Renato Lippi

08/10/2008

Na atividade portuária, empresários e trabalhadores estão submetidos aos efeitos da globalização e da crescente competição no comércio internacional, como em qualquer outro segmento. Esse fato requer um grande esforço de todas as partes envolvidas para adaptação às modernas tecnologias e às exigências do mercado. Das grandes discussões a respeito, destacam-se a qualificação dos trabalhadores – com a criação de órgãos como o Centro de Excelência Portuária (Cenep) do Porto de Santos – e a extinção da mão-de-obra avulsa.

O especialista Renato Lippi – ex-gerente de Operações do Ogmo do Rio de Janeiro e atual gerente de Recursos Humanos de um dos terminais do Porto do Rio de Janeiro – aponta que os trabalhadores avulsos estão praticamente fora do mercado devido à falta de qualificação. “Tem uma lei [a 8.630] que garante eles, mas nem todos sabem operar os equipamentos modernos”. Com esse cenário, Lippi acredita que a vinculação de trabalhadores nos portos brasileiros é um processo natural.

Autor da monografia “Mão-de-obra avulsa”, elaborada para o IV Curso Especial de Gerenciamento de Portos (Gepor), em 2001, quando ainda ocupava função no Ogmo, ele avalia que os portuários necessitam buscar, continuamente, a elevação dos índices de eficiência e de produtividade, bem como a redução dos custos operacionais como meio efetivo para estimular as exportações brasileiras, em momento delicado devido à crise financeira mundial.

 

Como o senhor começou a lidar com a mão-de-obra portuária?
Eu caí de pára-quedas, como costumam dizer. Comecei no setor logo no início da implantação dos Ogmos, em 1996. Peguei todo o processo da implantação da Lei 8.630. Saí do Ogmo do Rio de Janeiro em 2006 e fui diretor-executivo no Ogmo de Angra dos Reis, com o objetivo de implantar a escala eletrônica.

 
E como efetuou esse trabalho?
Quando cheguei em Angra, encontrei a necessidade de implantar o rodízio numérico, por força do Ministério Público. Implantamos com sucesso e esse fato foi até objeto de elogio do Ministério, pois eles gostaram muito do sistema que adotamos, uma coisa que atendia às exigências da realidade local.
 

Qual é o sistema?
Implantamos por data de chamada, data do último trabalho. É um pouco diferente do Rio e de como funciona na maioria dos portos. Esse mesmo sistema contnua ativo para os portuários de Angra até hoje.

 
Como o senhor, com larga experiência no setor, avalia que a mão-de-obra tem que enfrentar o processo de automação nos portos. Saem algumas funções, mas surgem outras. A tecnologia veio para diminuir trabalho?
A tecnologia não veio para diminuir trabalho em si. Hoje, você tem que estar qualificado e, na realidade, se observarmos atentamente, em praticamente todos os portos do Brasil a mão-de-obra avulsa não é qualificada. Aqui no terminal que trabalho, temos dificuldade grande de encontrar um operador de portêiner porque os sindicatos não se preocuparam com essa questão de qualificar o pessoal. A automação cada vez mais moderniza as operações e, com isso, o pessoal avulso se colocou praticamente para fora do mercado. Tem uma lei [a 8.630] que garante eles, mas nem todos sabem operar os equipamentos modernos.
 

Qual seria a solução para fazer a qualificação desses trabalhadores e dos que virão a trabalhar no setor?
Vejo que o Ogmo, junto com [a aplicação de] cursos do Prepom, precisa qualificar melhor o trabalhador. [É necessário] ter simuladores para equipamentos como portêineres, empilhadeiras de reach stacker… treinar o pessoal para o mercado que temos [nos portos].
 

O senhor considera que a iniciativa privada tem papel importante nisso, na busca por qualificar funcionários da empresa e até avulsos?
Os avulsos, até por força da lei, cabe ao Órgão Gestor fazer a qualificação. O operador portuário qualifica o funcionário dele. Aqui, temos 30 operadores de equipamentos portuários. Desses 30, só dois são trabalhadores avulsos vinculados.
 

Como o senhor vê a vinculação? É um processo natural na atividade portuária do País?
Eu acho que é um processo natural mesmo, porque essa questão do trabalho avulso vai chegar num determinado momento que será somente em caso de excesso de trabalho, em caso de pico de trabalho. A mão-de-obra avulsa tende a acabar. Já tem muitos portos em que é eventual a utilização dessa mão-de-obra.

 
A Secretaria Especial de Portos (SEP)anunciou, recentemente, um plano de trabalho em parceria com a Marinha que busca preservar a saúde dos trabalhadores. Com muitos intervenientes trabalhando nesse sentido, como conseguir uma sintonia entre operadores, trabalhadores e governo?
A questão é de entendimento. Se você comparar com outras empresas, como a Petrobras e a Shell, a valorização do trabalho, do ser humano nessas empresas é muito maior. Já na área portuária, a segurança ficou de fora por muito tempo. Mas a mentalidade já está mudando um pouco, tende a melhorar. Hoje já se entende que a mão-de-obra é um ponto fundamental para a empresa. Não é um recurso que você pode utilizar e jogar fora.

 

Fonte: PortoGente – www.portogente.com.br

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