação não para. Motoristas e logística formam um time que já vive no limite, pressionado pelo preço do diesel, pedágios caros e manutenção pesada. Forçar uma redução de horário sem olhar para a falta de motoristas qualificados no mercado é criar um problema sério de eficiência para as transportadoras.

A conta é simples e dolorosa: se a jornada cair para 40 horas, o custo da hora trabalhada sobe 10% na hora. Se cair para 36 horas, o salto é de 22%. O empresário fica num beco sem saída: gastar fortunas com horas extras para não atrasar as entregas, ou tentar contratar novos profissionais, o que não  tem disponível no mercado hoje.

O resultado final deste cenário é o que economistas chamam de “efeito cascata”. O transporte não absorve custos sozinho; ele os transfere. Dado que a mão de obra representa até 40% dos custos totais da operação, qualquer pressão nesse componente reflete-se diretamente no valor do frete. Estimamos que um aumento de 20% nos custos trabalhistas gere um repasse de aproximadamente 7% ao custo logístico de diferentes setores produtivos, desde a indústria até o varejo, com grande impacto no preço final de produtos e serviços ao consumidor. 

Na avaliação de especialistas em relações e economia do trabalho, as alterações estruturais na legislação trabalhista precisam ser examinadas de forma abrangente, considerando seus reflexos sobre produtividade, competitividade e custos em toda a cadeia econômica. No transporte rodoviário de cargas, responsável pela maior parte da circulação de mercadorias no país, esse debate tem relevância ainda maior.

Neste cenário, as transportadoras precisam se antecipar: revisar estruturas operacionais, projetar impactos financeiros e monitorar as negociações coletivas são medidas que ajudam a reduzir incertezas e ampliar a capacidade de adaptação.

A questão vai além do campo trabalhista. Em um setor marcado por forte concorrência e margens cada vez mais pressionadas, agir com estratégia será fundamental para preservar a competitividade e manter a eficiência da logística brasileira.  Afinal, o transporte rodoviário é o motor que faz o Brasil girar, e ignorar o custo real dessa operação é travar o crescimento de todo o país. 

Raquel Serini, coordenadora de projetos do IPTC – Instituto Paulista do Transporte de Cargas.  O IPTC desenvolve, em parceria com o SETCESP – Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região, estudos referenciais de custos, como o de transporte de mudanças e a atualização da nova tabela de frete.

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