ECONOMIA INSTITUTO LOGWEB – Febre Amarela, o retorno

18/05/2018

“Não pode a ciência, para favorecer os objetivos cosmopolitas, negar a natureza das circunstâncias nacionais específicas de cada país, nem ignorar ou dar uma imagem falsa dessas circunstâncias.”
Frederick List, Sistema Nacional de Economia Política

Entre os anos 30 e 70 do século passado, o capitalismo brasileiro avançou para a condição da economia mais industrializada entre os países da Periferia. Ao longo do período, o Brasil constituiu formas de organização capitalista inspiradas no planejamento indicativo e pragmático, empreendido mediante a articulação entre a iniciativa privada – nacional e estrangeira –, as empresas estatais e o crédito dirigido. À sua moda e à sua época, o Brasil replicou os métodos das industrializações “retardatárias” dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão deflagradas no século XIX.
A literatura sobre o desenvolvimento, a industrialização e suas histórias é diversificada e estimulante, sobretudo para os mortais que se concedem o benefício da dúvida. O leitor interessado pode se aventurar no Relatório sobre as Manufaturas, do americano Alexander Hamilton, ou galgar as páginas do Sistema Nacional de Economia Política, do alemão Frederick List. A Alemanha de List, os Estados Unidos de Hamilton e os japoneses da revolução Meiji encaravam os desafios da industrialização como uma imposição da sobrevivência das nações, de seus povos e de suas identidades.
No Brasil, o ethos do desenvolvimento nasceu da aliança entre as camadas empresariais nascentes, o estamento burocrático-militar, lideranças intelectuais e o proletariado em formação. O projeto era aproximar o país das formas de produção e de convivência que não poderiam ser alcançadas através da simples operação das forças naturais do mercado.
Esse arranjo de classes sofreu as dores da convivência conflitiva com as oligarquias agrárias. A repactuação continuada desse compromisso deu sobrevida às mazelas do colonial-escravismo: a persistência da estrutura agrária; a reprodução e ampliação das desigualdades sociais, transportadas do campo para a cidade; o rentismo que estiola o espírito empreendedor; a eterna revolta contra o pagamento de impostos por parte dos endinheirados.
O esforço de cinco décadas empenhado na construção da arquitetura econômico-política nacional sucumbiu à desorganização dos anos 80. O colapso do endividamento externo impulsionou a crise monetária e fiscal que perdurou até o Plano Real. No entusiasmo das merecidas celebrações do Plano Real, uma ilustre figura do governo chegou a proclamar que os tempos do nacional-desenvolvimentismo foram “40 anos de burrice”. Era, então, de mau-gosto, para não dizer quase proibido, lembrar que o prolongado desfile de burrice, afinal, liberou o Brasil e os brasileiros da dependência da exportação de produtos agrícolas – além do bicho do pé, da febre amarela e da hemoptise –, forjando a mais importante economia urbano-industrial do então chamado Terceiro Mundo.
Países vitimados pela crise da dívida externa foram submetidos aos aconselhamentos do Consenso de Washington. As palavras de ordem do “novo cosmopolitismo”, diria List, eram abertura comercial, liberalização das contas de capital, desregulamentação e “desrepressão” dos sistemas financeiros domésticos, reforma do Estado, incluída a privatização de empresas públicas e da seguridade social, abandono das políticas “intervencionistas” de fomento às exportações, à indústria e à agricultura. As políticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lançadas no rol dos pecados sem remissão.
Depois de 20 anos de privatizações, câmbio valorizado, importações predatórias e desindustrializantes, submissão aos poderes da finança desregulada, o debate contemporâneo teima em ignorar os desafios lançados pela revolução da Indústria 4.0. Ignorância que garroteia o desenvolvimento da manufatura e a constituição de um renovado sistema de ciência e tecnologia. Isso vai afastar ainda mais o Brasil das chamadas cadeias globais de valor. Não por acaso, a febre amarela está de volta. O bicho-do-pé e a hemoptise espreitam.
Em seu livro sobre o desenvolvimento recente dos países asiáticos, o professor da Escola Americana de Paris, Philip S. Golub, cita os estudos de Gary Gereffi, um dos maiores especialistas no estudo das cadeias globais de valor e da transnacionalização da grande empresa. Gereffi escreveu a respeito da emergência de centros alternativos de poder econômico e político. O surgimento de novos atores desvela uma transformação sistêmica na contramão do Consenso de Washington e de suas recomendações de liberalização, privatização e desregulamentação. (A respeito das cadeias globais de valor, recomendo a excelente coletânea do IPEA – Cadeias Globais de Valor, Políticas Públicas e Desenvolvimento).
Na visão de Gereffi, os polos mais dinâmicos da economia mundial são formados por potências que combinam mercados nacionais relativamente importantes, mão de obra qualificada, empresários capazes e empenhados na inovação autóctone.
Essas observações de Gereffi são adornadas pelas conclusões do professor Golub: “Graças a um Estado Desenvolvimentista forte, a China realiza seu projeto mais do que centenário de modernização. Contrariamente aos países mais vulneráveis que aprisionaram os poderes públicos na função de ‘agentes do ajustamento da economia nacional às exigências da economia mundial’, entre altos e baixos, administrando as consequência sociais e ambientais do crescimento, o Estado chinês soube garantir sua autonomia.”
Os vendedores ambulantes da opinião econômica prestariam homenagem à dúvida metódica cartesiana se consultassem seus botões acerca das razões do rebaixamento do Brasil na hierarquia das nações em desenvolvimento. Nas últimas quatro décadas, o país foi atropelado pelos concorrentes asiáticos, sobretudo pela escalada chinesa.
Há vasta literatura de boa qualidade a respeito do tema.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo – Doutor em economia. Autor de vários livros e professor titular da Unicamp e Facamp

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