Insights Logweb – O movimento da semana de 21 de a 25 de setembro

A logística da adaptação: quando estar preparado significa saber mudar

*Por Valeria Lima

E quando aquilo para o qual sua logística foi construída muda?

Durante muito tempo, uma boa operação logística podia ser definida pela capacidade de repetir, com eficiência e previsibilidade, aquilo para o qual havia sido projetada.  O armazém recebia determinado volume. A frota percorria determinadas rotas. As lojas cumpriam determinada função. Os portos recebiam determinados navios. Os consumidores compravam por determinados canais. As cadeias de suprimentos possuíam desenhos relativamente conhecidos.

Mas alguma coisa mudou. E talvez uma das notícias desta semana ofereça uma imagem perfeita dessa transformação.

Os navios estão ficando maiores.

Com cerca de 95% do comércio exterior brasileiro movimentado pelo mar, segundo dados apresentados em conteúdo publicado pelo Portal Logweb nesta semana, a capacidade do país de receber embarcações maiores passa a exigir adaptações em portos, acessos, profundidade, terminais, equipamentos e processos.

O porto pode ter funcionado perfeitamente durante décadas. Mas isso não significa que esteja preparado para aquilo que chegará amanhã. Porque: na logística, capacidade não é permanente. Ela depende da realidade para a qual foi projetada. Essa talvez seja uma das grandes questões para empresas e para a própria infraestrutura brasileira nos próximos anos.

Depois da capacidade, vem a adaptação.

No 11º Insights Logweb discutimos Capacidade. Perguntamos até onde aquilo que uma operação possui consegue responder quando a demanda aumenta.

Nesta semana, as notícias nos levam um passo adiante. E quando aquilo a que precisamos responder muda?

Quando o consumidor muda de canal. Quando o volume se torna imprevisível. Quando os navios aumentam de tamanho. Quando novos mercados surgem. Quando uma loja deixa de ser apenas loja. Quando cadeias globais são redesenhadas. Quando novas tecnologias alteram processos. Quando a transição energética muda veículos e infraestrutura. Quando determinadas competências profissionais começam a faltar.

Nesse ambiente, possuir capacidade continua sendo fundamental. Mas talvez exista uma competência ainda mais importante: conseguir modificar essa capacidade antes que a mudança transforme a estrutura existente em gargalo.

Quanto menor a previsibilidade, mais sofisticado precisa ser o planejamento. A proximidade da Black Friday e do Natal coloca essa discussão em uma situação bastante concreta. Transportadoras no Paraná já enfrentam o desafio de planejar operações diante de uma demanda incerta para os dois períodos.

Ao mesmo tempo, estudo da nstech publicado pelo Portal Logweb aponta a logística como fator decisivo para conversão a menos de 90 dias da Black Friday.

O problema é conhecido. É preciso preparar estoque. Frota. Equipes. Tecnologia. Capacidade de processamento. Transportadoras. Pontos de distribuição. Atendimento. Mas o volume exato ainda não existe.

A logística precisa, portanto, preparar uma resposta antes de conhecer completamente a pergunta. Isso muda a natureza do planejamento.

Durante muito tempo, planejamento significou reduzir incertezas. Agora, em muitos casos, significa também construir capacidade para operar dentro delas.

Cenários. Contingências. Flexibilidade. Capacidade adicional. Alternativas de transporte. Visibilidade. Informação em tempo real. Parceiros. Tudo isso passa a fazer parte da preparação. Porque: quanto menor a previsibilidade, mais sofisticado precisa ser o planejamento.

E existe uma distinção importante. Adaptabilidade não é improvisação.

Improvisar é reagir depois que alguma coisa aconteceu. Adaptar-se é possuir condições para mudar quando alguma coisa acontecer.

Quando uma loja deixa de ser apenas loja. A Bibi oferece um exemplo muito interessante dessa transformação. A empresa ampliou sua logística omnichannel utilizando a Stone Entregas e transformando lojas em hubs logísticos por meio do modelo ship-from-store.

