Opção preferencial pela miopia

13/05/2008

Quando o governo americano resolveu apostar em Lula como freio para as pretensões de Hugo Chávez, o resultado era mais que previsível: sob uma cortina de sorrisos tranqüilizantes estendida pelo presidente brasileiro, a esquerda revolucionária latino-americana teria campo livre para crescer e dominar mais meia dúzia de países, sem que o Departamento de Estado opusesse a isso senão alguns resmungos anti-chavistas periódicos, pro forma e totalmente inofensivos.

Escrevi que isso ia acontecer, e aconteceu. O simples fato de que a sra. Condoleezza Rice e o presidente Bush concentrassem seus temores na pessoa de Hugo Chávez, em vez de reparar na monstruosa articulação continental de esquerda montada pelo próprio Lula no Foro de São Paulo , já manifestava uma opção preferencial pela miopia, uma necessidade obsessiva de fixar-se num detalhe para não ter de enxergar o todo.

O Council on Foreign Relations (CFR) foi manifestamente culpado de fomentar esse monstruoso erro de avaliação, ao emprestar sua prestigiosa tribuna para que os senhores Luiz Felipe de Alencastro e Kenneth Maxwell negassem a existência do Foro de São Paulo , numa época em que as atas das assembléias dessa organização revolucionária já estavam publicadas e à disposição de qualquer estudioso honesto. Um órgão da envergadura do CFR simplesmente não tem o direito de alimentar o governo com falsa informação, pois está consciente de que sua palavra é ali ouvida com reverência e temor.

Mas agora sabemos que o erro teve uma segunda origem ainda mais escandalosa: foi o próprio Lula que em 2005 ofereceu ajuda ao governo americano para "acalmar Chávez". O emissário escolhido para levar a oferta já constituia, pela singularidade da sua pessoa, a prova mais patente de que não havia na proposta senão o intuito de acalmar, isto sim, o governo dos EUA, para que não prestasse atenção ao Foro de São Paulo e ao crescimento do seu poder avassalador. O portador não foi outro senão o então ministro José Dirceu, cuja lealdade à ditadura cubana — e portanto ao Foro de São Paulo , que é uma extensão dela — não advem só de sua imensa dívida pessoal para com o regime que o transformou de militante de segunda classe em comandante da esquerda armada brasileira, mas deve-se também a um laço de ordem profissional, de vez que o referido é oficial do serviço secreto militar cubano (um cargo ao qual o prefixo "ex", quando não se trata de pessoa exilada, presa ou falecida, só pode ser acrescentado a título de desinformação ou de piada). Um indício ainda mais direto de que se tratava de presente de grego foi fornecido pelo próprio José Dirceu, ao declarar à sra. Rice, na ocasião, que não havia nenhuma ligação entre Hugo Chávez e as Farc — ligação que hoje está mais que provada e que ele então não podia ignorar de maneira alguma.

Um terceiro fator que contribui para nublar a visão que o governo americano tem da política de Lula é a presteza e alegria com que este último cede às injunções dos investidores estrangeiros, dos bancos internacionais e do globalismo em geral. Como a relação entre esses poderes e o governo americano é ambígua e nebulosa, Lula pode parecer amigo dos EUA só por ser, mais que amigo, servo do esquema globalista, ao qual não hesitou em tentar ceder um Estado inteiro da federação, a título de "república indígena", só sendo impedido de fazê-lo pela reação patriótica das Forças Armadas brasileiras.

Jornalistas a serviço desse esquema vendem a imagem de que um Lula globalista é, por definição, um parceiro dos EUA. Mas, se globalismo e interesse nacional americano fossem a mesma coisa, ninguém proporia algo como o Tratado da Lei do Mar , a sujeição dos presidentes americanos ao Tribunal Penal Internacional ou a dissolução dos EUA numa Comunidade Norte-Americana . A confusão, neste caso, é proposital. Mas isso só deveria constituir um motivo a mais para que um presidente americano sensato jamais caísse nela.

P.S. – O ministro Celso Amorim negou que o Brasil tivesse oferecido ajuda para conter Chávez, mas quem conhece o nosso governo e o dos EUA sabe qual dois dois tem mais prática em mentir e mais espaço, quase ilimitado, para fazê-lo impunemente.

Fonte: www.dcomercio.com.br

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