A “Revolução” Silenciosa nos Armazéns

06/06/2011

Uma reportagem publicada no caderno Negócios no Jornal o Estado de São Paulo no dia 16/05/2011 desperta a atenção pelos números citados: em 2010 foram lançados 15.800 novos itens nos supermercados, segundo pesquisa realizada pela Nielsen junto a 2.800 supermercados e lojas de conveniência, um aumento de mais de 50% em relação a 2006, quando cerca de 10.000 novos produtos chegaram às gôndolas das redes varejistas.

O número deve ser ainda superior a esse citado, pois muitas empresas de menor porte não foram consideradas nessa análise, por não atuarem nesses canais de distribuição.

A reportagem cita as dificuldades de gestão desse gigantesco portfólio e os problemas para disponibilizar espaço para tantos produtos nas prateleiras dos supermercados. Reforça também a “escolha” necessária em função de tantas opções existentes.

O que isso, na prática, impacta na logística dos Centros de Distribuição, de onde teoricamente, partem todas essas mercadorias?

O impacto é geral e avassalador. Mexe diretamente com a produtividade da mão-de-obra e dos equipamentos de movimentação, afeta processos-chave, dificulta a realização de importantes indicadores de desempenho e colabora para um menor aproveitamento cúbico do espaço disponível, fenômeno conhecido como honeycombing ou efeito colméia. Ou seja, ao final contribui para o aumento de custos e compromete o nível de serviço.

Quanto mais itens, maiores as dificuldades na conferência de entrada e saída das mercadorias. Maiores os tempos, menor a produtividade das docas e das áreas de stage (espera), vitais para o funcionamento do armazém. Maior também será o tempo de doca até o estoque, reduzindo a visibilidade para a área de Vendas.

Uma maior quantidade de itens também implicará em maior probabilidade de erros na conferência e em lançamentos em sistemas, quando não automatizados os registros dos dados. Portanto, menor será a acuracidade dos estoques e maiores serão os esforços nos inventários cíclicos ou rotativos e maiores os tempos despendidos nas contagens gerais.

Mais itens dificultarão a unitização das cargas e o aproveitamento dos veículos, crucial para os veículos utilizados na distribuição urbana, que são cada vez menores e que tem um custo por tonelada cada vez maior. Além, de aumentar o risco de avarias nas mercadorias e os erros na expedição dos produtos.

Muitos itens em estoques agravarão a questão do aproveitamento cúbico dos armazéns. Em função do baixo giro da maioria desses itens, muitas posições serão subutilizadas exigindo a revisão do layout operacional. Se você já transformou parte de seus porta-páletes em prateleiras ou se está utilizando posições-páletes para o acondicionamento de vários itens, isso significa que você está “experimentando” os primeiros sintomas dessa revolução.

Em breve você precisará rever seu processo e infra-estrutura relacionada à separação de pedidos e reabastecimento dos pick faces e talvez tenha que partir para a automação parcial da operação, com o uso de flow racks.

E se você ainda não tem um software WMS (Warehouse Management System) implantado, os efeitos dessa “revolução” serão ainda mais devastadores.

O que fazer? Na prática não há como evitarmos esse fenômeno. Algumas (poucas) empresas adotaram uma postura rígida, do tipo toma-lá-dá-cá, ou seja, se querem introduzir 10 novos itens então escolha outros 10 para sem descontinuados. A grande maioria das empresas se comporta de forma totalmente flexível, acatando os devaneios da área de marketing, ávida pela inovação e pela exploração de nichos específicos.

O ideal seria realizarmos uma análise econômico-financeira para avaliar a real contribuição desse novo item para a empresa. Mas na vida real isso raramente ocorre. O lançamento de um novo produto é cercado de otimismo e comemorações. Se você questionar, será taxado de pessimista! Fique quietinho, é melhor.

Quando alguém da área de marketing, numa sala confortável, utilizando-se das convincentes técnicas de apresentação e do power point, convencer vários diretores a lançar um produto voltado ao “homem com mais de 35 anos, bem sucedido financeiramente e preocupado com a saúde” e disser que esse novo produto venderá mais de 300.000 caixas (ou unidades) por ano, desconfie… mas, prepare-se, pois em breve, mais um novo produto desembarcará em seu Centro de Distribuição, ajudando a tornar a sua vida cada vez mais difícil, ou desafiadora, como preferem dizer o executivos!

Marco Antonio Oliveira Neves – Graduado em Administração de Empresas pela FGV-SP e pós-graduado em Administração da Produção e Finanças no CEAG da FGV-SP. Atualmente é Diretor Presidente da Tigerlog Consultoria e Treinamento em Logística, da NETLOG (voltada ao hunting e outplacement), da Resolve! e da Guepardo Serviços Técnicos.
marco.antonio@tigerlog.com.br

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