A loja continua no mesmo endereço. Continua atendendo consumidores. Continua fazendo parte da estrutura comercial. Mas passa a exercer também outra função. Estoque distribuído. Separação. Expedição. Ponto de origem de entregas. Um ativo criado originalmente para vender passa a fazer parte da malha logística.

Esse movimento conversa diretamente com algo que observamos no 11º Insights.

Na semana anterior, vimos o iFood utilizar sua infraestrutura logística para realizar entregas de pedidos originados fora de seu próprio aplicativo. Agora vemos lojas físicas sendo incorporadas à infraestrutura de distribuição. Dois movimentos diferentes revelam uma transformação semelhante: ativos estão deixando de ter funções fixas.

Talvez uma das características das redes logísticas mais adaptáveis seja justamente essa capacidade de atribuir novas funções aos ativos existentes. 

A pergunta deixa de ser apenas:  Para que esse ativo foi construído?

E passa a ser: Que outras funções ele pode desempenhar quando a realidade mudar?

Nem toda transformação começa com um grande investimento. A semana também trouxe grandes investimentos.

Ypê e Tix Log anunciaram R$ 161 milhões em um novo centro de distribuição no Rio Grande do Sul.

ID Logistics e Beiersdorf ampliaram sua parceria e expandiram um centro de distribuição em Minas Gerais.

Um complexo logístico em Santa Catarina, com 94,5% dos galpões de alto padrão ocupados, avança para uma segunda etapa.

A Brookfield ampliou significativamente seu portfólio com a aquisição de galpões logísticos da Marq Logistics por R$ 1,4 bilhão.

São movimentos relevantes e mostram que nova capacidade física continua sendo necessária.

Mas o artigo de Elcio Grassia, colunista do Portal Logweb e executivo com ampla experiência no setor, acrescenta um contraponto especialmente importante. O título já traz a provocação: “Você não precisa de automação para transformar seu armazém. Só precisa começar.”

A reflexão mostra como ajustes na organização, nos processos e na gestão podem aumentar a produtividade de armazéns sem necessariamente exigir grandes investimentos iniciais em automação.

Essa perspectiva merece atenção.  Porque existe o risco de associarmos transformação automaticamente à aquisição de tecnologia.

Nem sempre o primeiro gargalo exige um robô. Nem todo problema precisa começar com um software. Nem toda melhoria exige expansão física. Às vezes, o primeiro passo é reorganizar. Medir. Padronizar. Eliminar desperdícios. Rever fluxos. Mudar processos.

Transformar uma operação nem sempre começa comprando algo. Às vezes começa enxergando melhor aquilo que já existe.  É uma ideia que conversa diretamente com nosso 10º Insights sobre Produtividade.

Antes de acrescentar recursos, talvez seja necessário descobrir quanto valor ainda pode ser extraído dos recursos atuais. Quanto mais específica a demanda, menos espaço existe para uma logística genérica

A Modern Logistics anunciou a expansão de suas operações para um segmento bastante particular: logística para turnês musicais. É um excelente exemplo de adaptação pela especialização.

Transportar equipamentos de uma turnê não significa simplesmente levar uma carga do ponto A ao ponto B.

Existem datas. Horários. Sequências. Locais diferentes. Equipamentos críticos. Janelas extremamente restritas. E pouca tolerância para atrasos. Uma entrega industrial eventualmente pode ser reagendada. Um equipamento que deveria estar no palco naquela noite não possui a mesma flexibilidade.

A logística precisa adaptar seu desenho à natureza da demanda.

A ampliação da parceria entre DHL Global Forwarding e SkyCell para fortalecer a logística farmacêutica no Brasil oferece outro exemplo.

Temperatura, integridade, monitoramento, embalagem, conformidade e rastreabilidade criam requisitos específicos.

O transporte de produtos perigosos também possui suas próprias exigências. Cada uma dessas operações mostra a mesma transformação: quanto mais específica a demanda, menos espaço existe para uma logística genérica.

