Ao invés de heróis de barro, é fundamental a preservação da Democracia

Neste artigo, Paulo Roberto Guedes – colunista do Portal Logweb – reflete sobre os riscos crescentes ao equilíbrio político internacional e destaca a importância da preservação da democracia diante do avanço do autoritarismo e das tensões geopolíticas no mundo contemporâneo.

Antes de abordar o assunto proposto, gostaria de deixar claro que sou um democrata. Amante da liberdade, dos direitos humanos, do respeito às regras e as leis estabelecidas pelo conjunto da sociedade, e com a firme crença de que esta somente irá progredir a partir da instalação de processos de distribuição de oportunidades e de rendas mais iguais, eu acredito que somente a democracia tem se mostrado, pelo menos até agora, como o regime político mais coerente e justo na busca desses objetivos.

Contra quaisquer tipos de ditaduras, da esquerda à direita, abomino todo e qualquer dirigente que tenha ‘tendências’ autocráticas, posto que atua muito mais a favor de seus próprios interesses e dos grupos que representam, sem considerar os interesses das populações abrigadas no território de seus países.

Apenas faço uma pequena distinção ao separar os ditadores que nunca negaram o que são e aqueles que, aproveitando-se das oportunidades criadas por um Estado Democrático, assumem o poder via eleições e, assim que empossados, praticam governos autoritários.

Os primeiros nós sabemos quem são e o que defendem, pois nunca negaram suas características autocráticas e/ou ditatoriais, enquanto os outros, via dissimulação, hipocrisia e mentira, vão se mantendo no poder e privilegiando, com poder e riqueza, seus “amigos”.

A esse respeito concluiu a secretária geral da Anistia Internacional, Agnès Callmard: “Por muitos anos, a Anistia Internacional alertou sobre o crescimento do autoritarismo entre e dentro dos países. Evidências do último ano mostram como esse processo está se acelerando, e rapidamente. Um ano após a posse do Presidente Trump, vimos ao redor do globo como lideranças que priorizam investimentos militares e acordos de política externa e rejeitam proteções de direitos humanos e compromissos multilaterais estão se multiplicando, e isso causou um dano perigoso às conquistas arduamente alcançadas em igualdade, justiça e dignidade nestes últimos 80 anos em todo o mundo” (1).

Neste aspecto, o relatório da Oxfam Internacional, publicado na última reunião de Davos, é claro, posto que se constata, em todo mundo, duas tendências ‘preocupantes’: aumento do autoritarismo e crescimento da desigualdade. E ao contrário do que muitos podem imaginar, são problemas diretamente ligados, pois governos que escolheram ficar ao lado dos mais poderosos praticaram a repressão e não a redistribuição.

Feita essa pequena introdução, vamos agora ao tema proposto.

Com certeza, o presidente Trump deve ter uma profunda admiração por si mesmo. Principalmente quando, ostentando uma superioridade que não lhe cabe, consegue humilhar as pessoas e demonstrar que o Direito Internacional, como visto até hoje, nada vale e pode ser ‘desconsiderado’, sempre e quando estiverem em discussão, e segundo sua própria interpretação, os interesses norte-americanos. Ignora tratados e acordos e distrata governantes na própria Casa Branca ou diariamente em seus discursos improvisados. Parece, como escreveu o jornalista William Waac (“Trump e os invertebrados”), no Estadão de 22/01/26, que Trump quer ressuscitar, através dele mesmo, o mito do “grande homem da história”. E tem essa pretensão mesmo quando, de forma frequente, recua de suas próprias decisões, numa demonstração inequívoca da incorreção de suas propostas e da falta de estratégia clara e coerente.

Donald Trump, em suas ‘loucuras’ (2) ou momentos de ‘psicopatia’ (3), talvez consiga o título do presidente mais inconsequente da história dos Estados Unidos. Aliás, ao continuar desrespeitando os reais valores dos americanos e ignorando o real papel que os EUA devem desempenhar no mundo atual, também poderá receber o título do presidente mais “antiamericano”. 

Temos assistido, lamentavelmente, países e órgãos internacionais (ONU e OTAN, por exemplo) passando por um processo de descrédito e humilhação que, a apenas um ano atrás, não imaginávamos pudesse acontecer.

O ‘ataque’ à Groenlândia, por exemplo, cria séria ruptura na OTAN e enfraquece os EUA junto à comunidade europeia e ao mundo.

Ninguém escapa. A União Europeia, parceiros históricos, como o Reino Unido, Canadá (4) e México, e mais recentemente a Espanha, têm sido obrigados a ‘responder’ grosserias quase todos os dias, posto que a mentira, o desrespeito e a ‘falta de educação’, para dizer o mínimo, fazem parte da receita trumpista quando se trata de relações diplomáticas (?). A Democracia e o respeito às leis e, em consequência, a paz, correm perigo.

