Fermento para a crise dos alimentos

25/04/2008

O reverendo Thomas Robert Malthus viveu entre 1766 e 1834. Não era má pessoa. Tornou-se famoso pela publicação do seu Ensaio sobre o princípio da população , debatido nos bares e universidades de quase toda a Inglaterra. Intelectualmente honesto, refinou seu trabalho ao longo das diversas edições da obra, dando origem à análise empírica na economia. Seu único defeito foi afirmar que a população crescia em proporção geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em proporção aritmética. Para daí afirmar que todos os males da sociedade decorriam do crescimento da população. Suas conclusões pessimistas levaram o historiador vitoriano Thomas Carlyle a apelidar a economia de ciência lúgrube ( dismal science ).

É claro que a previsão de Malthus não se realizou, pela simples razão de que o aumento da produtividade fez crescer a oferta de alimentos muito mais rapidamente que a população. Curiosamente, em seu próprio tempo e até meados da década de 1920, a população mundial cresceu a uma taxa de 0,5% ao ano, inferior à do crescimento da oferta de alimentos; quando a taxa de crescimento da população se acelerou depois da Segunda Guerra Mundial, atingindo mais 2% ao ano na década de 1960, a Revolução Verde na agricultura havia tornado o problema irrelevante. O problema agora é a obesidade mundial.

A despeito desses fatos, esta semana Jacques Chirac, ex-presidente da França e atual membro do Conselho Constitucional , expressou sua profunda preocupação com a "crise dos alimentos". Não está só. Antes dele, também expressaram preocupação semelhante, entre outros, Paul Krugman, o célebre colunista do New York Times ; Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial e Dominique Strauss-Khan, diretor-geral do FMI.

Em resposta à "crise dos alimentos", alguns países estão tributando suas exportações de alimentos. A Argentina foi pioneira na adoção dessa política. Diga-se, de passagem, que começou a tributar as exportações de soja, trigo e carne antes que se falasse de qualquer tipo de crise. É bem verdade que o governo local pretendia mascarar a inflação, impedindo que os preços internacionais dos alimentos que exporta se transmitissem aos agricultores argentinos. Diversos outros países seguiram o exemplo precursor da Argentina. O Cazaquistão paralisou as suas exportações de trigo. A Indonésia fez o mesmo com suas exportações de arroz. Também suspenderam suas exportações de alimentos o Vietnã, o Egito, a China, o Camboja e a Índia. Nenhum governo quer ser acusado de cruzar os braços, quando os mais pobres estão pagando preços mais altos por comida. Quais as alternativas a essa onda neoprotecionista?

Certamente não será a pantomima encenada pelo presidente do Banco Mundial. Nem sua conclusão de que a "crise" dos alimentos é decorrência da produção de biocombustíveis. Ou esmolas para os mais pobres. O próprio Banco Mundial não acredita na sua receita. Os empréstimos do Banco aos famintos países africanos não correspondem sequer a meio por cento (0,46%) dos subsídios ofertados pelos europeus à produção agrícola ineficiente em seu território. Esse número é ainda menor se forem acrescentados os subsídios americanos à produção de etanol de milho em seu próprio território.

A solução do problema não emergirá da demagogia ou da pantomima. O aumento dos preços é a resposta natural à escassez temporária – enfatize-se, temporária . Preços mais altos incentivam o aumento da oferta em toda parte, mas especialmente nos países que têm vantagens comparativas na produção de alimentos, como o Brasil. Para isso será necessário liberalizar os preços e o comércio internacional de alimentos, permitindo que os mais eficientes supram os demais.

Feita a opção pela liberdade de preços e comércio, será então próprio propor-se uma ajuda alimentar temporária aos países mais pobres afligidos pela "crise" dos alimentos. Caso contrário não se resolverá o problema e ainda se manterá esses países reféns dos ofertantes da ajuda "humanitária" dos países doadores.

 

Fonte: www.dcomercio.com.br

Compartilhe:
ABCR esclarece novas regras do free flow e suspensão temporária de multas por pedágio em atraso
ABCR esclarece novas regras do free flow e suspensão temporária de multas por pedágio em atraso
Foton lança semipesados e apresenta o caminhão elétrico eGalaxus na Agrishow 2026
Foton lança semipesados e apresenta o caminhão elétrico eGalaxus na Agrishow 2026
Ampliar a estratégia de expansão em intralogística é a função de Brunno Matta à frente da INTRALOG
Ampliar a estratégia de expansão em intralogística é a função de Brunno Matta à frente da INTRALOG
Correios lança plataforma Minhas Exportações para agilizar exportação internacional de encomendas
Correios lança plataforma Minhas Exportações para agilizar exportação internacional de encomendas
Viracopos registra alta de 12,2% na movimentação de cargas no primeiro trimestre de 2026
Viracopos registra alta de 12,2% na movimentação de cargas no primeiro trimestre de 2026
88i aposta em IA e seguro embarcado para ampliar eficiência na última milha
88i aposta em IA, integração via API e seguro embarcado para ampliar eficiência na última milha

As mais lidas

01

Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio
Fundos imobiliários avançam na região Sul com expansão logística e força do agronegócio

02

Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia
Águia Branca Encomendas inicia operação em São José dos Campos, SP, com embarque no mesmo dia

03

Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo
Radares do DER-SP entram em operação em quatro rodovias estaduais de São Paulo