Fúria atrasada

04/12/2008

Algumas coisas que encontramos no decorrer da vida tornam praticamente impossível sermos imunes a fazer algumas pequenas maldades.

Lá no início dos anos 70, quando eu tinha uns dez ou onze anos, resolveram instalar na pia da cozinha do apartamento em que minha família morava, uma torneira inovadora. A água que saía dela tinha pressão incrível.

Mexericando na novidade da época, descobri que ao fechar com  força a torneira, ela, gradativamente, recomeçava a abrir sozinha, até que o jato d’água disparava com força máxima.

Não sabendo ainda porque, resolvi guardar segredo sobre aquela constatação maravilhosa.

Passaram-se algumas semanas e chegou aquele momento no qual o dia seguinte seria marcado por provas na escola. Naquele tempo, eu preferia assistir desenhos animados a me enterrar em livros. Sabia tudo sobre a idade da pedra dos Flinstones e das sacanagens do pica-pau. Com tanta dedicação, faltava tempo para tratar de assuntos menos importantes, como português, ciências, matemática e história.

E a preocupação foi bater na noite anterior às provas. Como evitar o confronto com aquele momento? Fingir que estava doente não convencia mais (acho que nunca colou). O jeito foi apelar para o conhecimento científico: na madrugada, enquanto todos dormiam, fui silenciosamente até a cozinha e fechei a emblemática torneira até o ponto em que minha força permitia. Depois disso, tranquilamente, voltei para a cama e dormi.

Na manhã seguinte, acordei sem ninguém me chacoalhando ou arrancando as cobertas em meio a xingamentos. Era um bom sinal; o plano parecia estar sendo um sucesso.

Levantei e fui na direção das salas (o apartamento era grande; e tinha três ambientes de salas) que recém haviam sido cobertas por um carpete alto, da última moda (naquela época, carpete era um sinal de status social, como hoje é piso de porcelanato ou split). Por alguns momentos, fiquei observando meus pais, de quatro no chão, no esforço inútil de tentar secar com panos algo em torno de 100 metros quadrados de inundação.

Com inocência (He, He, He) infantil perguntei:

– Hoje não preciso ir na aula, né?

Precisei sim. Levei bomba nas provas, provavelmente ao mesmo tempo em que o carpete era arrancado do chão e colocado para secar no terraço do prédio, ao ar livre, naqueles dias de primavera chuvosa.

Evidentemente, fiquei calado em relação a travessura.

Passados mais de vinte anos do acontecimento – levando minha mãe para a praia –  não sei porque, relembrei do evento e comecei a rir sozinho.

– Eduardo, está rindo do que, meu filho?

Diante da pergunta, achei que depois de tanto tempo não faria mal contar o crime. Afinal, duas décadas seriam mais do que o suficiente para a prescrição de eventuais mágoas.

Que engano! Naquela noite, aprendi que a mais meiga das mamães, em momentos de fúria, tem condições de dar aula de lingüística para a marinha mercante.

Recordei novamente dessa história ao assistir o pânico das bolsas de valores do mundo, ao ser divulgado por um tal de Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA, a tese de que a América do Norte estaria em recessão desde dezembro de 2007.

Os operadores de ações pegaram essa informação (questionável) do passado e criaram um incêndio no presente.

Pessoalmente sou incapaz de entender como algo que ocorreu há quase um ano tem o poder de afetar o presente de forma tão intensa, só porque se tornou publico. Estamos falando de duas realidades temporais completamente diferentes, separadas pelo abismo da crise financeira.

Talvez seja algum vício do pânico. Qualquer motivo é motivo para imaginar o final dos tempos.

E com isso, o valor das maiores empresas do mundo cai, o que acaba provocando mais e mais indefinições no mundo real das trocas de mercadorias. Assim, de susto em susto, a intensidade da recessão global esperada vai aumentando.

Moral da história: ao que parece, informações enfraquecidas pelo tempo podem se tornar relevantes quando colocadas à luz, mesmo que sejam materialmente inócuas no momento da sua revelação.
 
Agora lembro, que no caso de minha travessura dos anos 70, por alguns meses a casa ficou empestada com um cheiro pouco agradável de carpete molhado.

Qual será o odor que atualmente está exalando nos ambientes em que se compram e vendem ações? Uma dica: parece que os profissionais do ramo estão freqüentemente se borrando…

Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

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