Adaptabilidade também significa desenvolver competências diferentes para problemas diferentes.  O Brasil também precisa aprender a se adaptar. Essa discussão não pode ficar restrita às empresas.

O novo Plano Nacional de Logística – PNL recoloca na agenda um dos desafios históricos do Brasil: a integração entre os diferentes modais de transporte.

O tema talvez receba menos atenção do que sua importância estratégica justificaria.

Um país continental, com grandes distâncias entre regiões produtoras, centros consumidores e portos, não pode discutir competitividade logística sem discutir a maneira como rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos se conectam.

Essa discussão já apareceu em nossa trilha. No 2º Insights falamos de Integração. No 7º, de Conexão.

Agora esses conceitos reaparecem sob outra perspectiva. A economia muda. Os fluxos mudam. Os volumes mudam. As rotas comerciais mudam. Os navios mudam. As cadeias globais mudam. Portanto, a infraestrutura que conecta o país também precisa evoluir.

O Plano Nacional de Logística não deveria ser observado apenas como um documento de planejamento de transportes. Ele toca em uma questão muito mais ampla: qual rede logística o Brasil precisa construir para a economia que pretende ter nas próximas décadas?

Porque infraestrutura possui uma característica difícil de administrar. Ela leva anos para ser planejada, licenciada, financiada e construída. Enquanto isso, o mercado continua mudando.

Surge então uma pergunta inevitável: a logística brasileira está conseguindo se adaptar na mesma velocidade em que mudam os fluxos globais?

Navios maiores são também uma mensagem sobre o futuro. Voltamos então ao ponto de partida. Os navios aumentaram. Esse fato aparentemente técnico contém uma mensagem estratégica.  Infraestruturas são construídas para determinada realidade. Mas permanecem durante décadas.

Isso significa que decisões tomadas hoje precisarão responder a demandas que ainda não conhecemos completamente. Portos. Ferrovias. Rodovias. Centros logísticos. Terminais. Armazéns.

Todos carregam esse desafio.

Planejar infraestrutura é, em alguma medida, construir para um futuro que ainda não existe.

Por isso, adaptabilidade precisa começar também no planejamento.

O nearshoring redesenha o mapa das cadeias. A discussão sobre digitalização da indústria automotiva brasileira na era do nearshoring acrescenta outra dimensão ao movimento desta semana.

Cadeias globais estão sendo reconsideradas. Distância de fornecedores. Riscos geopolíticos. Disponibilidade de insumos. Custos. Tecnologia. Resiliência. Proximidade dos mercados consumidores. Tudo isso influencia novas decisões de localização industrial.

E quando a produção muda de lugar, a logística muda junto. Novos fornecedores. Novas rotas. Novos estoques. Novos fluxos. Novos centros de distribuição. Novos requisitos de integração.

A logística, portanto, não precisa apenas acompanhar o crescimento da economia. Precisa acompanhar as mudanças na geografia da própria economia. E existe algo que não muda na mesma velocidade: pessoas.

Um estudo divulgado nesta semana mapeou quase 99 mil profissionais ligados ao transporte de produtos perigosos e apontou desafios relacionados à qualificação e à renovação desses quadros. Essa notícia merece atenção porque revela um dos limites menos visíveis da transformação logística.

Uma empresa pode comprar um sistema em poucos meses. Pode adquirir veículos. Pode instalar equipamentos. Pode contratar tecnologia. Pode automatizar processos. Mas conhecimento leva tempo. Experiência leva tempo. Formação leva tempo. Transferência de conhecimento leva tempo.

Uma operação pode comprar tecnologia rapidamente. Competência não se compra na mesma velocidade.

Isso significa que a capacidade de adaptação das empresas dependerá também de algo que não aparece no balanço patrimonial da mesma maneira que um galpão ou um caminhão: o conhecimento acumulado pelas pessoas.

