Pentelhos, irresponsáveis e o Planeta Terra

20/06/2008

A Revista Nature divulgou estudo liderado por Cátia Domingues, cientista paulista, radicada na Austrália, comprovando que o mar esquentou 50% mais do que se imaginava entre  1961 e 2003. Em termos práticos, isso significa  que o oceano está ficando rapidamente mais volumoso, tendendo a expandir seu território na direção da terras litorâneas bem antes do previsto. Lugares como Holanda, costa da Espanha, Rio de Janeiro e Capão da Canoa podem desaparecer do mapa bem antes da virada do século. A perspectiva é que o nível das águas aumente até 58 cm no espaço de tempo em questão.

Apesar de não se ter muita certeza das razões fenômeno, a principal suspeita nos remete ao aquecimento global, provocado  pela queima de combustíveis fósseis e redução das áreas verdes, responsáveis pelo seqüestro de carbono ( antigamente chamado de fotossíntese, mas que saiu de moda no jargão dos ambientalistas).

Diante da questão e sua ameaça material – com vários efeitos multiplicadores – em princípio não há dúvidas do caminho a ser seguido: redução da emissão de CO2 e ampliação das áreas verdes no planeta.

Porém, não dá para esquecer que as providências diretas no sentido apontado iriam contra os interesses imediatos e de médio prazo de algo em torno de 6,6 bilhões de seres vivos, apelidados de humanidade.

A chave da questão é tentar obter a fórmula do equilíbrio ambiental, comprometendo minimamente a vida das pessoas. Para tanto, a gestão energética é o ponto crucial… e o ponto da maior bagunça.

É verdade que novas tecnologias não poluentes estão sendo desenvolvidas, como cata-ventos, fusão nuclear e a célula de combustível de hidrogênio – com destaque para a japonesa Honda, que há poucos dias inaugurou a produção em série do primeiro automóvel movido pelo composto.

Entretanto, a maturação de tudo isso, para se tornar realmente viável, ainda demorará, provavelmente, algumas décadas. Enquanto isso, estamos atravessando um claro período de transição, onde a  bioenergia ocupa o centro das atenções, tendo o Brasil como um dos líderes mundiais nessa tecnologia.

Mas evidentemente a coisa não poderia ficar simplesmente em paz. Por vários motivos, incluindo frustrações de safras, aumento das importações chinesas, e também alguma reconversão de alimentos em etanol, o preço da comida está subindo mundialmente, justificando a inflação global que afeta em diferentes níveis quase todos os países, inclusive o nosso.

E aí começa o berreiro de algumas de ONGs, do tipo: "Estão tirando comida da boca do povo para encher o tanque dos carros". São esses os pentelhos que fazem questão de ter uma visão unilateral da vida, com o indisfarçável objetivo de conseguir espaço nos veículos de comunicação.

Eles não querem saber realmente o que aconteceria com o mundo caso suas teses fossem passivamente aceitas. Naturalmente, a oferta de alimentos até poderia aumentar, mas o consumo global de petróleo iria no mesmo sentido, agravando o aquecimento planetário. O pior é que essa campanha pseudo-humanista está tendo relativo sucesso em deter o avanço do uso da tecnologia em pauta.

E mais tarde, é razoável imaginar que serão esses mesmos os irresponsáveis que gritarão contra o avanço da demanda por combustíveis fósseis. Daí, a solução seria diminuir o consumo de óleo, sem transformar alimento em energia. Resultado: dificuldade e encarecimento do escoamento da produção, gerando o mesmo problema inflacionário dos alimentos, senão mais grave ainda.

Mantendo-se à margem desse debate maluco, a Arábia Saudita anunciou investimento de US$80 bilhões na ampliação de sua capacidade de extração e refino de petróleo, coisa que os demais países do Golfo Pérsico deverão fazer também. A Petrobrás, nem se fala, descobrindo novos poços de grande potencial produtivo, enquanto os norte-americanos falam da extração em alto-mar.

Desse jeito, fica claro que a Holanda, costa espanhola Rio de Janeiro, Capão da Canoa (ironicamente fica do lado de Atlântida ) e outros milhões de quilômetros quadrados de faixas litorâneas que abrigam a maior parte da população mundial estão mesmo à revelia dos riscos de inundação pela expansão das águas.

Penso que a solução da transição tecnológica via agricultura ainda é o cenário mais razoável a ser buscado, mesmo que isso envolva custos sociais. Mas é o menos pior.

Afinal, alimentos mais caros são um preço pequeno a pagar em relação ao risco de a terra se transformar no planeta dos peixes. Como solução adicional, seria interessante sugerir a intensificação de pesquisas genéticas na agropecuária, buscando patamares maiores de produtividade.

Mas isso deixaria os pentelhos realmente irados.

 

Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

Compartilhe:
Henkel expande frota verde e coloca em operação três carretas movidas a biometano com capacidade de 75 toneladas
Madesa investe mais de R$ 4 milhões em Centro de Distribuição para impulsionar logística e expansão global
Usiminas inicia projeto de R$ 1,7 bilhão em Ipatinga para ampliar produção própria de coque e competitividade logística
Summit Futuro da Mobilidade: IA, eletrificação e conectividade redefinem a logística e os transportes no Brasil
Diesel acumula alta de 20,4% e força reajuste no piso do frete; SETCESP alerta para impactos na cadeia logística
SHEIN expande centro logístico em Guarulhos e abre 850 vagas de emprego

As mais lidas

01

Americanas conclui venda de mais uma unidade do Natural da Terra para o Oba Hortifruti

02

Volkswagen do Brasil abre inscrições para o Programa de Estágio 2027 com mais de 30 vagas

03

Kothe expande operação em São Paulo com novo complexo logístico de 64 mil m² em Cajamar