O nó que aperta a Argentina

23/06/2008

Há quatro razões que explicam a continuação do impasse político na Argentina. Infelizmente, as quatro razões são de cunho econômico e não têm fácil solução. E o problema é que, sem resolver os quatro dilemas que enfrenta, não haverá solução duradoura para os problemas argentinos, quer econômicos, quer políticos.

O primeiro grande dilema é como lidar com uma inflação. Segundo o órgão oficial do governo argentino, a inflação continua abaixo dos dois dígitos; mas as estimativas não oficiais dão conta de que ela já ultrapassou a barreira de 20% ao ano e, segundo outras estimativas mais pessimistas, estaria rondando os 35% anuais. Observe-se que a inflação está nesses patamares a despeito da multiplicidade de controles de preços que procuram mascarar seus efeitos. O problema é que a inflação não é somente alta. A inflação argentina está também acelerando, como, aliás, ocorre com todas as inflações que ultrapassam a barreira dos dois dígitos.

O segundo dilema diz respeito à dívida pública e à política fiscal. A situação fiscal, ao contrário do que parecem mostrar os dados correntes de bom desempenho fiscal, é mais frágil que parece. Isso decorre do fato de que as fontes de receita que vêm assegurando os bons resultados fiscais não são sustentáveis, mas as despesas que financiam têm caráter permanente.

Uma fonte importante de receita tributária é constituída pelos impostos de importação sobre produtos agrícolas, objeto da quebra-de-braço entre o governo e os ruralistas. Essa briga, que já vem de longe, ao que indica a decisão da presidenta Kirchner de submeter a tributação ao Congresso, parece caminhar para uma solução de compromisso. Se assim for, se resolverá, no todo ou em parte, o problema político e se instaurará em seu lugar um problema econômico, com a redução da receita tributária.

Uma segunda fonte de receita que se tornou relevante nos governos Kirchner é o imposto inflacionário . A inflação corrói o poder de compra do dinheiro e permite que o governo emita mais para repor esse poder de compra. Com isso, ganha o governo uma fonte adicional de receita, a simples emissão monetária. O problema com essa "solução" parafiscal para o financiamento das despesas do governo é a crescente percepção pela população de que o dinheiro está perdendo poder de compra. Com isso, as pessoas tratam de se livrar o mais rapidamente possível de seus pesos, comprando bens ou dólares, como está ocorrendo no momento. Além disso, eventualmente este governo ou o que o suceder terá que combater a inflação, reduzindo essa fonte de receita. É um segundo dilema.

O terceiro dilema argentino, curiosamente, decorre de uma bonança: como muitos países emergentes, produtores e exportadores de alimentos, a Argentina, talvez mais que todos, tem o potencial de beneficiar-se grandemente da alta dos preços no mercado internacional.

Tendo em vista esse fato, o que teria sido desejável teria sido a implementação de uma política voltada à exploração da benesse, não o seu combate. Traduzindo em políticas, em lugar de segurar o preço dos alimentos e tributar sua exportação, o governo argentino deveria ter investido em infra-estrutura para ampliar a oferta de alimentos, em lugar de restringi-la. Como fazer isso agora, que boa parte das oportunidades já foram perdidas e as disponibilidade de recursos para investimentos estão secando?

Finalmente, há o dilema do crescimento. Dos países emergentes, a Argentina está entre os poucos que se recusaram a elevar a taxa de juros doméstica para separar o país da inflação externa – se é que é relevante essa ponderação, já que a inflação argentina já é sobejamente superior à média mundial. De qualquer forma, se nada for feito certamente a aceleração da inflação doméstica será auxiliada pela "importação" da inflação externa, já que os juros persistem nos mesmos patamares anteriores ao ressurgimento da inflação mundial. É possível que essa decisão tenha a ver com uma preocupação com a manutenção do crescimento, mas o combate à inflação é pré-condição do desenvolvimento.

Não são dilemas de simples solução, o que leva a concluir que, infelizmente, os dilemas argentinos persistam ainda por bom tempo.

 

Fonte: www.dcomercio.com.br

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