Pão de Açúcar e Casas Bahia: os bastidores de uma fusão

26/04/2010

A última semana foi marcada pela incerteza no setor de varejo. O gigante formado em dezembro entre Pão de Açúcar e Casas Bahia pode estar com seus dias contados. A queda de braço da família Klein, insatisfeita com as condições da carta de intenção, colocam em xeque o empresário Abílio Diniz. Perda de credibilidade junto aos sócios franceses e queda no preço das ações do grupo são as consequências mais previsíveis.

O impasse demonstra um ângulo pouco divulgado das fusões e aquisições, a conturbada fase pós compra – responsável em grande parte pelo fracasso dos novos conglomerados. Jornais e revistas preferem apresentar em suas manchetes a face mais glamorosa. Investimentos e valores envolvidos, perfil dos empreendedores, novas fortunas e bastidores da negociação. Interessantes, geram curiosidade e vendas adicionais aos veículos.

Os profissionais mais experientes – aqueles cuja foto da carteira de trabalho é uma vaga lembrança – sabem que uma empresa nunca é igual à outra. As combinações são quase infinitas. Utilizemos as classificações por tamanho, nacionalidade e estrutura societária. Grandes ou pequenas, brasileiras ou multinacionais, familiares ou abertas. Tentar decifrá-las é tarefa que só se consegue após algum tempo, convivendo dia após dia.

Algumas têm estruturas mais orgânicas. Ambientes abertos, sem salas fechadas ou formalidades entre os colaboradores. Linguajar coloquial e roupas mais despojadas, refeitórios compartilhados entre diretores e estagiários e decisões compartilhadas. Horários flexíveis, políticas de home office e modernas ferramentas de trabalho a disposição, como notebooks e smartphones.

Outras, por sua vez, têm estruturas que mais se assemelham às forças armadas. Promoções por tempo de serviço, respeito aos cargos e a hierarquia, vocabulário formal e respeitoso. Terno e gravata, tailleur e salto alto são os padrões vigentes. Horários pré-determinados, salas fechadas e divisões físicas entre a alta hierarquia e os subordinados.

Apesar das diferenças, não existe relação entre tipos de estruturas e resultados obtidos pelas organizações. Assim como não há empresas iguais, existem profissionais que melhor se adaptam a descrições de cargo mais rígidas, enquanto outros preferem liberdade e autonomia. Encontrar esta identificação é meio caminho para o sucesso profissional.

Com o passar dos anos, a cultura da empresa permeia o indivíduo, criando uma relação de simbiose entre ambos. Vestimenta, perfil, linguajar e comportamento enviam pistas sobre a empresa contratante, antes mesmo de visualizarmos seu crachá.

Coloque agora num mesmo caldeirão empresas com estruturas orgânicas e hierárquicas, resultantes de fusões e aquisições. A dicotomia entre informalidade e formalidade, respeito à hierarquia e valor as competências, horários flexíveis e cartões de ponto, qualidade de vida e cumprimento de metas de curtíssimo prazo traz insegurança, desmotivação e resistência por parte dos envolvidos. Sonegação de informações, boicotes e formação de feudos são algumas das consequências.

Incerto ainda são os próximos capítulos da trama Pão de Açúcar e Casas Bahia, os quais ocorrerão nos bastidores em São Caetano do Sul ou na Avenida Brigadeiro Luis Antônio, em São Paulo. Prever seu resultado é incerto e prematuro. Todavia afirmo que em caso de final feliz, o trabalho para a consolidação do novo gigante terá apenas começado, apesar dos apertos de mão, sorrisos e discursos publicados pela mídia.


Marcos Morita – mestre em Administração de Empresas e professor da Universidade Mackenzie. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.
professor@marcosmorita.com.br

Compartilhe:
Gestão de Fretes: Ciência e Resiliência — O novo e-book de Adriana Bueno
Guia Salarial 2027 da Michael Page: o paradoxo da inteligência artificial e os salários no setor de supply chain
Reality show de caminhoneiros “Master Driver Brasil” chega à final com mais de 135 milhões de visualizações
Hidrovias do Brasil lança 6ª edição do Programa Aceleraê com certificação inédita em Classificação de Grãos no Pará
Scania apresenta novas soluções para coleta de resíduos e flexibilidade de eixos na Fenatran 2026
Black Friday já movimenta logística internacional com previsão de 55 milhões de pacotes até dezembro

As mais lidas

01

Loja do Mecânico expande entrega expressa para produtos de médio e grande porte

02

CMA CGM e HappyRobot expandem solução global de inteligência artificial por voz para o setor logístico

03

Consórcio investe em novos berços para ampliar eficiência na movimentação de granéis líquidos no Porto de Santos