Como escalar entregas rápidas sem perder eficiência

*Por Norton Canali

O crescimento do e-commerce brasileiro coloca um novo desafio para as empresas: vender mais sem deixar que a operação se torne um gargalo. As projeções da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM) para 2026 apontam que o setor deve alcançar R$ 258 bilhões em faturamento, com ticket médio de R$ 564,96 e a entrada de dois milhões de novos compradores. A expectativa é que o mercado mantenha uma curva de crescimento de 10% ao ano até 2029, quando deve atingir R$ 343 bilhões. Esse ritmo de crescimento que já soma uma alta acumulada de 63% no faturamento do e-commerce brasileiro entre 2021 e 2025 e se traduz em um volume cada vez maior de entregas fracionadas, feitas pacote por pacote, endereço por endereço, tornando a última milha a etapa mais cara e mais difícil de escalar em toda a cadeia logística.

O avanço representa uma oportunidade para varejistas e marcas digitais ao mesmo tempo em que aumenta a pressão sobre toda a cadeia logística. Quanto maior o volume de pedidos, maior a necessidade de estruturas capazes de garantir velocidade, controle e previsibilidade. Além disso, uma operação preparada para um determinado nível de demanda pode rapidamente perder eficiência quando precisa acompanhar um crescimento acelerado.

A entrega deixou de ser apenas uma etapa final da jornada de compra. Ela influencia diretamente a decisão do consumidor, a percepção sobre a marca e a possibilidade de recompra. O prazo informado no momento da compra precisa ser sustentado por uma operação que funcione de forma integrada, desde a gestão do estoque até a expedição do pedido.

Esse cenário exige uma mudança de olhar sobre a logística. A busca por entregas mais rápidas não depende apenas de reduzir o tempo de transporte, mas de estruturar processos que permitam que os pedidos sejam preparados e encaminhados com agilidade. Quando a operação cresce sem planejamento, problemas como atrasos na separação, falta de visibilidade sobre estoques e sobrecarga das equipes passam a comprometer a experiência do cliente. Não por acaso, operações que ainda dependem de roteirização manual, romaneios impressos e comunicação por aplicativos de mensagens para organizar entregas enfrentam mais dificuldade para sustentar prazos à medida que o volume de pedidos aumenta, o que mudou nos últimos anos não foi apenas a quantidade de pedidos, mas a própria forma de organizar e executar a entrega.

Com isso, modelos como o Ship From CD/Hub ganham relevância. Ao utilizar centros de distribuição e hubs estrategicamente posicionados para a preparação e envio dos pedidos, as empresas conseguem criar uma estrutura organizada e eficaz para atender diferentes regiões, mantendo maior controle operacional e capacidade de escala.

A centralização inteligente dos processos permite atingir níveis maiores de eficiência. Com fluxos padronizados, melhor gestão de estoque e maior previsibilidade na expedição, a operação responde melhor às oscilações de demanda, como períodos promocionais e datas sazonais. E o objetivo não é apenas movimentar produtos mais rapidamente, mas criar uma base logística capaz de sustentar o crescimento. A tecnologia é o que viabiliza essa centralização de forma inteligente: sistemas de roteirização, rastreamento em tempo real e torres de controle digitais permitem enxergar toda a operação de ponta a ponta e agir antes que um atraso pontual se transforme em um problema de escala.

A localização dessas estruturas também é determinante. A proximidade dos hubs em relação aos principais centros consumidores reduz distâncias e contribui para a construção de modelos de entrega mais ágeis, incluindo operações Next Day em determinadas regiões. Esse ganho de tempo impacta diretamente a experiência do consumidor, que espera cada vez mais conveniência e transparência durante todo o processo de compra.

Para empresas em expansão, a logística precisa deixar de ser vista apenas como uma área operacional e passar a ser considerada parte da estratégia de crescimento. A venda conquistada por uma campanha de marketing só se transforma em resultado quando a empresa consegue entregar o produto no prazo prometido e com a qualidade esperada.

Portanto, um dos principais desafios do e-commerce é transformar o aumento de demanda em crescimento sustentável. Escalar uma operação não significa apenas processar mais pedidos, mas garantir que cada etapa acompanhe a evolução sem gerar perda de eficiência ou aumento descontrolado de complexidade.

O futuro das entregas rápidas demanda a combinação entre tecnologia, planejamento e infraestrutura adequada. Reduzir prazos é importante, mas criar uma operação previsível, capaz de manter a qualidade mesmo em momentos de alta demanda, é o que permite que empresas cresçam de forma consistente. O mercado já mostra o custo de não se adaptar: os Correios registraram prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025, com projeção de chegar a R$ 10 bilhões em 2026, e a FedEx encerrou suas entregas domésticas no Brasil após 37 anos de operação, movimentos que refletem a dificuldade de sustentar um modelo tradicional, pouco digitalizado, diante do novo volume e da nova complexidade do e-commerce. Do outro lado, operações que investiram em tecnologia como roteirização inteligente, rastreamento em tempo real e gestão digital de rotas, conseguiram escalar entregas sem perder o controle. A tecnologia deixou de ser um diferencial e passou a ser a base que sustenta a velocidade, a visibilidade e a confiabilidade que o e-commerce exige hoje.

*Norton Canali é diretor comercial da EuEntrego.com, logtech que conecta varejistas com a maior rede de entregadores autônomos do Brasil.

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