Abandono da Ferrovia do Aço evidencia o descaso com o dinheiro público

23/03/2016

Cortando comunidades pobres, com altos índices de violência, e servindo de espaço para desmanches de veículos e assaltantes, as estruturas abandonadas da Ferrovia do Aço são um exemplo gritante de desperdício do dinheiro público. Desde 1973, quando começou a ser construída, a ligação férrea entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro jamais teve um vagão sequer circulando em muitos trechos, como o de Belo Horizonte a Itabirito, passando por Sabará. Só nesse segmento, foi abandonada uma sequência de seis túneis e quatro viadutos.

É em Sabará, na Grande BH, que boa parte dessa estrutura é avistada como monumentos ao desperdício. Uma sequência de quatro túneis entre os morros do município está entre os nove quilômetros desse tipo de passagem que foram esquecidos. Terminaram inundados, pichados e depredados. O local, ainda que reconhecidamente perigoso, por figurar como cenário de vários crimes, é ainda usado por trilheiros que desafiam a sorte entre os caminhos abertos entre o mato e os desmanches de veículos – que, depois de “depenados”, são incendiados. Uma dessas passagens foi bloqueada e a água acumulada chega à altura do joelho. Sinais da década de 1970 mostram há quanto tempo esses monumentos ao descaso estão abandonados, a não ser pelos morcegos que se dependuram no alto da estrutura de concreto.

Pouco antes, oito pilares que nunca suportaram trilhos se erguem sobre a rodovia MG-05 e o Rio das Velhas, no caminho para Sabará. No meio deles, a Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) continua a servir de caminho para o escoamento da produção de minério de ferro e aço de Minas Gerais, e ainda é trajeto da única linha férrea diária interestadual do Brasil – um exemplo de como é importante esse tipo de transporte, bem ao lado das demonstrações de desperdício.

A estrada que foi roubada

Em Honório Bicalho, dos trilhos que deveriam seguir o curso do Rio das Velhas, na ligação entre Raposos e Rio Acima, restaram menos de 500 metros. Casas invadiram áreas de domínio da ferrovia, plantas encobrem a linha férrea, antigas casas de arquitetura ferroviária foram invadidas e descaracterizadas, enquanto barracões e garagens foram erguidos no antigo caminho das locomotivas. “Há quadrilhas especializadas que chegam armadas e usam caminhões com braços hidráulicos para içar e levar os trilhos, que não são vigiados. Para impedir isso, só com tombamento e guarda dos órgãos responsáveis”, afirma Paulo Scheid, da organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) Trem de Minas.

Há estruturas históricas, como as pontes de aço sobre o Rio das Velhas, entre Raposos e Nova Lima, que também se acabam sem qualquer cuidado ou manutenção. Os vãos entre os trilhos foram cobertos por terra e brita, transformando a passagem numa estrada precária para carros, motocicletas e carroças. Em um dos pontilhões do trecho, em Raposos, os trilhos praticamente desapareceram, soterrados para possibilitar a passagem de veículos. Inscrições que fazem referência à antiga ferrovia estão descaracterizadas pelo roubo de letras e por pichações. O avanço das invasões na área de domínio e sobre as estruturas da ferrovia vai engolindo peças antigas da estrada. As casas em terreno invadido acabam sendo construídas em áreas alagáveis nos períodos chuvosos, o que representa ameaça aos moradores.

Para o professor Antônio Prata, chefe do Departamento de Engenharia de Transportes do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas (Cefet-MG), a realidade mostra a necessidade de circulação dos passageiros dessas regiões, e os trechos são viáveis, ainda que feitos por veículos leves sobre trilhos, menores do que trens e metrô. “São ligações muito importantes, mas essa falta de destaque nos investimentos do setor ferroviário é o mesmo que vemos no metrô de BH, que há décadas aguarda o funcionamento da linha Barreiro/Calafate”, compara. Para o especialista, o Estado tem perdido com essa falta de variação na matriz de transportes. “A Estrada de Ferro Vitória-Minas consegue cumprir uma função de transporte interessante, ainda que às vezes regionalmente, ligando BH, Ipatinga, Governador Valadares e as cidades do Espírito Santo”, exemplifica.

Faltam projetos e interessados 

Os trilhos, viadutos e túneis abandonados da Ferrovia do Aço e os que restaram da ferrovia de Raposos a Rio Acima são de responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Segundo o departamento, esse patrimônio vem sendo cedido às prefeituras dos municípios cortados pelas ferrovias. Mas, especificamente para os trechos citados pela reportagem, não há ainda nenhuma ação de concessão, seja para reativação ou uso diverso.

Para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) “a melhor forma de preservar esse patrimônio é com a sua utilização e funcionamento”. A maneira de fazer isso, segundo o instituto, é por meio de parcerias. “O Iphan prima por estabelecer parcerias com entidades interessadas em dar uso aos bens. Nesse âmbito, convidamos as prefeituras dos municípios a manifestar-se objetivamente a respeito de interesse na manutenção, utilização e guarda dos bens, destinando-os ao uso sociocultural.” Por enquanto, apenas a Estação Ferroviária de Raposos é alvo de processo de avaliação, com objetivo de instalação de um centro cultural e outros equipamentos para a comunidade.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
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