Acredite, se quiser

22/02/2008

Os dados do mercado dessa semana parecem querer dizer que todo aquele problema das bolsas mundiais despencando e o banco central norte-americano (Federal Reserve) fazendo acrobacias monetárias para compatibilizar inflação e crescimento não passaram de fogo de palha. Até o meio dia de quinta feira, dia 21 de fevereiro a Bovespa já tinha recuperado todas as perdas do ano e o dólar já baixava de R$ 1,71.

Hora de parar e pensar um pouco.

Vamos retomar uma velha tecla que já está cansando: sem maiores aprofundamentos, toda a confusão do início do ano teve origem no problema da bolha do crédito imobiliário nos EUA, identificada como tal, vários meses antes. Seria correto, então, considerar que se os indicadores do mercado de ações  recuperaram suas perdas passadas, tal problema está resolvido, ou não é tão importante assim. Será mesmo?
 
Dizer isso seria afirmar que os maiores bancos do mundo não ficaram no vermelho em seus últimos balanços trimestrais. Mas o prejuízo foi muito real e encontra paralelo histórico (de alta lucratividade direto para o negativo) apenas na eclosão da grande depressão – final dos anos 20.

E pelos comentários que vem do Hemisfério Norte, o rolo financeiro deve piorar. O próprio Federal Reserve, em sua última ata de reunião, não escondeu que o cenário econômico dos EUA tende a se agravar. A esperança seria o resto do mundo descolar da economia do país de Tio Sam.

Pura bobagem. Na década passada o mundo tremeu diante da crise mexicana e russa, países quase inexpressivos se comparados com o PIB estadunidense. Então, a idéia de que a coisa vai ficar entre Nova Iorque e Los Angeles é lorota.

Os Europeus já estão com seus bancos e seguradores em prontidão, pois a segunda onda de calotes imobiliários (os europeus apostaram nesse mercado) já está chegando e tende a ser mais vultosa do que a primeira.

E o Brasil? Bem, a bolsa em alta e o dólar em baixa dão a sensação de que está tudo sob controle e tranqüilo. E quem acreditar nisso vai perder dinheiro, se já não levou prejuízo antes.

Em primeiro lugar, as principais empresas de capital aberto estão concentradas no ramo da extração mineral e bancário. As mineradoras correm o risco de ver o preço das commodities desabarem pela queda da demanda global, a partir da mais do que provável recessão norte-americana. As instituições financeiras serão influenciadas pelo desempenho internacional, além de um provável efeito negativo sobre o crédito das pessoas físicas.

Quanto ao dólar, fiquem de olho na balança comercial, cujo saldo está despencando. Em janeiro o superávit foi de US$ 944 milhões, o mais baixo desde junho de 2002. E se o Brasil começar a perder reservas pela via déficit comercial, junto com a evasão do capital especulativo em bolsa e títulos do governo, digam adeus à estabilidade econômica.

Em tempo: não estou afirmando que o pior vai acontecer; mas que pode acontecer e as chances disso não são tão desprezíveis assim. Na dúvida, recomendo tratamento conservador para o próprio dinheiro. Mas cada um é cada um.

Acredite se quiser, em quem quiser e no que quiser.

 

 

Eduardo Starosta é economista e pós-graduado em filosofia. Desde 1999 é Diretor da Estplan Assessoria e Planejamento Econômico LTDA, empresa especializada em inteligência de mercado, análise de conjuntura e cenários, com atuação central em entidades empresariais. Uma de suas obras de maior destaque é “Agrocenários, Desafios e Oportunidades” – 2006, elaborada em conjunto com o ex-ministro da agricultura, Francisco Turra.

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