O Federal Reserve em águas desconhecidas

19/03/2008

Com reportagem informando em seu título que o Federal Reserve (o banco central americano) está entrando em águas "nunca dantes navegadas", o Wall Street Journal de terça-feira traçou um retrato apropriado das dificuldades que enfrenta o Fed para controlar a crise de confiança do sistema financeiro americano. Mostra também que os mecanismos tradicionais, conhecidos, não estão dando conta do tamanho da crise e da desconfiança dos agentes financeiros. Sem alternativas, o banco central americano está testando novos mecanismos, como o convencimento do banco JPMorgan a adquirir a Bear Stearns.

O banco central dos EUA – o Federal Reserve System – foi criado em 1913 para servir como um "emprestador de última instância" nas crises recorrentes do sistema bancário americano. Naquela ocasião, os bancos eram a principal fonte de empréstimos à economia americana. O cenário mudou muito desde 1913. Hoje, os bancos dividem o espaço com investidores institucionais, financeiras e dealers , como Bear Stearns.

A função de "emprestador de última instância" do sistema bancário não é mais adequada nos dias de hoje. Muitas inovações do sistema financeiro passaram a requerer outras formas de intervenção. A crise atual começou de fato em março do ano passado, embora tenha se tornado mais aguda em agosto de 2007. Até então, o Federal Reserve vinha adotando soluções de caráter geral, aplicável a qualquer instituição que se adequasse às normas do Federal Reserve.

O socorro à Bear Stearns é diferente. O Federal Reserve decidiu socorrer uma instituição em particular. Isso abre um precedente para qualquer outra instituição em posição similar à da Bear Stearns. Com isso, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções privadas para esse tipo de problema. Os Estados Unidos estão ficando cada vez mais parecidos com o Brasil, quando a questão é encontrar soluções para problemas no setor financeiro.

Naturalmente, a justificativa para essa intervenção é o risco que a insolvência de uma instituição do porte da Bear Stearns pode trazer para os mercados. O que não está sendo levado em consideração é o que os americanos chamam de "moral hazard" provocado pelas intervenções discrecionárias do Federal Reserve.

Diz-se que estamos diante de uma situação de "moral hazard" quando as instituições financeiras sentem-se seguras de que o Federal Reserve irá intervir no mercado para safá-las de uma situação difícil em que elas mesmas tenham se colocado. Se ninguém arca com a responsabilidade de seus atos, então locuplemo-nos todos, como diria o saudoso Barão de Itararé.

Naturalmente, o Federal Reserve não afirma que assumiu a responsabilidade de manter a liquidez de uma instituição por um período de tempo ilimitado, mas que procurou somente mantê-la por um período determinado. Essa é a razão de oferecer liquidez por um período de 28 dias, após o que se supõe a instituição – agora adquirida pelo JPMorgan – voltaria a gozar da confiança dos investidores.

O problema com essa solução é a de que ela poderá incentivar outras aventuras semelhantes à Bear Stearns. Se o Federal Reserve irá sempre "salvar" instituições insolventes, por que não tomar riscos?

O Federal Reserve partiu da premissa que o custo de não intervir é ainda maior, e pode estar certo. É difícil quantificar esse risco, já que há poucos antecedentes de atitude similar tomada pelo Fed. Os benefícios da intervenção não serão apropriados pela Bear Stearns, mas pelas instituições que financiaram a instituição. E o Federal Reserve não acredita que nenhuma outra instituição financeira virá a tomar os mesmos riscos da Bear Stearns no futuro, dadas as conseqüências que a tomada desses riscos trouxe para a instituição.

O fato é que a atual operação de resgate da Bear Stearns tem poucos antecedentes. A autoridade para socorrer instituições financeiras não bancárias foi conferida ao Fed em 1932, mas raramente exercida. O caso mais marcante foi o socorro ao banco Continental Illinois em 1984. Raros também são os eventos em que o Fed apoiou instituições com seu próprio dinheiro, como agora.

Resta torcer para que tudo dê certo.
 o Wall Street Journal de terça-feira traçou um retrato apropriado das dificuldades que enfrenta o Fed para controlar a crise de confiança do sistema financeiro americano. Mostra também que os mecanismos tradicionais, conhecidos, não estão dando conta do tamanho da crise e da desconfiança dos agentes financeiros. Sem alternativas, o banco central americano está testando novos mecanismos, como o convencimento do banco JPMorgan a adquirir a Bear Stearns.

O banco central dos EUA – o Federal Reserve System – foi criado em 1913 para servir como um "emprestador de última instância" nas crises recorrentes do sistema bancário americano. Naquela ocasião, os bancos eram a principal fonte de empréstimos à economia americana. O cenário mudou muito desde 1913. Hoje, os bancos dividem o espaço com investidores institucionais, financeiras e dealers , como Bear Stearns.

