O outro lado da crise mundial

04/03/2008

Nas últimas semanas, a avalanche de notícias desconexas tem deixado perplexos o mercado financeiro e o investidor. Qualquer novo indicador sobre a economia americana faz tremer os mercados. Se a notícia é boa, as bolsas disparam; se é má, as bolsas despencam. Dado a disparidade de opiniões, o investidor não consegue chegar a uma conclusão sobre o futuro próximo da economia mundial. Diante disso, todos se perguntam: os EUA entrarão em recessão? Se isto ocorrer, qual será o tamanho e a duração? Ela vai contaminar a economia mundial? E o Brasil?

É verdade que a economia não é uma ciência exata, mas não se esperava que fosse tão inexata assim. Proponho considerar alguns pontos que podem explicar um pouco o momento atual.

Durante o qüinqüênio 2002-2006, o Produto Interno Bruto (PIB) americano cresceu 14%, enquanto o da Europa e do Japão cresceram 8%. Tamanha disparidade ocorreu devido ao aumento do volume de consumo das famílias americanas, que foi possível graças ao efeito-riqueza gerado pela expansão do crédito fácil, pela redução dos impostos e pelos baixos preços dos produtos importados. Durante este período, o consumidor americano viveu no melhor dos mundos: muito gasto e pouca inflação. Como resultado desta farra, aumentaram os déficits fiscais e em conta-corrente, que chegaram a uma média anual de 3,8 % e 5,4 % do PIB ao ano.

Todo esse desequilíbrio foi financiado pelos países exportadores, que compravam títulos americanos para mantê-los em reserva. Por um lado, havia um cliente que consumia mais do que ganhava, e por outro, fornecedores que financiavam este cliente porque dependiam dele. Somente no qüinqüênio mencionado, o volume do déficit em conta-corrente americano foi de US$ 3,2 trilhões, mais do que o dobro do tamanho do PIB do Brasil. As reservas da China, principal exportador para os Estados Unidos, passaram de US$ 292 bilhões no final de 2002 para US$ 1,6 trilhões no final de 2006.

Com o aumento dos juros, que passaram de 1,25% no início de 2002 para 5,25% no final de 2006, os custos dos financiamentos subiram e a inadimplência cresceu. O aumento dos preços do petróleo e das commodities agrícolas e minerais colocou mais lenha na fogueira. Daí, até o estouro da bolha de crédito, foi só questão de tempo. Então, o melhor dos mundos chegou ao fim.

Agora vivemos o tempo de correção dos desequilíbrios. O dinamismo e atratividade do ambiente de negócios e os altos investimentos em inovação e produtividade nos Estados Unidos nos dão garantias de que a correção chegará a bom termo, mas, dado o porte do problema, isto demanda tempo. Parte da correção vem dos efeitos da desvalorização do dólar, que leva a uma redução do déficit comercial. Outra parte vem do aumento dos investimentos estrangeiros nos EUA: queda do dólar torna muito atrativos os ativos americanos, e parte das reservas acumuladas pelos países árabes e asiáticos tende a fluir para lá.

Durante o período em que durar o processo de correção, os mercados tendem a ficar mais sensíveis, com medo de que o processo desande. Neste período, a economia americana sofrerá forte desaquecimento, podendo, inclusive, entrar em recessão. O cenário mais provável é de crescimento próximo de zero, mais ainda positivo. Economias como a da China e da Índia, com forte mercado interno, deverão ter seu processo de crescimento reduzido em algo como dois pontos percentuais; e o Brasil também sofrerá, com recuo do seu crescimento de 5,5% em 2007 para algo em torno de 4,5% em 2008.

Para o Brasil, se tudo correr como descrito acima, pode até ser bom. Se a economia mundial continuasse acelerada, os altos preços das commodities agrícolas e minerais e a escassez interna de energia poderiam pressionar a inflação a ponto de o Banco Central precisar elevar bastante as taxas de juros. Com menor crescimento econômico mundial, o preço das commodities deve cair um pouco, ajudando a manter a inflação próximo da meta. Além disso, ganhamos tempo para que os investimentos feitos em 2007 possam maturar, ajudando a aumentar a capacidade de oferta no mercado interno.

Para os investimentos em Bolsa de Valores, a volatilidade deve continuar bastante alta ao longo de 2008. No entanto, o bom desempenho das principais empresas listadas na Bovespa pode garantir aos investidores rendimentos ainda compensadores.


Alcides Domingues Leite Júnior
é professor de Mercado Financeiro da Trevisan Escola de Negócios

Fonte: www.dcomercio.com.br

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