Quanto mais rapidamente a tecnologia evolui, mais importante se torna preparar pessoas para evoluir com ela.

Adaptação não significa abandonar eficiência. Ao longo dos últimos Insights construímos uma sequência que começa a revelar algo interessante. Falamos de Escala. Depois, de Produtividade. Em seguida, de Capacidade. Agora chegamos à Adaptação.

Esses conceitos não substituem uns aos outros. Eles se acumulam. Uma operação precisa escalar. Precisa utilizar bem seus recursos. Precisa conhecer seus limites. Mas também precisa estar preparada para modificar aquilo que funciona quando a realidade exigir.

E talvez esse seja um dos paradoxos da gestão logística. As empresas trabalham durante anos para aperfeiçoar processos. Padronizam. Medem. Automatizam. Criam rotinas. Eliminam variações. Tudo para executar melhor.

Mas chega um momento em que a própria eficiência pode criar resistência à mudança. Porque aquilo que funciona muito bem tende a ser repetido. E o mercado nem sempre respeita aquilo que aprendemos a fazer perfeitamente.

Os Cinco Movimentos da Semana

✔ Infraestruturas precisam acompanhar novas realidades — navios maiores, novos CDs, alta ocupação de galpões e expansão de malhas mostram que estruturas eficientes hoje podem precisar ser redesenhadas amanhã.

✔ Incerteza passa a fazer parte do planejamento — Black Friday e Natal reforçam a necessidade de preparar capacidade mesmo quando a demanda exata ainda não é conhecida.

✔ Ativos ganham novas funções — lojas transformadas em hubs e redes utilizadas para novos serviços mostram que ativos logísticos estão se tornando mais flexíveis.

✔ Especialização substitui soluções genéricas — farmacêutica, turnês musicais, produtos perigosos e outras operações exigem desenhos específicos e competências próprias.

✔ Pessoas determinam a velocidade da adaptação — tecnologia pode mudar rapidamente, mas conhecimento, qualificação e experiência precisam ser construídos ao longo do tempo.

O que observar daqui para frente. Vale observar como as empresas irão equilibrar eficiência e flexibilidade.

Quanto de suas estruturas continuará dedicado a funções fixas?

Quantos ativos poderão desempenhar papéis diferentes?

Como serão planejados estoques e transportes diante de uma demanda cada vez menos previsível?

Até onde a automação aumentará produtividade sem reduzir flexibilidade?

Como o Brasil transformará o Plano Nacional de Logística em integração efetiva entre modais?

E, principalmente, como empresas e país irão preparar pessoas e infraestrutura para mudanças que ainda não conseguem prever completamente?

Talvez a logística dos próximos anos precise dominar duas competências aparentemente contraditórias: executar o presente com eficiência e permanecer preparada para redesenhar aquilo que hoje funciona.

Reflexão Logweb

Durante muito tempo, uma boa operação logística era aquela capaz de repetir com eficiência aquilo para o qual havia sido projetada.

Hoje, talvez isso já não seja suficiente. Porque o mercado muda. O consumidor muda. A tecnologia muda. Os produtos mudam. As rotas mudam. Os fluxos mudam. As exigências mudam.

E até os navios mudam de tamanho. Talvez a vantagem logística não esteja apenas em executar muito bem o modelo atual. Esteja também em perceber rapidamente quando esse modelo precisa mudar.

Adaptabilidade não significa operar sem planejamento. Não significa abandonar padrões. E muito menos improvisar continuamente.

Significa construir uma organização capaz de reconhecer a mudança e responder a ela antes que sua estrutura se transforme em limitação.

Por isso, fica uma pergunta para as lideranças: Se o mercado para o qual sua logística foi desenhada deixasse de existir amanhã, quanto tempo sua operação levaria para se adaptar?

Talvez a resposta revele algo que indicadores tradicionais de produtividade e capacidade não mostram.

O quanto sua operação está realmente preparada para o futuro.

Valeria Lima
Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain
Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística
“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”

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