A função de "emprestador de última instância" do sistema bancário não é mais adequada nos dias de hoje. Muitas inovações do sistema financeiro passaram a requerer outras formas de intervenção. A crise atual começou de fato em março do ano passado, embora tenha se tornado mais aguda em agosto de 2007. Até então, o Federal Reserve vinha adotando soluções de caráter geral, aplicável a qualquer instituição que se adequasse às normas do Federal Reserve.

O socorro à Bear Stearns é diferente. O Federal Reserve decidiu socorrer uma instituição em particular. Isso abre um precedente para qualquer outra instituição em posição similar à da Bear Stearns. Com isso, torna-se cada vez mais difícil encontrar soluções privadas para esse tipo de problema. Os Estados Unidos estão ficando cada vez mais parecidos com o Brasil, quando a questão é encontrar soluções para problemas no setor financeiro.

Naturalmente, a justificativa para essa intervenção é o risco que a insolvência de uma instituição do porte da Bear Stearns pode trazer para os mercados. O que não está sendo levado em consideração é o que os americanos chamam de "moral hazard" provocado pelas intervenções discrecionárias do Federal Reserve.

Diz-se que estamos diante de uma situação de "moral hazard" quando as instituições financeiras sentem-se seguras de que o Federal Reserve irá intervir no mercado para safá-las de uma situação difícil em que elas mesmas tenham se colocado. Se ninguém arca com a responsabilidade de seus atos, então locuplemo-nos todos, como diria o saudoso Barão de Itararé.

Naturalmente, o Federal Reserve não afirma que assumiu a responsabilidade de manter a liquidez de uma instituição por um período de tempo ilimitado, mas que procurou somente mantê-la por um período determinado. Essa é a razão de oferecer liquidez por um período de 28 dias, após o que se supõe a instituição – agora adquirida pelo JPMorgan – voltaria a gozar da confiança dos investidores.

O problema com essa solução é a de que ela poderá incentivar outras aventuras semelhantes à Bear Stearns. Se o Federal Reserve irá sempre "salvar" instituições insolventes, por que não tomar riscos?

O Federal Reserve partiu da premissa que o custo de não intervir é ainda maior, e pode estar certo. É difícil quantificar esse risco, já que há poucos antecedentes de atitude similar tomada pelo Fed. Os benefícios da intervenção não serão apropriados pela Bear Stearns, mas pelas instituições que financiaram a instituição. E o Federal Reserve não acredita que nenhuma outra instituição financeira virá a tomar os mesmos riscos da Bear Stearns no futuro, dadas as conseqüências que a tomada desses riscos trouxe para a instituição.

O fato é que a atual operação de resgate da Bear Stearns tem poucos antecedentes. A autoridade para socorrer instituições financeiras não bancárias foi conferida ao Fed em 1932, mas raramente exercida. O caso mais marcante foi o socorro ao banco Continental Illinois em 1984. Raros também são os eventos em que o Fed apoiou instituições com seu próprio dinheiro, como agora.

Resta torcer para que tudo dê certo.

 

Fonte: www.dcomercio.com.br

Compartilhe:
Brado Logística recebe R$ 377,2 milhões do BNDES para ampliar infraestrutura ferroviária com o Projeto Carrossel
Brado Logística recebe R$ 377,2 milhões do BNDES para ampliar infraestrutura ferroviária com o Projeto Carrossel
Super Terminais amplia infraestrutura portuária com três novos guindastes elétricos e investimento de R$ 120 milhões
Super Terminais amplia infraestrutura portuária com três novos guindastes elétricos e investimento de R$ 120 milhões
Estudo da CNT propõe medidas para fortalecer as hidrovias brasileiras e ampliar a eficiência da logística
Estudo da CNT propõe medidas para fortalecer as hidrovias brasileiras e ampliar a eficiência da logística
SAF brasileiro fortalece liderança do Brasil em biocombustíveis e logística internacional de baixo carbono
SAF brasileiro fortalece liderança do Brasil em biocombustíveis e logística internacional de baixo carbono
Capacitação de motoristas: Mercedes-Benz reforça parceria com a Fabet para formação de profissionais do transporte
Capacitação de motoristas: Mercedes-Benz reforça parceria com a Fabet para formação de profissionais do transporte
E-commerce brasileiro impulsiona social commerce e crescimento do cross border, aponta estudo da DHL
E-commerce brasileiro impulsiona social commerce e crescimento do cross border, aponta estudo da DHL

As mais lidas

01

Nova rota da Maersk fortalece o Porto Itapoá e amplia perspectivas para a logística em Santa Catarina
Nova rota da Maersk fortalece o Porto Itapoá e amplia perspectivas para a logística em Santa Catarina

02

Averbação do seguro de transporte de cargas ganha acompanhamento em tempo real com Ticket Averbei
Averbação do seguro de transporte de cargas ganha acompanhamento em tempo real com Ticket Averbei

03

Logistique 2026 prevê cerca de 800 rodadas de negócios e reforça papel de Santa Catarina como hub logístico
Logistique 2026 prevê cerca de 800 rodadas de negócios e reforça papel de Santa Catarina como hub logístico