Guerra na América do Sul?

12/03/2008

Uma das nossas crenças mais arraigadas é a de que a História avança, quase automaticamente, em direção a um mundo melhor, livre de injustiças, no qual a ciência alcance, em seu progresso, divisar as causas da maioria dos males que nos afligem e os seres humanos tenham oportunidades efetivas de desenvolverem, em uma sociedade livre, o seu potencial.
 
Alguém, outro dia, me contou a história de um casal, mostrada na televisão, cujo desfecho tem muito a ver com o equívoco dessa crença. Em síntese, um marido cuidava de sua mulher presa a um leito de hospital, vítima de uma grave doença. Uma enfermeira, que assistia o desenrolar daquele drama familiar, foi tocada pela dedicação do esposo, por suas pequenas atenções à enferma e pela maneira amorosa com que o casal se relacionava, em meio a uma situação tão crítica. Em um certo momento, procurando expressar sua admiração pela atitude dele, disse-lhe algo como: “É uma situação difícil. Mas vocês têm a sorte de ser um casal tão unido!”. O marido olhou-a e respondeu: “Sorte? Sorte não tem nada a ver. Trabalhamos para isso, todo dia, de maneira consciente, ao longo de toda a nossa vida”.
 
Para conseguirmos que o futuro seja aquilo que desejamos, temos de nos dedicar com afinco, diariamente, à sua construção. A mesma coisa vale para as comunidades, as cidades, os países e para toda a humanidade. É no dia-a-dia, no detalhe, com atenção e responsabilidade, que podemos assegurar um mundo melhor. Caso não nos dediquemos a construí-lo, dificilmente ele ocorrerá. Nesse sentido, a História somente nos mostra o passado. O futuro não está definido. Para interromper a marcha da insensatez, seja no âmbito doméstico ou no conjunto da sociedade, inúmeros são os obstáculos que precisamos vencer.
 
Um exemplo disso ocorreu na semana passada, com a ameaça absurda de uma guerra, a princípio, entre três países sul-americanos, mas que poderia, em seus desdobramentos, nos engolfar a todos. O episódio, que levou a deslocamentos de tropas e ameaças de guerra, se deu em razão da morte, pelo exército colombiano, de um guerrilheiro das FARC – organização criminosa que mantém pessoas em cativeiro em condições que as levam, em vários casos, à insanidade –, enquanto ele se refugiava em território do Equador. Ou seja: não havia, de fato, intenção real de um país invadir o outro. No entanto, as tensões pré-existentes, por pouco não nos levam a uma tragédia continental.
 
No centro dessa insanidade, acendendo o estopim, estava o General Hugo Chavez. O estilo truculento do presidente da Venezuela, centralizador, ditatorial e belicista – que está obrigando os países sul-americanos a ingressarem em uma corrida armamentista – é, hoje em dia, um claro obstáculo que se soma à vasta montanha de dificuldades que a nossa região encontra em resolver seus problemas seculares.
 
A sociedade venezuelana tem procurado reagir à manipulação e às provocações de Chavez, chegando, inclusive, através da ação histórica dos estudantes da Universidade de Caracas, a derrotá-lo em sua pretensão de autonomear-se ditador perpétuo, através de uma mudança na constituição do país.
 
Em sua visão de mundo, Chavez inclui elementos das mais diferentes origens, baseando grande parte de seu apelo, como líder político, no anti-americanismo e na integração latino-americana, nos moldes que teriam sido sonhados por Bolívar. Essas posições geram, junto a certos grupamentos mais atrasados politicamente, que parecem se esquecer da iniqüidade resultante dos períodos ditatoriais em nosso continente, um apoio incondicional às posições chavistas. Na política, como em tudo na vida, há princípios que não podem ser negligenciados. A liberdade é um deles, mesmo que o seu preço seja caro, pois a História nos mostra que mais caro ainda é o preço da tirania e da guerra.
 
Para conseguirmos viver em paz, construir o nosso futuro de maneira a termos direito a uma vida digna e com melhores e maiores oportunidades, a sorte tem muito pouco a ver. Como disse o marido mencionado acima, isso se constrói no dia-a-dia, com muita dedicação, sem se deixar levar por promessas falsas de demagogos.
 
 
Miguel Haddad é advogado, ex-prefeito de Jundiaí e presidente dos Institutos  Jundiaí Solidária e Gestão Local.

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