O enredo da Vai-Vai está certo

14/02/2008

No final do mês passado, o jornalista americano Andrés Oppenheimer publicou um artigo no O Estado de S. Paulo (27/1/08, página A8) intitulado “América Latina está ficando para trás”, um alerta que todos nós precisamos ouvir com atenção, no qual mostra que o nosso continente, embora esteja atravessando o maior surto de crescimento em décadas, não consegue acompanhar as demais regiões do mundo.
 
O problema, diz o jornalista, é que esse crescimento não se dá por razões sustentáveis – ou seja, não tem os fundamentos necessários para se manter –, uma vez que se deve, exclusivamente, a fatores externos e não é forte o suficiente para tirar os nossos países do subdesenvolvimento.
 
De fato, se compararmos nossas taxas de crescimento com as de outras regiões, isso fica evidente: a economia latino-americana tem se expandido num ritmo de 5% nos últimos 5 anos. A China cresce 10% há quase 30 anos. Os índices de crescimento da Índia são de 8% há uma década. Na Europa Oriental, de 6%. Com relação à diminuição da pobreza, a diferença é maior ainda. Enquanto na Ásia o número de pessoas pobres diminuiu em 50% de 1970 para cá, na América Latina o número caiu, segundo a ONU, de 43% para 36%. O total de investimentos em pesquisa – área vital para a continuidade do desenvolvimento – feito pelo conjunto dos países latino-americanos sequer alcança o total investido nesse setor por um único país asiático, a Coréia do Sul.
 
Uma das causas dessa disparidade são os investimentos feitos em educação. Os países que deram um salto em seu desenvolvimento, ao contrário do que ocorre em nossa região, desembolsaram, de maneira inteligente, enormes recursos nessa área. Não é por outra razão que, das 200 melhores universidades do mundo, segundo avaliação do jornal inglês The Times,  apenas três são latino-americanas. No último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que mede a proficiência em leitura, matemática e ciências de adolescentes de 15 anos, as notas dos estudantes latino-americanos ficaram entre as mais baixas do mundo.
 
O que fazer? A solução desse problema não depende apenas de ações do governo – embora essas sejam essenciais –, mas do envolvimento urgente de toda a sociedade. Os governos são eleitos por nós e, na medida em que tomemos consciência da importância da educação, assim como no passado nos unimos para exigir o fim da ditadura e depois da inflação, podemos também, agora, exigir que a educação seja a prioridade número um do país.
 
Quando falamos da educação, em termos de prioridade número um para podermos alcançar o desenvolvimento sustentável, é necessário ter em mente que isso requer, além da melhoria do ensino na sala de aula, a promoção do hábito da leitura, a divulgação da ciência, da matemática e das artes em geral, de forma a criar um meio ambiente propício ao desenvolvimento cultural, no conjunto da sociedade brasileira.
 
Um passo de fundamental importância para isso é o envolvimento pessoal de cada um de nós nessa tarefa, agindo localmente, em nossas comunidades, procurando incentivar as atividades artísticas, culturais e pedagógicas junto àquelas instâncias que nos são mais próximas, como família, amigos, colegas de trabalho e companheiros de lazer.
 
A exemplo do que fez a escola de samba campeã paulista deste ano, a Vai-Vai, que em seu enredo  – “Acorda, Brasil” – destaca a importância da educação, as entidades sociais, ligadas ou não ao poder público, as empresas, os sindicatos, as igrejas, os clubes e demais associações têm um papel fundamental e também precisam se conscientizar da necessidade de sua participação como agentes desse movimento, de modo a tornar os municípios brasileiros núcleos irradiadores de educação e cultura.
 
Trata-se de um trabalho cujos frutos somente serão colhidos a longo prazo. Mas é uma luta essencial. Sem ela, estaremos condenados a ser eternamente subdesenvolvidos, dependendo exclusivamente de fatores externos para ter, no máximo, alguns surtos de crescimento. Juntos, podemos mudar esse quadro, de maneira a assegurar um futuro melhor para nossos filhos e as gerações vindouras.
 


Miguel Haddad é advogado, ex-prefeito de Jundiaí e presidente do Instituto Jundiaí Solidária.

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