Portos privados

18/03/2009

A Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) começou, neste ano, a debater um novo modelo de arrendamento portuário que pretende contemplar aspectos que não foram previstos em contratos antigos e deixaram de fora negócios de que participaram os terminais e que não foram captados pelas administrações portuárias.

Como se sabe, há hoje grandes terminais que foram modelados na década de 1990, quando o Brasil ainda dava os primeiros passos nesse segmento, depois da aplicação da Lei de Modernização dos Portos (nº 8.630/93). Sem contar que há contratos de arrendamento de terminais de contêineres que se reportam a uma legislação anterior e outros que ainda seguem um modelo que não reflete a atual conjuntura do negócio portuário.

O critério de arrendamento atual remunera as autoridades portuárias por metro quadrado e por uma expectativa mínima de movimentação de cargas garantida em contrato. Segundo a Codesp, o novo modelo deve contemplar uma expectativa mínima de movimentação de carga que reflita a realidade do negócio, além dos serviços acessórios, que incluem a pesagem da carga, abertura, ovação, desova, lavagem, inspeção, troca de lacre e, eventualmente, guarda do contêiner e até mesmo pontos de armazenamento. Todos esses negócios não foram captados nos contratos anteriores.

Para este ano, estão previstas concorrências públicas para arrendamento de três grandes terminais: o da Cargill, o Terminal de Exportação de Veículos (TEV) e o da Vopak, na margem esquerda do porto. E a Autoridade Portuária pretende dar início à elaboração dos projetos para os terminais de Conceiçãozinha e Prainha, também na margem esquerda. A exemplo do modelo de arrendamento, a tarifa portuária será motivo de estudo a ser desenvolvido neste ano, abrangendo a valorização de suas taxas, com o objetivo de adequá-las à realidade.

A par disso, o governo federal pretende estabelecer novas regras com o objetivo de criar um regime de concessões à iniciativa privada para a construção e operação de novos portos. Tudo isso é necessário não só para estabelecer marcos regulatórios que ofereçam segurança e atraiam investidores nacionais e estrangeiros como para adequar a infra-estrutura do País às operações dos modernos supercargueiros que cumprem as rotas internacionais.

Seja como for, é indiscutível que o modelo estatal que foi adotado por largas décadas mostrou-se incapaz de acompanhar as transformações tecnológicas que alteraram os métodos de trabalho para o embarque e desembarque de mercadorias. E que a decisão de transferir para a iniciativa privada a tarefa de movimentar e armazenar cargas, ainda que tenha sido adotada tardiamente, foi o que de melhor poderia ter acontecido para evitar o sucateamento da infra-estrutura portuária.

Isso, porém, não significa que não tenham ocorrido muitas imperfeições nas regras da privatização adotadas até aqui. E que o governo federal, por um vezo estatizante, não tenha acelerado tanto como devia o processo de privatização de muitas atividades que o mundo moderno já não admite que continuem nas mãos do Estado. Entre essas deficiências na questão portuária, podemos apontar as denúncias de favorecimento ilícito que correm na Justiça e a falta de participação dos municípios no planejamento da ocupação das zonas portuárias e na apuração dos dividendos tributários que lhes cabem.

Com a criação da Secretaria Especial dos Portos (SEP), já se deu um grande passo no sentido de modernizar a administração portuária no País, mas não se pode dizer que as estatais portuárias tenham ficado imunes à influência política na nomeação de funcionários para cargos bem remunerados que ficam sempre devedores da contrapartida em favor de interesses eleitorais.

Por isso, o que se espera, além da modernização dos contratos de arrendamento e da adoção de um regime específico de concessões à iniciativa privada para a criação de novos portos, é que o governo estabeleça também regras mais rígidas para o preenchimento de cargos, a partir do critério da comprovada competência profissional. A sociedade brasileira está madura e não admite mais cobrir prejuízos causados por más administrações nas empresas estatais.

Mauro Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

Compartilhe:
Kepler Weber e Procer anunciam robô que usa tecnologia integrada para nivelar grãos armazenados
Kepler Weber e Procer anunciam robô que usa tecnologia integrada para nivelar grãos armazenados
ENIACLOG 2026 reúne empresas, especialistas e debates sobre tecnologia e Supply Chain em Guarulhos, SP
ENIACLOG 2026 reúne empresas, especialistas e debates sobre Supply Chain em Guarulhos, SP
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Medicamentos em supermercados exigem maior controle da cadeia fria, alerta Grupo Polar
Medicamentos em supermercados exigem maior controle da cadeia fria, alerta Grupo Polar

As mais lidas

01

Descompasso entre demanda e infraestrutura pressiona logística urbana no Estado de São Paulo, avalia o presidente da FETCESP
Descompasso entre demanda e infraestrutura pressiona logística urbana no Estado de São Paulo, avalia o presidente da FETCESP

02

Copa do Mundo 2026 acelera vagas temporárias e fortalece polos logísticos, revela estudo da Mendes Talent
Copa do Mundo 2026 acelera vagas temporárias e fortalece polos logísticos, revela estudo da Mendes Talent

03

Vacância de galpões de alto padrão atinge mínima histórica de 6,4% no Brasil, aponta Binswanger
Vacância de galpões de alto padrão atinge mínima histórica de 6,4% no Brasil, aponta Binswanger