O aviso do jornalista Eugênio Bucci, em artigo no Estadão (“A Europa espezinhada – ou a bola da vez”), do dia 22/01/26, é claro ao escrever que, no atual momento, “não adianta pedir socorro às cartilhas da psicanálise para tentar decifrar o que vem se passando. Do mesmo modo, são de pouco auxílio as convenções da geopolítica ou os manuais de economia”.

E se a política externa de Trump só se desenvolve enquanto os EUA forem temidos (5), os valores da extrema direita, em seu fanatismo radical, se mantêm fortalecidos pelo “recurso da violência mais extrema”, como forma de “atropelar a democracia para salvaguardar o capital” (6).

Não à toa, e mesmo sem citar o nome de Trump, disse o primeiro-ministro canadense Mark Carney (7), na última reunião de Davos: “há uma forte tendência de os países concordarem com tudo para se dar bem, para se adaptar, para evitar problemas, para esperar que a conformidade lhes traga segurança. Mas isso não vai acontecer”. Nada mais verdadeiro.

E agora, numa tentativa de provar que a palavra do presidente da República dos Estados Unidos precisa ser cumprida, e entusiasmado pelos acontecimentos na Venezuela, o Sr. Trump, em mais uma atitude imprudente e inconsequente, resolveu iniciar uma guerra com o Irã. Sem dúvida, deixar a diplomacia e optar pela guerra foi mais uma má escolha feita. Até porque não há, por parte do governo norte-americano, uma estratégia definida com relação a isso. O regime iraniano, por mais repressivo e assassino que seja, aliás igual a tantos outros apoiados pelos norte-americanos, não justifica, por si só, uma nova guerra no Oriente Médio, já tão ‘complicado’. É fato que o Irã, já há algum tempo, deixou de ser ameaça concreta aos interesses dos EUA e quaisquer atitudes agressivas praticadas pelos iranianos, contra Israel ou os EUA, jamais terão condições de sucesso.

E não podendo ganhar a guerra o Irã continuará criando todo o tipo de dificuldades para seus inimigos e todos os demais países que compõem o Oriente Médio. Consequentemente, a todo o mundo. A proibição para a passagem de Ormuz é apenas um exemplo.

Os institutos internacionais fiscalizadores dos programas nucleares já deixaram claro que o Irã, à semelhança do que aconteceu com o Iraque de Sadam Russeim, não tem condições para produzir bombas nucleares. Principalmente no curto ou médio prazos.

Considere-se, inclusive, que na medida em que a guerra vai se prolongando, o Irã deverá perder apoios mais concretos. E os ataques norte-americanos serão apenas considerados como violação do direito internacional. Considere-se, também, que o medo de seus amigos e vizinhos é menos com o próprio Irã e muito mais por gerar reais oportunidades de instabilidade e incertezas na região, notadamente com Israel (“Os aliados do Irã sumiram”, foi o título do texto escrito pelo jornalista do NYT de Istambul, Ben Hubbard, e publicado no Estadão de 06/03/26)

Por outro lado, iniciar uma guerra contra o Irã para mudar o seu regime político, e ainda querer indicar o nome do substituto do Aiatolá Kamannei, são de uma pretensão inimaginável. Uma inocência e total ignorância, considerando a história norte-americana e suas diversas intervenções internacionais, malsucedidas, diga-se de passagem, buscando esses mesmos objetivos.

Na Venezuela, por exemplo, não houve qualquer mudança substancial, a não ser a substituição do ex-presidente Maduro pela sua Vice-Presidente. O regime político e as condições políticas, econômicas e sociais se mantêm como antes. No que diz respeito à economia, agora mais obediente aos interesses dos EUA.

De qualquer forma, a guerra instalada está desestabilizando a economia mundial, assim como a dos EUA. Desestruturação de mercados diversos, aumento da inflação, descapitalização, arrocho financeiro e aumento das incertezas com relação ao futuro são consequências inevitáveis. Mas as consequências são muito maiores e outros problemas ainda virão.

Pior, não se sabe nem quando e muito menos como essa guerra vai terminar. Tenho certeza, inclusive, que o próprio Donald Trump, totalmente perdido, bem como seus auxiliares diretos, não têm a menor ideia a respeito. O despreparo é muito grande, assim como se mostram muito baixos os índices de empatia da maior parte das pessoas que constituem o atual governo norte-americano. Infelizmente.

“Os EUA ainda são considerados uma democracia, onde a opinião publica deveria, em princípio, importar, mas com o Donald Trump, arriscando uma carnificina em toda a região, a fachada democrática parece cada vez mais frágil” (Daron Acemoglu, Prêmio Nobel de Economia 2024 e professor do MIT).

