*Por Menotti Franceschini
A movimentação interna de cargas vive um momento de ruptura tecnológica. Máquinas e equipamentos de grande porte ainda respondem pela maior parte das ocorrências de acidentes de trabalho registradas no Brasil, gerando uma média diária preocupante que desafia gestores a buscarem respostas muito além dos treinamentos operacionais tradicionais. Diante da expansão acelerada do e-commerce e da pressão implacável por entregas cada vez mais ágeis, a resposta para equilibrar produtividade e segurança não está apenas em acumular dados brutos, mas na capacidade de dar autonomia intelectual às frotas. É precisamente nessa intersecção que a convergência entre a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas — o conceito de AIoT — redefine as regras de eficiência dentro das plantas industriais e dos centros de distribuição.
Durante anos, a telemetria cumpriu um papel essencialmente de diagnóstico, registrando eventos passados para análises posteriores. No entanto, o mercado nacional ainda engatinha na adoção básica dessa tecnologia: apenas 8% das empilhadeiras em operação no país utilizam ferramentas telemétricas, em um contraste gritante com os Estados Unidos, onde esse índice supera a marca de 60%. Esse abismo revela uma oportunidade imensa para indústrias que desejam saltar diretamente para a era da inteligência preditiva, superando o tradicional ciclo de projetos longos de 6 a 12 meses para colher retornos práticos sobre o investimento em poucas semanas.

A verdadeira revolução da AIoT na intralogística reside na emancipação dos relatórios padrões e painéis engessados de Business Intelligence. Ao fundir sensores conectados a algoritmos avançados, o sistema não se limita a apontar o histórico de movimentações. O gestor ganha a liberdade de correlacionar variáveis de acordo com sua própria interpretação e necessidade em tempo real. Na prática, isso significa prever falhas mecânicas antes que elas paralisem uma linha de produção, otimizar rotas dinamicamente dentro dos galpões para evitar congestionamentos e identificar gargalos operacionais antes invisíveis.
O impacto dessa virada tecnológica traduz-se em números robustos que protegem tanto o balanço financeiro quanto as vidas no chão de fábrica. Frotas que operam sob o conceito de inteligência preditiva registram uma redução expressiva de até 98% na probabilidade de acidentes, consolidando ambientes de trabalho muito mais controlados. Sob a ótica financeira, a eficácia ganha tração imediata com incrementos de até 20% na produtividade geral da frota e reduções nos custos de manutenção que flutuam entre 20% e 40%, dependendo da maturidade dos ativos monitorados.
Mais do que uma tendência abstrata para os próximos anos, transformar a frota de movimentação interna em um ecossistema inteligente é o divisor de águas entre operações obsoletas e cadeias de suprimentos de alta performance. O futuro da intralogística pertence às organizações que compreenderem que o dado valioso não é aquele que apenas relata o ontem, mas o que antecipa e protege o amanhã.

Menotti Franceschini, CEO da Softrack, empresa que oferece soluções tecnológicas para gestão intralogística.









