Sinal amarelo na alfândega

30/04/2008

Vieram do Banco Central duas informações aparentemente conflitantes. A primeira delas dá conta de que o investimento estrangeiro em março foi o maior já apurado desde 1947: 3,083 bilhões de dólares, e no primeiro trimestre do ano o total investido por estrangeiros no País totalizou 8,799 bilhões de dólares – também recorde para um primeiro trimestre. A segunda notícia diz que o déficit em conta corrente em março é o maior da história, atingindo 4,429 bilhões de dólares.

Contribuíram para esse resultado o cada vez mais esquálido superávit comercial e as salgadas remessas de juros, lucros e dividendos, estimuladas pelo Real cada vez mais valorizado. Os números do déficit em conta corrente também são recordes desde 1947, tanto para o mês de março (4,429 bilhões de dólares), como para o primeiro trimestre do ano (10,757 bilhões de dólares). Terá sido coincidência a ocorrência, no mesmo mês e trimestre, dos dois recordes? Não é o que diz a teoria econômica.

O que a teoria nos diz é que, em um regime de câmbio flutuante, uma entrada líqüida de divisas tende a valorizar o câmbio, exceto se o Banco Central entrar frequentemente no mercado comprando o excedente de divisas para acumular reservas internacionais. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando o saldo positivo da entrada de investimentos e empréstimos supera o saldo negativo da balança comercial e de serviços.

Ora, se as intervenções do Banco Central não são suficientes para enxugar o excesso de entradas de divisas – em março as reservas internacionais haviam atingido 195,23 bilhões de dólares e em 28 de abril haviam caído para 194,79 bilhões – o câmbio continuará a se valorizar. Nessa situação, a valorização do câmbio desestimula as exportações e estimula as importações. Em março, o superávit da balança comercial foi de apenas 1,012 bilhão de dólares, contra um superávit de 3,306 bilhões de dólares há um ano.

A valorização do real estimula também a remessa de lucros e dividendos aos detentores dos investimentos diretos anteriormente aqui aplicados. Essa situação torna-se mais aguda se parte dos investimentos retorna para cobrir perdas de instituições financeiras nos países de origem, em decorrência, agora, dos rescaldos da crise do subprime . Os números do Banco Central mostram que mais de um terço das remessas são dessas instituições.

Portanto, não é totalmente coincidência que tenhamos simultaneamente um recorde de saldo positivo de investimentos e de saldo negativo em conta corrente do balanço de pagamentos. Como não é coincidência que o desequilíbrio fiscal, ao exigir o aumento da taxa de juros para frear as pressões inflacionárias, está se refletindo diretamente na valorização do câmbio e na rápida deterioração do balanço de pagamentos em conta corrente.

A desvalorização do real (1,31%), que se seguiu ao anúncio do déficit em conta corrente na segunda-feira, mostra que as percepções dos agentes econômicos não estão imunes ao quadro externo em deterioração. O que está ficando cada vez mais claro para o mercado é que a situação de grande conforto experimentada pelo País até agora, passa a depender mais ainda da manutenção dos fluxos de recursos externos. Em um ambiente de grande volatilidade nos mercados internacionais de capitais, a nova dependência brasileira dos humores dos mercados externos não é motivo de comemoração.

Também não é motivo de comemoração as notícias que chegam do lado fiscal, dando conta de que será necessária a abertura de créditos adicionais da ordem de mais quatro bilhões de reais para fazer face aos reajustes dos servidores públicos federais prometido pelo senhor presidente da República. Mais despesa, mais aumento da demanda e mais pressões inflacionárias à frente. Não é por outro motivo que, no mercado futuro, as taxas de juros não deixam de subir. E tudo isso vai desaguando no balanço de pagamentos, que não pára de deteriorar.

 
Fonte: www.dcomercio.com.br

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