A difícil transição de uma empresa de transportes para uma organização de operações logísticas

08/06/2014

Como empresários, devemos ter cuidado para não transformar nossas empresas de transportes bem-sucedidas em organizações prestadoras de serviços de operações logísticas malsucedidas.

Apesar de a febre pouco a pouco ir passando, ainda encontramos organizações que tem a enorme tentação de criar no seio de suas empresas de transportes bem-sucedidas, uma organização dedicada à prestação de serviços logísticos.

Este fenômeno, iniciado nos Estados Unidos e estendido por todo o mundo, teve o seu auge na década de 90, quando grandes e tradicionais empresas do segmento dos transportes, atraídas pela facilidade de aumentar a captação de recursos nas bolsas de valores, materializaram a compra de operadores logísticos tradicionais, engordando o volume de faturamento de suas corporações.

O processo também partia da premissa de que, dispondo de uma organização coligada ou anexa à nossa tradicional empresa de transportes e realizando as tradicionais operações de armazenamento temporal e gestão de atividades logísticas realizadas no armazém, de maneira automática e inercial, aumentaríamos a fidelidade dos clientes em relação à frequência com que confiam os seus serviços às nossas empresas, flexibilizaríamos nossos custos operativos e obteríamos melhores margens de gestão do negócio.

Existem alguns casos que foram relativamente bem sucedidos e centenas de casos em que o empresário conseguiu criar uma organização logística medíocre, sem personalidade empresarial e sem definição de um claro nicho comercial. 

O fenômeno atingiu inclusive poderosas organizações internacionais do segmento de transportes, que em função de planos malsucedidos em sua atuação como operadores logísticos, venderam tais divisões para voltar a concentrar as suas atividades empresariais no segmento que controlam.

Porém, a febre mundial pela realização de operações de outsourcing não para, chegando na Europa e estendendo-se rapidamente para todo o mundo. No Brasil, por exemplo, salvas exceções, o processo avançava de maneira relativamente rápida.

Ao nome original de nossa organização de transportes, por exemplo, ABCDEF Transportes, incluiremos uma nova expressão, passando a denominar-nos como ABCDEF Logística e Transportes ou ainda ABCDEF Logistics pensando que desta forma o mercado reconheceria a amplitude de nosso leque de serviços.

Porém, ao iniciar as atividades em um mundo totalmente distinto, o empresário topará com surpresas no caminho que muitas vezes não integravam o plano de negócios.

Em primeiro lugar, o tempo médio de resposta para que um cliente comece confiar a realização de operações de outsourcing de operações logísticas e de serviços de valor agregado realizados no armazém é infinitamente superior ao tempo médio em que encontramos respostas de um cliente para iniciar operações de transporte e distribuição com a nossa organização original.

Existem estudos de diversos órgãos dedicados à realização de estatísticas que indicam que uma operação de outsourcing logístico tem um tempo médio de maduração superior aos 10 meses.

Portanto, surge um primeiro e grande dilema quando administramos uma organização logística: a simples decisão de dispor primeiro do espaço em armazéns logísticos para disponibilizar tais espaços para os clientes ou primeiro firmar o contrato com o cliente para posteriormente dispor do espaço do armazém logístico necessário…

Conheço muitos operadores logísticos que perderam e perdem centenas de milhares de Reais ao dispor de espaços de armazéns não correspondidos com as atividades operacionais que o mesmo está preparado para realizar. A questão é bastante complexa, uma vez que os aluguéis para ocupar um armazém ou dispor de uma localização privilegiada em um condomínio logístico normalmente se firmam para um período de médio e largos prazos, com aplicação de importantes multas pelo não cumprimento dos contratos firmados.

Do outro lado da moeda, também conheço operadores que, dispondo de boa relação empresarial com o cliente, não contavam com a disponibilidade do espaço adaptado para realizar as operações de armazém no momento em que foram requeridas.

Outra questão que nos deparamos quando apostamos pelo início de atividades no segmento das operações logísticas é a personalização operativa que temos que oferecer para cada cliente.

Normalmente, a partir de sistemas informáticos básicos, os denominados sistemas de gerenciamento de armazém (conhecidos em sua terminologia anglo sazona como warehouse management systen), devemos realizar parametrizações e adaptações no sistema básico, para atender às exigências peculiares de cada cliente.

