Vaidade não mata, mas faz perder o senso do ridículo

09/05/2008

Em certos momentos falamos, ou até escrevemos, por impulso. Normalmente, isso acaba em burradas. O melhor é esperar uns dias para organizar as idéias e aí sim soltar a verve.

Então, quando na semana passada a agência de avaliação de risco Standard & Poors colocou o Brasil em um patamar de elevada confiabilidade para investimento (investment grade), foi uma grande festa no meio dos políticos e economistas, diríamos, mais entusiasmados com elogios, tapinhas nas costas e coisa e tal.

Cá para nós, receber elogios é bacana. Mas é importante ter ao menos um pouco de “se mancol” para aceitar certas bajulações. E nesse caso, podemos começar a introduzir o contexto no qual o Brasil segue, depois de anos, Coréia do Sul, México e Rússia como novos oásis de confiabilidade para o dinheiro internacional.

Os argumentos da Standard & Poors: “contínua melhora dos indicadores econômicos do país e os sinais de comprometimento do governo em seguir com esse processo", segundo a diretora da instituição, Lisa Schineller. Por outro lado ela mesmo salienta que problemas como o péssimo perfil do endividamento público brasileiro e os altos gastos do governo seriam considerados aspectos impeditivos para a obtenção do status em questão. Assim, em nome de uma aposta no futuro, a regra acabou sendo flexibilizada a favor do Brasil.

Será que é mesmo a favor? Bem, para entender a situação como um todo, em primeiro lugar somos obrigados a lembrar que a carga fiscal brasileira vem subindo de maneira absurda nos últimas décadas e mesmo assim os recursos retirados da sociedade em favor do consumo estatal não tem sido suficientes para sanear as contas públicas, já que a fome pelo aumento do custeio parece ser insaciável. Em resumo, o esforço de arrecadação que poderia ser utilizado para sanear as contas nacionais, não está tapando buraco existente, o qual parece estar inclusive aumentando.

Pelo lado internacional, as turbulências financeiras continuam, afetando a credibilidade de países até pouco tempo imunes a dúvidas de capacidade de pagamento de suas obrigações, como os EUA, por exemplo, com seu dólar capenga e contas nacionais prestes a entrar para o clube dos pandarecos.

E cá para nós: será que num planeta em que os principais países do mundo estão mostrando alguma característica econômica mais podre, logo o Brasil iria bancar o Joãozinho do Passo Certo e melhorar sua credibilidade? Difícil de acreditar.

Na semana passada, comentando sobre o assunto com o jornalista César Fonseca, ele alertou para a coincidência da conquista do grau de investimento pelo nosso país, ao mesmo tempo em que o banco central norte-americano sinalizava mais queda de juros, mesmo com inflação em alta.

Ainda mais: o custo do dinheiro brasileiro havia subido semanas antes, e ainda persiste com viés de alta, nos consolidando mais uma vez como campeões mundiais de juros. Pela tradição dos velhos manuais de economia, uma nação aumenta a remuneração dos seus títulos públicos para evitar inflação ou tentando seduzir aplicadores a aceitar o risco elevado em troca de ganhos atrativos.

No caso do Brasil, o que vale é o segundo argumento. Assim, não dá para deixar de avaliar como um contra-senso a avaliação da agência de risco, quando os principais indicadores objetivos estão direcionados para o lado oposto.

O elogio aparentemente cínico, traz efeitos colaterais notadamente sérios para a economia nacional. Em primeiro lugar, o que todo mundo que tem dinheiro quer é aplicar seus recursos em lugar seguro e com alta remuneração. Pela Standard & Poors o Brasil virou esse paraíso.

Como conseqüência, a dívida interna aumentará ainda mais, paralelamente à intensificação da defasagem cambial.  Se exportar produtos industriais já estava difícil, com a nova perspectiva de valorização do real, desistir do mercado internacional pode ser a melhor solução em vários casos, lamentavelmente.

Em outras circunstâncias seria muito bom saber que o Brasil é um país de baixo risco de investimentos. Mas lamentavelmente os fatos mostram que ainda estamos muito longe disso. O diagnóstico do país  pela Standard & Poors  é ingenuamente equivocado.

Ou existem terceiras intenções na classificação em foco? Isso o tempo dirá.

 

 

Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

Compartilhe:
UpFlux aponta compras corporativas como grande oportunidade para gerar retorno financeiro com IA
Manaus sediará encontro nacional sobre descarbonização portuária em novembro
Brasil deve ultrapassar R$ 108 bilhões em investimentos em hidrogênio verde até 2029
FedEx abre vagas para Operador de Serviço Logístico em Serra (ES), Cajamar (SP) e Extrema (MG)
Avanço dos carros elétricos amplia pressão por minerais essenciais à produção de alimentos
Gestão de Fretes: Ciência e Resiliência — O novo e-book de Adriana Bueno

As mais lidas

01

Avanço dos carros elétricos amplia pressão por minerais essenciais à produção de alimentos

02

Brasil deve ultrapassar R$ 108 bilhões em investimentos em hidrogênio verde até 2029

03

Manaus sediará encontro nacional sobre descarbonização portuária em novembro