PAC: em descompasso

15/12/2008

Que o governo federal, ao colocar em execução o chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), acatou e pôs em prática muitas das reivindicações da sociedade civil, não há como deixar de reconhecer. Se já não se prevê um apagão logístico para breve – até porque o mundo está atolado em recessão –, por outro lado, não se pode deixar de lamentar a lentidão com que as obras vêm sendo executadas.

Isso fica claro quando se constata que, em São Paulo, o governo do Estado investiu mais em obras de infra-estrutura do que o governo federal em todo o País. Vejamos os números: São Paulo investiu em infra-estrutura R$ 9 bilhões em 2007 e R$ 12,7 bilhões de janeiro a outubro de 2008, enquanto o governo federal, em períodos idênticos, aplicou R$ 8 bilhões e R$ 8,2 bilhões em obras previstas pelo PAC.

Portanto, a se continuar nesse ritmo – e já há dúvidas quanto a que o PAC continue em patamares similares em 2009 –, só haverá de aumentar o atual descompasso que existe entre a infra-estrutura paulista e a do resto do País. Até porque a História mostra que é fraquíssimo o desempenho do Ministério dos Transportes na execução dos recursos financeiros que lhe são destinados para investimentos em infra-estrutura.

Números? Aqui estão: em 2004, o Ministério dos Transportes só conseguiu executar 29% dos recursos autorizados para investimentos em obras de infra-estrutura; em 2005, 46%; em 2006, 35%; e em 2007, 31%. Neste ano, até setembro, o Ministério dos Transortes só havia gasto o equivalente a R$ 4 bilhões, ou seja, 25%. Portanto, é provável que, em 2008, esse número também fique ao redor de 31%.

Embora o próprio governo federal reconheça a necessidade de o País buscar maior equilíbrio em sua matriz de transportes, na prática, esses investimentos vêm sendo realizados no modal rodoviário (57%), enquanto os demais modais continuam a receber pouca atenção: aéreo (5,1%), ferroviário (2%), hidroviário (1,2%) e portos (4,6%). Já se vê que o Brasil continuará cada vez mais a depender de sua malha viária e do petróleo.

Na questão dos portos, vê-se que o Porto de Santos perdeu muito em razão da falta de entendimento para que o governo de São Paulo assumisse a responsabilidade pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Se esse entendimento tivesse saído, parece claro que a situação do Porto hoje seria outra – para melhor.

Basta ver como o governo paulista investe em várias frentes de obras de infra-estrutura: recorreu às Parceiras Público-Privadas (PPPs) para tocar projetos, como a Linha 4 do metrô e o de distribuição de água em Mogi das Cruzes, e até o final do ano espera concluir PPPs para reformar trens e comprar vagões novos para a Linha 8 da Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos (CPTM) e lançar o Veículo Leve sobre Trilho (VLT) para a Baixada Santista. Já o governo federal mostra-se excessivamente lento e pesadão para concluir negociações para a formalização de PPPs.

São Paulo faz isso porque conseguiu elevar a receita tributária, sem criar impostos ou aumentar alíquotas, ao mesmo tempo em que cortou 15% dos cargos em comissão. Já o governo federal agiu de maneira totalmente oposta, inchando a máquina pública. O preço dessa política imprevidente é que, por falta de agilidade e de vontade política para adotar medidas de maior alcance, o Brasil pode ter perdido um período extremamente favorável a um processo de recuperação, ampliação e modernização de sua malha viária e de reaparelhamento de seus portos.

Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP. E-mail: fiorde@fiorde.com.br

Compartilhe:
Kepler Weber e Procer anunciam robô que usa tecnologia integrada para nivelar grãos armazenados
Kepler Weber e Procer anunciam robô que usa tecnologia integrada para nivelar grãos armazenados
ENIACLOG 2026 reúne empresas, especialistas e debates sobre tecnologia e Supply Chain em Guarulhos, SP
ENIACLOG 2026 reúne empresas, especialistas e debates sobre Supply Chain em Guarulhos, SP
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Medicamentos em supermercados exigem maior controle da cadeia fria, alerta Grupo Polar
Medicamentos em supermercados exigem maior controle da cadeia fria, alerta Grupo Polar

As mais lidas

01

Descompasso entre demanda e infraestrutura pressiona logística urbana no Estado de São Paulo, avalia o presidente da FETCESP
Descompasso entre demanda e infraestrutura pressiona logística urbana no Estado de São Paulo, avalia o presidente da FETCESP

02

Copa do Mundo 2026 acelera vagas temporárias e fortalece polos logísticos, revela estudo da Mendes Talent
Copa do Mundo 2026 acelera vagas temporárias e fortalece polos logísticos, revela estudo da Mendes Talent

03

Vacância de galpões de alto padrão atinge mínima histórica de 6,4% no Brasil, aponta Binswanger
Vacância de galpões de alto padrão atinge mínima histórica de 6,4% no Brasil, aponta Binswanger