Essas operações demandam tempo, pessoal especializado e recursos financeiros e estão sumamente interligadas com a complexidade de cada operação logística.

O resumo destas e de outras questões na mesma linha deveria levar o empresário do setor de transportes a meditar bastante sobre a conveniência de iniciar operações como operador logístico. Como reflexão inicial, deve considerar que a materialização de tais processos é uma realidade de médio e largos prazos.

Não quero em absoluto desanimar aos empresários; simplesmente me permito realizar algumas reflexões, pois convivi com estas circunstâncias estando ao mando de várias organizações, tanto no Brasil, como na Europa.

O início de prestação de serviços como operador logístico deve, necessariamente, ser precedido de um plano empresarial no qual a análise do tempo de resposta do mercado em confiar em nossa organização deve ocupar um lugar relevante.

Quando analisamos o perfil dos 20 maiores operadores logísticos mundiais, veremos que uma parte significativa deles realiza um grande número de terceirização das atividades de transportes. Esta reflexão é muito importante, pois contempla uma eleição pela especialização. Logicamente, a recíproca é verdadeira em muitos casos.

Já dizia o prestigioso autor americano Peter Drucker que chegaria o momento em que o empresário deveria apostar em fazer tudo de tudo ou optar por fazer um pouco de nada… “Tudo”, no caso que nos ocupa, significa todo o universo de possibilidades de negócios que podemos realizar no complexo mundo da logística materializada. “Nada” significa escolher uma parcela específica da atividade, concentrando nela nossa atenção e especialidade.

Em muitas ocasiões é melhor seguir especializando os serviços dados por nossas tradicionais empresas de transportes, utilizando a inovação como forma de modernização, que adentrar em um universo extremamente complexo e desconhecido, com o enorme risco de obter como resposta a falta da consecução dos nossos objetivos empresariais, e o pior de tudo, comprometer um negócio bem sucedido…


Roberto Lacerda Oliva – Diretor Geral das organizações PRESS LOG e SOMA LOG, ambas especializadas na área de Consultoria aplicada para os segmentos de logística e de transportes, e com presença no Brasil, Espanha e Portugal. roberto@presslog.com.br

 

Compartilhe:
Aurora Coop lança carreta frigorífica considerada inédita no Brasil e aumenta eficiência logística
Aurora Coop lança carreta frigorífica considerada inédita no Brasil e aumenta eficiência logística
ANTT discute implantação do primeiro Corredor Logístico Sustentável do Brasil
ANTT discute implantação do primeiro Corredor Logístico Sustentável do Brasil
INTRA-LOG Expo dobra de tamanho em 2026 e traz tendências em automação logística para atender mercado da América Latina
INTRA-LOG Expo dobra de tamanho em 2026 e traz tendências em automação logística para atender mercado da América Latina
IA, dados operacionais e descarbonização avançam no transporte marítimo com foco em emissões reais da cadeia logística
IA, dados operacionais e descarbonização avançam no transporte marítimo com foco em emissões reais da cadeia logística
Arauco avança na estrutura logística do Projeto Sucuriú com recebimento das primeiras locomotivas da Wabtec
Arauco avança na estrutura logística do Projeto Sucuriú com recebimento das primeiras locomotivas da Wabtec
Incêndios em aviões e navios expõem riscos no transporte de cargas perigosas
Incêndios em aviões e navios expõem riscos no transporte de cargas perigosas

As mais lidas

01

Benel reduz emissões de CO₂ em 86 veículos com tecnologia de descarbonização
Benel reduz emissões de CO₂ em 86 veículos com tecnologia de descarbonização

02

DHL Global Forwarding posiciona Brasil como hub estratégico para a América Latina e projeta crescimento de 30% em volumes consolidados
DHL Global Forwarding posiciona Brasil como hub estratégico para a América Latina e projeta crescimento de 30% em volumes consolidados

03

Mercado Livre aluga centro logístico da Goodman em Santo André, SP,  e reforça operação de last mile
Mercado Livre aluga centro logístico da Goodman em Santo André, SP,  e reforça operação de last mile