As tensões entre EUA e Venezuela, associadas à manutenção de sanções econômicas e a disputas comerciais na América Latina, voltaram a pressionar cadeias estratégicas da economia regional. No Brasil, os reflexos atingem de forma direta o setor farmacêutico, que depende fortemente de previsibilidade logística, estabilidade de custos e regularidade no abastecimento para garantir o atendimento ao mercado interno.
Nesse contexto, a instabilidade em torno da Venezuela, um dos principais polos produtores de petróleo da região, contribui para a volatilidade dos preços da energia e do transporte. Como consequência, aumentam os riscos logísticos, o custo da distribuição e a possibilidade de impactos no abastecimento de medicamentos, especialmente em um cenário de maior sensibilidade econômica e restrições macroeconômicas.

Segundo análise de Gustavo Sardinha, Diretor de Operações da Zetti, empresa brasileira especializada em soluções tecnológicas para o varejo farmacêutico, o principal vetor de impacto está relacionado ao chamado “prêmio de risco” associado ao petróleo. “O diesel é o insumo mais sensível da economia brasileira. Qualquer instabilidade no preço do barril se traduz quase imediatamente em aumento do frete rodoviário, o que pressiona toda a cadeia de suprimentos”, afirma. Ainda que nem sempre haja repasse imediato aos preços finais, o aumento dos custos de energia dificulta o controle da inflação e contribui para a manutenção de juros elevados, afetando decisões de investimento, expansão e planejamento das empresas.
Tensões entre EUA e Venezuela e os efeitos na logística farmacêutica
No segmento de medicamentos, os impactos tendem a ser mais sensíveis. Redes que dependem de uma logística pesada e de ampla capilaridade nacional enfrentam margens cada vez mais pressionadas pela instabilidade dos custos de transporte, ao mesmo tempo em que operam em um ambiente de maior cautela por parte do consumidor. “Quando o custo de distribuição oscila, o varejo passa a trabalhar com menos margem de erro. Isso aumenta o risco de desabastecimento, sobretudo em categorias essenciais”, avalia Sardinha.
Além disso, em um ano pré-eleitoral, a combinação entre incerteza geopolítica, restrições econômicas e ambiente de juros elevados tende a postergar investimentos e ampliar a vulnerabilidade da cadeia de suprimentos farmacêutica. A dependência do transporte rodoviário, fortemente atrelado ao custo do diesel, amplia a exposição do setor a choques externos, especialmente aqueles relacionados à geopolítica do petróleo e às tensões comerciais na região.
Além do impacto direto nos custos, a instabilidade logística também afeta o planejamento operacional. Empresas do varejo farmacêutico passam a operar com estoques mais cautelosos, buscando equilibrar capital de giro, risco de ruptura e capacidade de atendimento. Esse cenário, por sua vez, exige maior coordenação entre distribuidores, operadores logísticos e redes de farmácias, sobretudo em um ambiente de demanda menos previsível.
Diante desse quadro, a discussão extrapola os efeitos imediatos das tensões entre EUA e Venezuela e avança para a capacidade de gestão do varejo em cenários adversos. Para Sardinha, o uso de tecnologia, a integração de dados e a busca por maior previsibilidade operacional tornam-se fatores centrais para mitigar riscos. “Em momentos de instabilidade, o diferencial não está apenas em reagir, mas em antecipar cenários. Ter visibilidade sobre estoques, logística e custos permite decisões mais rápidas e coordenadas”, afirma.
Nesse sentido, soluções de gestão ganham relevância ao apoiar o varejo farmacêutico no monitoramento de variáveis externas, na simulação de impactos sobre custos logísticos e na organização das operações diante de instabilidades regionais. A capacidade de consolidar informações sobre transporte, níveis de estoque e comportamento da demanda contribui para respostas mais ágeis em um ambiente marcado por incertezas.
Ao mesmo tempo, o cenário macroeconômico restritivo, com juros elevados e menor apetite ao risco, tende a reforçar uma postura mais conservadora por parte das empresas. A combinação entre instabilidade geopolítica, pressão sobre os custos logísticos e cautela do consumidor amplia os desafios para a manutenção do abastecimento regular de medicamentos, especialmente em regiões mais distantes dos grandes centros de distribuição.
Assim, os efeitos das tensões internacionais sobre a logística e o abastecimento de medicamentos no Brasil evidenciam a vulnerabilidade de cadeias estratégicas a fatores externos. O tema permanece no radar do setor farmacêutico, que acompanha com atenção os desdobramentos no cenário internacional e seus reflexos sobre custos, planejamento e segurança da cadeia de suprimentos.









