Menos custos portuários

31/03/2009

Com a crise financeira mundial, muitos governos começaram a reforçar suas posições protecionistas. Embora equivocada, é uma idéia atraente, que sempre redunda em dividendos políticos em países marcados por uma história de xenofobismo. E que, por outro lado, serve como desculpa (esfarrapada) para os governos dos países ditos emergentes e seus exportadores que sempre reclamam que não conseguem vender mais porque as tarifas protecionistas das nações desenvolvidas tiram a competitividade de seus produtos.

Eis aqui o que se pode chamar de meia-verdade. Até porque não há como contestar a afirmação de que os produtos brasileiros estão hoje em desvantagem quando procuram obter acesso a grandes mercados, já que concorrentes de peso desfrutam de preferências no comércio com economias mais desenvolvidas. É incontestável também que os EUA impõem muitas barreiras tarifárias e não-tarifárias para bloquear a entrada em seu mercado de produtos agrícolas. Além disso, subsidiam seus agricultores com somas elevadas, diminuindo assim o poder de concorrência dos produtos importados.

Tudo isso é verdade, mas o problema não se resume à política protecionista dos países ricos. Até porque estudo recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostrou, por exemplo, que se os norte-americanos reduzissem suas tarifas em 10%, o crescimento das vendas para aquele país seria quase igual a 10%.

Portanto, há outras questões que impedem o crescimento das vendas de produtos brasileiros, além da desaceleração dos grandes mercados mundiais. Uma delas foi a maneira imprevidente como o governo brasileiro negligenciou a assinatura de acordos com parceiros importantes, como os EUA e a União Europeia. Num momento de crise, a falta de acordos preferenciais pesa. E muito.

A outra questão está aqui dentro mesmo. São os elevados custos portuários que impedem o produto brasileiro de se tornar mais competitivo. Segundo a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), se o Brasil diminuísse os custos portuários e de fretes marítimos em 10%, o País cresceria cerca de 40%.

Periodicamente, o governo anuncia medidas destinadas a aumentar a eficiência e a capacidade operacional dos portos. Mas, na prática, pouco se vê. Calcula-se que hoje o custo de movimentação de um contêiner nos portos brasileiros esteja ao redor de US$ 280, bem mais que o observado nos portos europeus, de US$ 220 em média, e asiáticos, de US$ 150. Portanto, se o Brasil diminuísse drasticamente esse tipo de custo, já daria um grande passo para tornar o produto nacional mais competitivo.

Isso inclui cortar gastos que se dão em razão de privilégios que já não têm razão de existir, como, por exemplo, o monopólio da praticagem, serviço destinado à orientação dos navios na manobra de atracação e desatracação nos portos, que hoje é controlado por uma cooperativa de práticos. Segundo o ministro Pedro Brito, responsável pela Secretaria Especial dos Portos (SEP), esses serviços representam 42% dos custos de operação no porto de Santos.

Outra saída é investir pesadamente em obras de aprofundamento do calado para permitir a entrada de grandes embarcações e no reaparelhamento dos portos. No caso do porto de Santos, não se pode dizer que isso não vem sendo feito. Em maio, a empresa vencedora da licitação para a contratação dos serviços de aprofundamento deverá começar os serviços, que têm término previsto para maio de 2010.

Essa obra deverá produzir uma mudança substancial na infra-estrutura do porto, o que exigirá reforço e redimensionamento dos berços de atracação, além de mudança no perfil dos equipamentos de alguns terminais e maior controle da navegação, por meio de um sistema de tráfego de embarcações, o Vessel Traffic System (VTS), capaz de operar quase seis mil navios por ano. Tudo isso irá favorecer a movimentação dos terminais portuários.

Se tudo correr nos trâmites previstos, não há dúvida de que, em poucos anos, os custos portuários poderão sofrer um corte considerável. Afinal, o que determina boa parte dos custos portuários é o tempo que um navio leva para atracar, operar e desatracar. Quanto menor o tempo, menos custos portuários. E, por extensão, produtos mais competitivos.

 

(*) Milton Lourenço é diretor-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP:  fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

Compartilhe:
ABCR esclarece novas regras do free flow e suspensão temporária de multas por pedágio em atraso
ABCR esclarece novas regras do free flow e suspensão temporária de multas por pedágio em atraso
Foton lança semipesados e apresenta o caminhão elétrico eGalaxus na Agrishow 2026
Foton lança semipesados e apresenta o caminhão elétrico eGalaxus na Agrishow 2026
Ampliar a estratégia de expansão em intralogística é a função de Brunno Matta à frente da INTRALOG
Ampliar a estratégia de expansão em intralogística é a função de Brunno Matta à frente da INTRALOG
Correios lança plataforma Minhas Exportações para agilizar exportação internacional de encomendas
Correios lança plataforma Minhas Exportações para agilizar exportação internacional de encomendas
Viracopos registra alta de 12,2% na movimentação de cargas no primeiro trimestre de 2026
Viracopos registra alta de 12,2% na movimentação de cargas no primeiro trimestre de 2026
88i aposta em IA e seguro embarcado para ampliar eficiência na última milha
88i aposta em IA, integração via API e seguro embarcado para ampliar eficiência na última milha

As mais lidas

01

Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio

02

Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia

03

Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo