A solução final

18/03/2008

Certo dia do mês passado, as câmeras de controle de trânsito da cidade de São Paulo registraram cento e vinte quilômetros de congestionamentos. O fato inusitado ocorreu com o tempo bom, sem trombas d’água e nenhum outro imprevisto climatológico. Isto significa dizer que a maior metrópole do país parou, literalmente, naquele dia. Pior. A ocorrência tornou-se uma constante na maioria das capitais brasileiras. Vivenciamos a triste realidade na qual o cidadão aplica sua sacrificada poupança no sonho de compra do carro novo, com tecnologia e acessórios de última geração, apenas para enfrentar congestionamentos num ambiente agradavelmente refrigerado. Parado, sentado numa aconchegante poltrona anatômica esperando o trânsito fluir. Mais e mais horas por dia. Todos os dias.

A vida urbana retirou a prioridade do cidadão para favorecer o automóvel. Aquela boa qualidade de vida esperada da urbe não mais privilegia o ser humano. O importante agora é dar maior rapidez à circulação de veículos. O grosso dos investimentos aplicados nas metrópoles objetivam facilitar o trânsito. Podemos até contra-argumentar dizendo ser este um problema mundial. Sim, mas no Brasil a questão está potencialmente descontrolada. Sem nenhuma perspectiva que vise melhorar o nosso bem-estar.

As condições estão propícias para administrar uma solução final. Nada parecido com a desgraçada e desumana solução final encomendada por Hitler para purificar a raça ariana exterminando milhões de judeus. Mas, guardando as devidas proporções, algo próximo da aplicada na China para controlar a explosão demográfica no país, ao limitar o número de filhos por casal. Sim, algum procedimento nessa direção tem que ser experimentado ou vamos ficar indefinidamente reféns de um trânsito travado e impiedoso.

As alternativas tentadas até agora fracassaram. Carona amiga. Rodízio de veículos. Proibir o tráfego de viaturas pesadas nas avenidas mais movimentadas. Nada funcionou nem vai funcionar com a proporção de veículo por habitante caminhando na direção da paridade. É o caos no trânsito, tantas vezes anunciado, agora materializado e instalado no cotidiano do nosso país.

Mas, que soluções finais poderiam ser aplicadas no trânsito? Com certeza estudiosos do assunto já às tenham em mente, entretanto, receosos do impacto negativo junto à população, se omitam de apresentá-las. Ou talvez interesses superiores às rechacem. De tão crítica a situação, muito antes do tempo imaginado, elas surgirão. Quer limitando a quantidade de automóveis comercializados em razão do número de habitantes de cada cidade; quer elevando, até o limite do insuportável, as taxas de registro de veículos; resguardando da circulação automotiva áreas nobres e de maior concentração de pessoas, em conglomerados urbanos; ou, ainda, retirando das ruas máquinas com idade superior a padrões pré-estabelecidos. Saídas existem. O complicador é que todas acarretam fortes mudanças comportamentais, de difícil aceitação porquanto impopulares.

Até que soluções finais sejam propostas e acatadas, os brasileiros terão que absorver três milhões de veículos por ano e acomodá-los em espaços inexistentes. E mais uma vez sacrificarão alguns dos poucos logradouros públicos remanescentes da sanha insaciável de adequações de áreas para veículos, apenas para se arrastarem reduzidos quilômetros por dia sem chegar a lugar algum porém confortavelmente aboletados nos seus carros novos.

José Narcelio Marques Sousa é engenheiro e Superintendente Regional do DNIT no Rio Grande do Norte.

Fonte: DNIT

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