Portanto, para que a Democracia mundial seja preservada e não mais sejam bajulados ‘heróis de barro’, é imprescindível que a maioria dos países deste planeta não aceite o desaparecimento da ordem instalada até agora, na qual as regras estabelecidas são respeitadas e cumpridas. Pois se assim for, voltaremos ao tempo em que os mais fortes, principalmente em termos militares, poderão fazer o que quiserem.

É momento de reação. Se como defendia um jovem liberal mexicano, José Maria Luís Mora (8), que lutou contra o conservadorismo mexicano, “um governo instruído e sábio reconhece as necessidades de desenvolvimento de sua sociedade”, está na hora de buscar dirigentes que tenham condições de instalar um governo assim. Com a palavra os dirigentes dos países que ainda acreditam na Democracia como regime político, que mesmo com seus erros ainda é o único que permite correções.

(1) O texto da senhora Callmard foi publicado no Relatório da Oxfam Internacional, em janeiro deste ano. “Da mesma forma, por muitos anos a Oxfam chamou nossa atenção para a crescente emergência de desigualdade, com o aumento implacável dos super-ricos. Como este relatório mostra, esse processo também se acelerou; no último ano, as fortunas dos bilionários cresceram três vezes mais rápido do que nos cinco anos desde 2020. O primeiro trilionário está no horizonte. Enquanto isso, uma em cada quatro pessoas se preocupa regularmente em não ter comida suficiente para comer, tendo que pular refeições para sobreviver, e a vida das pessoas comuns está se tornando impossível de custear. Autoridades em uma ampla gama de países empregaram práticas autoritárias e introduziram novas medidas para restringir a liberdade de expressão, associação e reunião pacífica. Elas usaram isso, e leis e regulamentos existentes, para reprimir defensores de direitos humanos, críticos e oponentes, ou como uma forma de escapar da responsabilização e defender os economicamente poderosos” (destaque meu).

(2) Thomas Friedman (“A política do ‘eu em primeiro lugar’”, O Estado de S. Paulo de 22/01/26), escreveu: “O comportamento de Trump se tornou tão imprudente, tão egocêntrico, tão obviamente contrário aos interesses americanos – e os próprios republicanos há muito o definiram assim, sem falar dos democratas – que a seguinte pergunta deve ser feita: os EUA estão sendo governados por um rei louco? (destaque meu).

Em tempo: o presidente Trump entendeu como direito seu, o recebimento do Prêmio Nobel da Paz. Não é piada.

(3) Uma pessoa psicopata é aquela que tem alto nível de transtorno de personalidade antissocial (TPAS), ausência de empatia, egocentrismo, falta de remorso e condições claras de manipulação, posto que usa seu pretenso “charme” para explorar terceiros sem se importar com as consequências.

(4) Discurso do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos, Suíça: alcançamos “o fim da era sustentada pela hegemonia dos Estados Unidos”, posto que a “fase atual é de uma ruptura”. Trump, sem dúvida, respondeu: o Canadá recebe ‘muitas regalias’ dos EUA e “vive graças aos EUA”!

(5) “Ela (a política externa dos EUA) só consegue se tornar visível e reconhecível à medida que saiba ser temível, e só pode ser temível à medida que assusta, por meio de arroubos cada vez mais carregados, os vivos e os mortos. Sim, os mortos morrem de medo da hecatombe da civilização. Depois da guerra fria, a guerra dos calafrios, uma guerra que dizima os nossos mortos” (Eugênio Bucci, Estadão de 22/01/26).

(6) “O fanatismo de extrema direita se vale do recurso da violência mais extrema para atropelar a democracia para salvaguardar o capital. Se a ogiva nuclear é a mãe de Donald Trump, seu pai é o capital. Nuvens pesadas e radioativas apontam no horizonte”. Eugênio Bucci, em artigo já citado).

“Desde que Putin preenchesse todos esses requisitos mais do que o líder democrático da Ucrânia, Trump o trataria como amigo – e danem-se os interesses e valores americanos. Putin nem precisou se esforçar para fazer de Trump seu fantoche. Por todas essas razões, Trump é o presidente mais antiamericano da nossa história” (Thomas Friedman, em artigo já citado).

(7) Premiê do Canadá mostra força de olho na própria sobrevivência. Mark Carney foi ovacionado em Davos por descrever o fim da ‘Pax Americana’; ele busca aliados para enfrentar novo cenário. O Estado de S. Paulo, 22/01/26, reportagem de Matina Stevis-Gridneff Ian Austeen.

(8) “O livro da Política”, diversos autores, publicado pela Globo Livros em 2013 (pg.164).

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Paulo Roberto Guedes

Paulo Roberto Guedes

Consultor Empresarial

 

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