Outro dia assisti num telejornal a uma reportagem sobre a situação das escolas públicas de um determinado município do Estado do Rio de Janeiro. A reportagem mostrava o estado de abandono das unidades educacionais bem como a falta de merenda, uniformes, livros. Por conta disso, os alunos não cumpriam a carga horária, sendo dispensados mais cedo de suas atividades.
Já a Secretária de Educação do município alegava que “assumira a pasta num completo estado de caos, mas que já estavam sendo tomadas ações firmes no sentido de corrigir o problema”. Chego a conclusão que o gerúndio é o tempo verbal preferido dos incompetentes e que as sucessões nos governos municipais devem ser traumáticas pois ouço essa mesma desculpa desde que me entendo por gente.
Independentemente dos brilhantes políticos que ajudamos de forma complacente a manter, surge uma grande preocupação para os gestores que é a formação da mão de obra. Digo isso porque tenho sentido na pele a qualidade do material humano que tem chegado para entrevistas. E o pior é que muitos possuem diplomas de nível superior.
Coincidentemente dirigindo para um compromisso ouvi uma entrevista com especialista em formação de mão de obra criticando a formação dos nossos jovens e como uma educação fraca acaba por reduzir o grau de versatilidade dos futuros profissionais e a produtividade, que sem dúvida é um dos gargalos brasileiros a ser atacado, isso, é claro, se queremos deixar de ser o país do futuro do pretérito.
Trabalhei numa empresa multinacional que possuía uma enorme dificuldade em recrutar torneiros mecânicos de bom nível para suas fábricas. O diretor de RH montou um projeto fantástico que foi de recrutar em escolas técnicas os melhores que podia e dentre esses selecionar os mais talentosos que passavam seis meses na Alemanha em treinamento. Quando voltavam transformavam-se em multiplicadores.
É claro que houve corrente contrária na empresa, mas o tal diretor com paciência e boa dose de convencimento acabou conseguindo verba para um teste. O resultado foi tão bom que a empresa criou um banco de talentos para essa função. Como nem tudo são flores, depois de um certo tempo, parte dessa mão de obra começava a ser seduzida por melhores salários. Mas mesmo assim, a carência de profissionais foi eliminada.
Quando tive a oportunidade de gerenciar as operações de uma distribuidora nacional, deparei-me com problemas graves de conferência de produtos para expedição. Resolvi ir mais fundo no problema e descobri que minha equipe de conferentes tinha graves falhas de formação educacional básica, ou seja, liam mal e faziam contas pior ainda.
Como a empresa estava localizada numa área populacional de baixo poder aquisitivo, acabava por recrutar pessoas que moravam nas redondezas com o objetivo de reduzir custos de transportes. Bom para fomentar a economia local e melhorar o nível salarial da região, mas ruim pelo aspecto de não entender o tipo de mão de obra que era atraída e as consequências nos custos da operação.
Já com o exemplo do diretor de RH que citei, que para mim virou case, montamos com o fantástico apoio do RH uma parceria com o SENAC e trouxemos a escola para dentro da empresa em cursos noturnos. A mudança foi sensível não somente na melhoria da qualidade do trabalho como também na autoestima dos funcionários. Descobri que o tal diretor era um visionário.
Isso tudo para trazer a reflexão o grande desafio que teremos pela frente e que diz respeito à qualidade da mão de obra com a qual teremos de repor os quadros das empresas que gerenciaremos. Se já no século XIX Japão e Alemanha preocupavam-se com a necessidade de melhorar o nível de formação educacional e técnico de sua população, no Brasil foram feitas maquiagens. Até Stalin, que foi responsável por mais de 20 milhões de mortes em seus expurgos, preocupou-se com o tema.
A grande reflexão que mencionei é sobre a necessidade de as empresas começarem a pensar mais seriamente em complementar e melhorar a formação de seus quadros partindo de um amplo estudo sobre a verdadeira situação das equipes. Lembro que li um texto de um historiador que defendia a tese de que a evolução humana dependia de dois fatores : técnicas disponíveis e políticas públicas e privadas implementadas para o seu aproveitamento.
Concordo com o ponto de vista dele, pois quando liderei um projeto de implantação de um software de “business intelligence” numa empresa, o grande desafio não foi a instalação, mas a capacidade de um certo número de pessoas em entender conceitos mais complexos e utilizá-los agregando valor às suas tarefas. Infelizmente, alguns tiveram de ficar pelo caminho, o que foi uma pena pelo histórico que possuíam da empresa.
Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil dizia que nós brasileiros não temos capacidade de nos unir para fazer algo melhor pela comunidade. Se as faculdades e cursos técnicos não estão produzindo a mão de obra qualificada para os grandes desafios que temos hoje e pela nossa frente cabe refletir se as parcerias empresa-universidade não devem ser debatidas.
Tenho visto tantas associações e grupos sendo formados para debater questões relevantes para determinados segmentos de mercado, mas não vejo uma ação desses mesmos grupos colocando em prática ações objetivas nesse sentido. Os custos de programas como esse certamente seriam muitíssimo menores do que as perdas em produtividade, desperdícios e erros. Basta avaliar quanto perdemos em resultados anualmente, numa conta grosseira, devido a esses fatores. Isso sem contar na perda de vidas por imprudência, que na esmagadora maioria dos casos surge da incapacidade de avaliar corretamente causas e consequências de nossos atos.
Só para ilustrar esse ponto, em outubro de 2013 o Ministério divulgou os números de acidentes de trabalho relativos a 2012. Foram 705.239 acidentes com 2.731 mortes registradas. Esse número tende a ser maior devido a critérios de apontamentos.
Para nós, profissionais de Logística, cabem aqui dois dados que nos remetem a reflexão: em pesquisa realizada em 2010 pela Aslog, o Brasil tem um índice médio de 87% de “on time-in full”, ou seja, de cada 100 pedidos realizados, 87 chegam ao seu destino no prazo contratado e nas quantidades solicitadas. A média dos países mais evoluídos educacionalmente é superior a 91%.
Em paralelo a esse indicador, segundo pesquisa realizada em 2011 pela Totvs, 21% das empresas do segmento de Logística no país acham que seu grande desafio é o aumento do “customer service”.
Ou seja, quadros cada vez mais capacitados serão a chave para a melhoria da qualidade dos serviços, aumento da produtividade e consequente redução de custos na cadeia.
Fica aí a mensagem para a referida e necessária reflexão de todos.
Marcio Freitas – Gerente de projetos com mais de 25 anos de carreira na área de logística. santosfreitas.marcio@gmail.com








