A crescente digitalização da logística brasileira tem ampliado não apenas a eficiência operacional do setor, mas também sua exposição a ameaças digitais. Um levantamento da Ingeni, unidade de inteligência da Redbelt Security, revela que o setor registrou mais de 1.800 alertas de alta e crítica severidade relacionados à cibersegurança nos últimos três meses.
O estudo “Estado da cibersegurança na logística brasileira 2025” mostra que os alertas estão associados a vulnerabilidades conhecidas (CVEs), ataques de ransomware e atividades ligadas a atores de ameaça monitorados pela plataforma RIS (Risk Information & Security), sistema proprietário da companhia voltado ao monitoramento e centralização de dados de segurança.
Quando analisado o período dos últimos 12 meses, o volume total ultrapassa 58 mil alertas em todos os níveis de criticidade. Segundo o relatório, o cenário evidencia não apenas o aumento da frequência dos ataques, mas também a sofisticação crescente das ameaças voltadas à cadeia logística.

A relevância do tema acompanha o peso econômico da logística no país. Em 2024, o setor movimentou cerca de R$ 366,26 bilhões, equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto os portos brasileiros alcançaram movimentação recorde de 1,32 bilhão de toneladas de cargas, sustentando aproximadamente 95% do comércio exterior brasileiro.
Nesse ambiente altamente conectado, operações dependem diretamente de sistemas digitais de rastreamento, monitoramento, telemetria e gestão operacional. Assim, qualquer indisponibilidade tecnológica pode provocar impactos imediatos em prazos, contratos, movimentação de cargas e resultados financeiros.
Ataques cibernéticos avançam sobre a logística
O relatório aponta que, em 2025, o setor logístico passou a figurar entre os mais atacados globalmente, especialmente devido ao avanço do ransomware. Segundo dados da Cyble citados no levantamento, foram registrados 283 incidentes confirmados envolvendo esse tipo de ataque ao longo do ano.
No Brasil, os ataques ligados ao transporte de cargas dobraram, com predominância de casos de extorsão de dados. Além da paralisação operacional, as ocorrências passaram a comprometer informações sensíveis de empresas, clientes e parceiros logísticos.
A pesquisa destaca que a crescente integração entre tecnologia da informação (TI), tecnologia operacional (OT) e dispositivos conectados (IoT) aumentou significativamente a superfície de ataque do setor. Hoje, operações logísticas utilizam sensores, câmeras, rastreadores, sistemas telemáticos e plataformas digitais interligadas em tempo real.
Embora esse modelo garanta maior eficiência e visibilidade operacional, também amplia riscos associados a falhas de segurança, como uso de senhas padrão, ausência de criptografia, sistemas desatualizados e falta de segmentação entre redes.
Outro ponto destacado pelo estudo é a convergência entre crime físico e crime digital. Segundo a análise, criminosos têm utilizado vulnerabilidades cibernéticas para manipular informações logísticas e facilitar roubos de cargas, transformando falhas digitais em prejuízos operacionais e financeiros diretos.
Portos e transporte rodoviário ampliam exposição
Os portos brasileiros aparecem como um dos principais pontos de atenção em relação à cibersegurança logística. Além de concentrarem grande volume de cargas e operações simultâneas, funcionam como ambientes altamente interconectados entre sistemas públicos, privados e internacionais.
De acordo com o relatório, à medida que as cadeias logísticas se tornam mais integradas, aumenta proporcionalmente o número de potenciais pontos de entrada para ataques cibernéticos. Parte relevante dessas ocorrências está ligada tanto a vulnerabilidades técnicas quanto à gestão de acessos e relações com terceiros e fornecedores.
Para Eduardo Lopes, CEO da Redbelt Security, os diferentes modais apresentam níveis distintos de maturidade em segurança digital. “Quando analisamos o setor logístico, é fundamental reconhecer que cada modal apresenta níveis distintos de maturidade e exposição ao risco cibernético. Portos e aviação, por exemplo, já operam com maior grau de regulação sobre segurança, enquanto o transporte rodoviário, que concentra grande parte das operações no Brasil, ainda enfrenta desafios relevantes, especialmente na gestão de identidade, na proteção de sistemas de rastreamento e na segurança de terceiros”, afirma.
Segundo o executivo, operações logísticas exigem funcionamento contínuo, o que amplia a criticidade da proteção digital. “Na logística, a segurança precisa estar integrada à operação de forma quase invisível, acompanhando o ritmo do negócio sem criar fricções. Mais do que bloquear ameaças, o verdadeiro diferencial está em garantir que, mesmo diante de um incidente, a operação continue funcionando com o menor impacto possível, mantendo a confiança de clientes e parceiros”, conclui.








