Combinação perigosa

06/02/2008

Depois de conhecido o balanço dos acidentes ocorridos no país no feriado do Natal, um sinal de alerta disparou no seio da Polícia Rodoviária Federal. Foram 2.561 acidentes registrados entre os dias 21 e 25 de dezembro, os quais deixaram 1.870 feridos e quase 200 mortos. A surpresa ficou por conta da interpretação dos dados coletados. Foi observado que 80,7% dos acidentes aconteceram em trechos com pista boa, 71,4% nas retas e 63% com o tempo bom. Tais estatísticas certamente despertaram, nas autoridades de controle do trânsito, um sentimento de impotência uma vez que travam peleja desigual e desgastante quando procuram barrar o crescimento dos índices de acidentes rodoviários utilizando os mecanismos disponíveis na legislação de trânsito vigente.

Estes dados abrem espaço para alguns questionamentos e também para algumas observações e esclarecimentos. São os buracos nas estradas os principais causadores dos acidentes rodoviários? Não. É inquestionável o efeito negativo de uma rodovia cheia de buracos. Acarreta desgaste prematuro do veículo, traz prejuízos irrecuperáveis de bens perecíveis no transporte de carga e onera o custo da mercadoria devido ao tempo perdido no deslocamento. Tudo isso é pertinente, como também é verdade que em estrada mal conservada o motorista é obrigado a diminuir a velocidade e, assim, o risco de acidente se reduz. O aumento do número de veículos circulando amplia o número de acidentes? Claro! Quanto maior a quantidade e a movimentação de veículos nas estradas, maior também será a probabilidade de acidentes no trânsito. Fiscalização permanente e eficiente combate a irresponsabilidade no trânsito? Com certeza! Controlar e punir os excessos são medidas imprescindíveis para humanizar o trânsito. Ações desnecessárias se a educação no trânsito fosse incutida na formação do motorista desde a mais tenra idade.

Diante do exposto e fazendo uma análise fria e desapaixonada, qualquer cidadão conclui que, se não a totalidade, boa parcela dos acidentes de trânsito que acontecem no Brasil decorre de cinco fatores: aumento do número de veículos nas estradas, rodovias em melhor estado de conservação, falta de fiscalização, a imprudência e a impunidade. A união desses fatores forma uma combinação perigosa, pois deflagra um ciclo vicioso execrável em razão da falta de educação no trânsito. Vejamos: estrada em bom estado incentiva o aumento da velocidade; imprudentemente, desobedecemos à sinalização por falta de fiscalização permanente; o grande número de veículos circulando potencializa o risco de acidentes; por fim, uma legislação branda e a certeza de impunidade nos dão a motivação adequada e suficiente para persistirmos no erro.

Então, qual a receita ideal para combater a violência no nosso trânsito? Aplicar a mesma legislação aprovada e posta em prática na Espanha: não dar trégua ao infrator. Fiscalização permanente e eficiente, punição rigorosa para a imprudência e para a irresponsabilidade e justiça exemplar para quem não respeita a vida do semelhante no trânsito. Tomadas estas providências, o quadro deve se reverter imediatamente para melhor. Aqui no Brasil, como na Espanha, quem tem bolso e dá valor à liberdade tem medo. Ninguém de bom senso suporta uma sucessão de multas altas pesando no orçamento, tampouco enfrenta prazerosamente ser trancafiado numa cela. Somente assim, pessoas inocentes ficarão livres dos assassinatos no trânsito.

José Narcelio Marques Sousa é Superintendente Regional do DNIT/RN.

 

Fonte: DNIT

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