Dois pesos e duas medidas

26/03/2008

Em mais uma trapalhada, as autoridades ameaçaram restringir na marra o crédito ao consumidor, para logo em seguida voltar atrás, alegando agora preferir um "ajuste voluntário" nos prazos de financiamento e nas taxas de juros praticadas no mercado.

Curiosa situação. A expansão do crédito ao consumidor, com o alongamento dos prazos de financiamento, tem permitido que camadas cada vez maiores da sociedade passem a participar da sociedade de consumo que caracteriza as grandes democracias ocidentais – democratizando-se, através do crédito, o acesso a bens até então privilégio daqueles que os poderiam comprar à vista ou com prazos curtos de financiamento. Restringir o crédito, pura e simplesmente, significa dizer que a democracia econômica teria ido "longe demais", e que freios tornaram-se agora necessários. Deveríamos nos contentar somente com a democracia formal, política?

Por outro lado, não deixa de ser também curioso que de repente, sem mais nem menos, o governo mostre uma preocupação com o retorno da inflação e com a possibilidade de sermos atingidos pela crise externa. Até agora, a única coisa que ouvimos foram afirmações e reafirmações de que somos uma "ilha de tranqüilidade", em cujas praias a crise não desembarcou.

Aparentemente, as autoridades confundiram prazos máximos com prazos médios de financiamento no mercado de compra e venda de carros novos, extrapolando o que supuseram ver nesse mercado para a economia como um todo. Essa confusão em nada ajuda à compreensão dos efeitos do crédito sobre a economia e a inflação.

Em primeiro lugar, porque o mercado de carros novos é pequeno em relação à economia como um todo. Ocorra o que ocorrer nesse mercado, os efeitos sobre a economia serão limitados.

Em segundo lugar, se o prazo máximo de financiamento para carros novos atinge 84 meses (sete anos), o prazo médio fica em torno de 48 meses (quatro anos).

Finalmente, a inadimplência nesse mercado não deve preocupar as autoridades, já que as autoridades não são avalistas dos financiamentos concedidos aos consumidores pelos revendedores através das financeiras e do sistema bancário.

Maior preocupação com possíveis fontes de aumento da inflação as autoridades deveriam ter com a chamada "Política de Desenvolvimento Produtivo", atualmente em fase de cocção no governo. Essa nova política industrial pretende destinar R$ 251,6 bilhões para financiar investimentos em 24 setores produtivos, escolhidos a dedo pelo governo. Além dos recursos para investimentos, o governo estuda também oferecer renúncias fiscais – isto é, subsídios via desoneração tributária e depreciação acelerada dos investimentos.

Oemprestador às empresas beneficiadas pela "Política de Desenvolvimento Produtivo" é o governo. As taxas de juros dos empréstimos estarão abaixo das taxas praticadas no mercado. Isto é, serão subsidiadas com recursos provenientes da carga tributária arcada pelo leitor. Trata-se de uma situação completamente distinta dos financiamentos aos consumidores, que pagam as taxas de mercado oferecidas pelo sistema financeiro para a compra de carros novos e outros bens de consumo.

Que a expansão do crédito pode acelerar a inflação não é descoberta nova. Trata-se do carro-chefe da explicação da chamada Escola Austríaca de economia para os ciclos econômicos. O que está sendo ignorado na atual discussão é o fato de que a expansão do crédito pode ser inflacionária se (1) as taxas de juros praticadas estiverem, pela intervenção do governo, abaixo das taxas de mercado, e (2) se os recursos emprestados tiverem origem na expansão monetária, em lugar de originarem-se na poupança (interna e externa).

Desse ponto de vista, é muito mais preocupante a expansão do crédito a um conjunto de empresas do gosto do governo, a taxas subsidiadas, que a expansão do crédito aos consumidores, a taxas de mercado.

Só é lamentável que, na sua preocupação válida com a inflação, o governo tenha errado ao mirar a expansão do crédito ao consumidor, em lugar de preocupar-se com os efeitos inflacionários de sua nova política industrial.

 

Fonte: www.dcomercio.com.br

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