Os desafios da gestão de frotas corporativas em tempos de pandemia

07/10/2020

*Por Victor Coelho

O mercado de frotas e mobilidade corporativa não será o mesmo depois de 2020. Logo no início do ano, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores tinha uma expectativa bastante otimista. Esperava-se não somente registrar números melhores que os de 2019, mas também alcançar 3,16 milhões de veículos emplacados, o que equivaleria ao desempenho de 2014.

A pandemia, com seu primeiro caso no país registrado em março, afetou toda a economia e, certamente, trouxe grandes impactos para o setor automotivo. Montadoras, antes com ritmo acelerado de produção e importação, se deparam com uma realidade bem diferente: paralização total de suas operações, muitas por tempo indeterminado. Esta nova realidade obrigou o setor a estimar queda de 7,5% no PIB e uma perspectiva de quatro anos para recuperar os números estimados no início de 2020. A nova projeção é de apenas 1,6 milhão de novos emplacamentos, ou seja, uma queda de 40% na expectativa inicial do setor.

Com ruas vazias, quem administra projetos de frota corporativa e mobilidade passou a ter muitas dúvidas. Como falar em mobilidade e carros transitando em um momento de distanciamento? E com relação aos veículos que prestam serviços essenciais? Este grupo certamente não poderia parar. Como garantir que os times de vendas mantivessem a performance mesmo sem visitar clientes? Como ficam os contratos de aluguel de veículos?

O primeiro passo foi monitorar as operações de quem utiliza veículos compartilhados, garantindo a saúde para que nenhum colaborador fosse contaminado. O segundo foi migrar os esforços da equipe comercial para o meio digital. Contratos assinados antes fisicamente passaram a ser firmados eletronicamente. Para a frota benefício, companhias que antes adotavam somente o cartão de abastecimento substituíram para o benefício mobilidade, ampliando as opções para além do transporte individual para táxis, aplicativos e até micro mobilidade.

Para as locadoras de veículos, as projeções também foram revistas. Muitas solicitações de devolução, desconto nos aluguéis e até mesmo queda na venda de seminovos obrigaram os players a reduzirem a expectativa de crescimento. Do outro lado da mesa, gestores de frotas precisaram suspender a negociação de renovação de seus contratos de locação ou até mesmo a compra de novos veículos. Os cronogramas de substituição de veículos foram alterados passando de 2 para até 6 meses.

O superdimensionamento das frotas passou ser ponto de atenção. Com certeza, muitas companhias mapearão a quantidade atual e deverão reduzir o número de veículos, migrando funções antes empregadas fisicamente para o ambiente digital. Os deslocamentos corporativos poderão ser substituídos pelo trabalho remoto, gerando resultados para as empresas da mesma forma. A tecnologia continuará sendo uma aliada.

Vale destacar como ponto positivo neste cenário complexo a onda de solidariedade gerada pela pandemia que também chegou às montadoras. Centenas de milhares de máscaras e outros equipamentos de proteção, desde respiradores e cestas básicas até veículos foram doados à rede pública de saúde por diversas empresas do setor, que não só tem papel de grande relevância na economia do Brasil, como mostrou que também possui alto poder de impacto social na vida dos brasileiros.

Essa crise nos obrigou a nos reinventarmos e estabelecermos um novo padrão de trabalho. E mobilidade não poderia ficar de fora dessa reflexão. O distanciamento social motivou muitos a reconsiderarem os meios de transporte individuais. Ao mesmo tempo, este é o momento adequado para a discutirmos a mobilidade urbana com uma pegada mais sustentável. O recado da pandemia é que ações individuais impactam o coletivo e ações coletivas são capazes de mudar realidades. Adaptar-se e evoluir é para todos: negócios, empresas e pessoas.

*Victor Coelho é coordenador de frotas da JLL

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