Juros altos aceleram virada no modelo de posse de caminhões no Brasil, aponta estudo da Mirow & Co.

O modelo de acesso a veículos no transporte rodoviário de cargas no Brasil passa por uma mudança estrutural. Segundo estudo da Mirow & Co. – consultoria de estratégia com atuação em diferentes setores da economia – o avanço do aluguel de caminhões, do leasing e de formatos como Truck-as-a-Service (TaaS) tem sido impulsionado principalmente pelo cenário de juros elevados, que encarece o financiamento e dificulta a compra direta de veículos.

Entre 2019 e 2024, as vendas de caminhões novos para empresas de aluguel cresceram 50,3%, de acordo com a análise da consultoria. Esse movimento reflete a crescente sensibilidade do setor às condições de crédito e financiamento. Em um ambiente de capital mais caro, modelos que reduzem a imobilização de recursos e ampliam a flexibilidade operacional tendem a ganhar espaço.

Nesse contexto, o aluguel de caminhões surge como alternativa relevante para empresas que operam com demandas variáveis ou de curto prazo. Além disso, contratos de locação frequentemente incluem serviços adicionais, como manutenção, seguro, documentação e assistência em viagem, o que reduz a complexidade da gestão da frota para os operadores logísticos.

De acordo com Elmar Gans, sócio da Mirow & Co., o custo do capital sempre foi um fator determinante no setor de transporte. “O mercado brasileiro de caminhões sempre foi altamente dependente do custo do capital. Com juros elevados, a compra direta perde competitividade e modelos baseados em leasing e aluguel passam a oferecer uma equação financeira mais eficiente”, explica.

Outro elemento que contribui para o avanço do leasing de caminhões e do aluguel é o acesso diferenciado a capital por parte das grandes empresas do setor. Com maior escala e custos de financiamento mais baixos do que empresas individuais, essas companhias conseguem ampliar suas frotas com maior rapidez e negociar melhores condições junto aos fabricantes.

Esse cenário reforça o papel das locadoras no ecossistema logístico, especialmente em um momento em que muitas empresas buscam reduzir investimentos imobilizados em ativos e direcionar recursos para a operação principal do negócio.

Truck-as-a-Service ganha espaço no transporte rodoviário

Além do leasing e do aluguel tradicional, o estudo também aponta o avanço de modelos mais avançados, como o Truck-as-a-Service (TaaS). Nesse formato, o caminhão deixa de ser apenas um ativo e passa a integrar um pacote completo de serviços.

Na prática, o modelo combina pagamento mensal previsível, cobrança baseada no uso do veículo, serviços integrados e suporte digital, o que pode trazer maior previsibilidade de custos e simplificação da gestão da frota.

Segundo Gans, esse tipo de solução permite que as empresas concentrem seus esforços na operação logística. “Esses modelos ampliam a flexibilidade e permitem que as empresas foquem na operação, sem se preocupar tanto com a gestão do ativo”, complementa.

A transformação no modelo de propriedade também tem provocado mudanças na atuação dos próprios fabricantes de caminhões. No caso do leasing, os OEMs (Original Equipment Manufacturer) passaram a competir diretamente com bancos por meio de operações financeiras próprias. Já no mercado de aluguel de caminhões, disputam espaço com locadoras especializadas, oferecendo contratos de médio e longo prazo que normalmente variam entre 24 e 60 meses.

Para a Mirow & Co., esse movimento indica que a mudança não ocorre apenas na ponta da operação logística, mas envolve toda a cadeia do setor automotivo e de transporte.

Apesar das oportunidades, o estudo aponta que o crescimento do aluguel de caminhões, do leasing e do Truck-as-a-Service também traz desafios importantes. Esses modelos são intensivos em capital e exigem capacidade de gestão de ativos, controle de riscos relacionados ao valor residual dos veículos e integração com serviços e tecnologias de suporte.

“Capturar valor nesse novo cenário vai depender menos da expansão da demanda e mais da clareza estratégica e da qualidade da execução”, conclui o executivo.

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