A nova juventude

30/01/2008

Alguns podem estranhar o título, considerando-o redundante, uma vez que a juventude, na sociedade, representaria o que há de novo. Não nos referimos à juventude em si, mas ao seu papel enquanto categoria social – uma força ativa, que sempre atuou, ao longo da História, de forma idealista e despreendida – e que nos parece, no momento, pelo menos no Brasil e em partes da América Latina, atravessar um processo de renovação, questionado os dogmas que têm regido a sua atuação em nosso Continente ao longo de décadas.

O sentimento juvenil que sobrevive na maturidade em nossa consciência e faz com que continuemos engajados na luta por um mundo melhor, se manifesta de diversas formas, algumas vezes, inclusive, desengajado das forças políticas tradicionais, atuando poderosamente na mudança dos costumes. Foi o caso do movimento hippie, da contracultura e demais ações sociais características das décadas de 60 e 70, como o feminismo e o movimento contra a segregação racial, entre numerosos outros.
 
Em várias ocasiões, esse sentimento tem sido manipulado por forças políticas, que – atentas ao inconformismo com as injustiças sociais, mais desabrido nessa idade –, procuram instrumentalizá-lo, colocando-o a serviço de seus projetos de tomada do poder, muitas vezes, de caráter nitidamente antidemocráticos.

Essa ação pode ser percebida de maneira mais clara no chamado "aparelhamento" de entidades  ligadas aos jovens que, ao invés de defenderem os seus interesses, agem de acordo com diretrizes partidárias. Esse aparelhamento é nocivo à Democracia, uma vez que atrela a interesses estritamente partidários a forma aguerrida da juventude se manifestar, em prejuízo dos interesses da sociedade como um todo.

Um exemplo disso é a maneira como a esperança acerca da importância da participação popular – conquistada pelo movimento dos cara-pintadas contra a corrupção no Governo Collor – deu lugar ao desânimo, quando não se viu, mesmo frente a denúncias muito mais graves, como ocorreu no episódio do “mensalão”, o mesmo engajamento por parte das lideranças dos movimentos ligados à juventude, o que teria, com certeza, feito enorme diferença.

Talvez esteja aí a raiz do atual desinteresse dos jovens pela política, conforme apurado em pesquisas realizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Entre outubro de 1992 e junho de 2007, o número de jovens de 16 ou 17 anos que optaram por tirar o título eleitoral caiu de 3,57% para 1,66% do eleitorado.

Uma aluna da escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 19 anos, indagada a respeito das razões do desinteresse dos jovens pela política, deixa claro como essa posição das lideranças das entidades formadas por jovens, atrelada aos interesses partidários,  concorre para essa situação. Segundo seu depoimento ao site Olhar Virtual, ligado à Universidade, atualmente “relega-se, à população o papel de mero espectador passivo, fantasiado de cidadão, compromissado com o futuro do país apenas em tempos de eleição, e esquecido, como num passe de mágica, de deputados corruptos que escondem dólares em suas roupas íntimas.”

Contrapondo-se à passividade das lideranças tradicionais, parte dos jovens têm dado demonstrações de que não aceitam esse estado de coisas e acham que é preciso mudar. Um exemplo disso ocorreu há poucos meses na Venezuela, quando os estudantes deram uma demonstração clara e historicamente importante do seu papel político, mobilizando-se para evitar que as propostas de caráter antidemocrático do Presidente Hugo Chaves fossem aprovadas.
 
Para avançarmos em direção à democracia participativa, na qual as tomadas de decisão contem com a participação cada vez mais ampla de todos, o papel da juventude é condição essencial. É animador saber que há uma nova juventude prestes a ocupar o papel que sempre foi seu, de maneira independente, livre e atuante.

 

Miguel Haddad é advogado, ex-prefeito de Jundiaí e presidente do Instituto Jundiaí Solidária.

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