A teoria do caos

08/08/2008

O dólar segue ladeira abaixo. Derrubou a barreira do R$ 1,60 e deve caminhar célere para R$ 1,55. Isso em um momento em que a economia mundial sofre amplamente do fenômeno analisado pela física e denominado de Teoria do Caos.

A melhor explicação para esses princípios é o do barco que, em alto mar, começa a balançar. A cada volta balanço, o barco vira um pouco mais, com o movimento ganhando uma dinâmica própria.

É o que está ocorrendo neste momento com a economia mundial. É ampla a soma de problemas disseminados por todas as economias. Tão ampla que dificilmente se sairá dela sem uma crise – obrigando os atores do jogo, governos de grandes potências e respectivos Bancos Centrais, a agirem.

Em outras colunas tentei explicar um pouco essa lógica cruzada da economia mundial. Vamos às explicações, em cima dos últimos dados:

1. Os EUA enfrentam um problema duplo: a recessão (e a crise financeira) e a inflação. Decidiu-se privilegiar o combate à recessão, com o FED (o BC de lá) reduzindo as taxas de juros.

2. Quando reduz os juros, há desvalorização adicional do dólar, que provoca dois efeitos: desaquecimento em todas as economias fora da zona de influência do dólar (especialmente Europa e Ásia); e especulação com commodities (especialmente petróleo).

3. A especulação coloca mais combustível na inflação mundial. A maneira correta de combatê-la seria o aumento das taxas de juros dos Bancos Centrais da Europa e Ásia. Mas, aumentando as taxas, haveria valorização adicional de suas moedas, frente o dólar, ampliando mais a recessão interna.

4. O caminho seria, então, os EUA começarem a puxar os juros novamente, para valorizar o dólar e permitir um pouso mais suave da economia mundial. Ocorre que os dados de desaquecimento ainda são fortes e a crise financeira ainda não terminou. Na semana passada, foi mais uma rodada de notícias pessimistas sobre grandes bancos americanos.

5. Com a economia mundial em declínio, os preços das commodities aumentando, a China começa a entrar em uma sinuca. De um lado, com o aumento dos preços das commodities seus custos internos aumentam expressivamente. O custo de manter sua moeda desvalorizada está se tornando excessivamente alto. E a China não tem um sistema financeiro que permita atuar de forma eficiente sobre a inflação.

Praticamente todas as grandes economias européias estão entrando em recessão, e as grandes economias emergentes (Índia e China) estão com uma inflação progressivamente elevada.

A posição imutável do Banco Central, de permitir a apreciação do real, em proporção muito maior do que a do dólar, vai criar, mais à frente, o seguinte problema:

1. Até agora, a grande arma do BC brasileiro para segurar a inflação foi exclusivamente a apreciação do real. É processo que já dura cinco anos.
2. Está-se chegando ao final desse processo. As contas externas estão em franca deterioração.
3. Pior: provavelmente em um momento em que o agravamento da crise internacional dificultará bastante o financiamento do déficit externo brasileiro.

2010 será um ano emocionante!

NOTAS

Confiança
A percepção da crise dos consumidores norte-americanos parece longe de reverter. A confiança atingiu em junho o menor resultado nos últimos 28 anos. O índice caiu de 59,8 em maio para 56,4 em junho. Pesaram o movimento de alta dos preços e a alta do desemprego.

Moeda única
Brasil e Argentina caminham para a unificação monetária. É o que garante o jornal argentino Página 12, que destaca anúncio do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre o início de um sistema que substituirá o dólar por peso e real nas negociações entre os países, a partir de setembro.

Mais real
O Banco Central pretende aumentar o uso do real como moeda nas transações comerciais e financeiras. E deve implementar mudanças nas regras de câmbio, permitindo aos exportadores fazer vendas em reais e receber o dinheiro no Brasil, sem a intermediação de contrato de câmbio.

Fonte: Diário do Grande ABC – www.dgabc.com.br

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