Sistema coletivo de logística reversa: escala e eficiência para a indústria

*Por Robson Esteves

A logística reversa deixou de ser apenas um requisito regulatório para se consolidar como uma agenda estratégica para a indústria brasileira. Desde a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), o país estabeleceu um princípio inequívoco: fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e municípios são responsáveis pelo ciclo de vida completo dos produtos.

No caso dos eletroeletrônicos e eletrodomésticos, essa responsabilidade foi detalhada pelo Decreto nº 10.240/2020, que estruturou a implementação da logística reversa no setor e definiu metas, obrigações e mecanismos de comprovação.

O desafio, no entanto, nunca foi apenas jurídico; é, sobretudo, operacional. Diferentemente da logística tradicional, em que o fluxo de produtos é mais previsível e concentrado, a logística reversa lida com um cenário fragmentado, com resíduos dispersos em milhares de municípios, volumes irregulares e forte dependência do engajamento do consumidor. Sem escala, coordenação e inteligência logística, o sistema tende a ser ineficiente e, muitas vezes, economicamente inviável.

Os dados disponíveis evidenciam tanto os avanços quanto o tamanho da oportunidade. De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão de Resíduos Sólidos (SINIR), o volume total de eletroeletrônicos e eletrodomésticos coletado e tratado adequadamente no Brasil passou de cerca de 1.960 toneladas, em 2021, para quase 20 mil toneladas, em 2022. Em 2023, somente a ABREE, por exemplo, coletou e deu destinação ambientalmente correta a mais de 46 mil toneladas. Trata-se de um crescimento relevante, impulsionado pela estruturação dos sistemas de logística reversa no país, mas ainda distante do potencial gerado pelo volume de produtos colocados anualmente no mercado. Em outras palavras, avançamos, mas ainda estamos em fase de consolidação.

É nesse contexto que os sistemas coletivos de logística reversa se consolidam como a alternativa mais eficiente para o setor. Ao reunir fabricantes, importadores, distribuidores e varejistas em uma estrutura operacional integrada, esse modelo permite compartilhar custos, ampliar a capilaridade da coleta e assegurar uma gestão mais profissional, rastreável e transparente de todo o processo. Em vez de múltiplas iniciativas isoladas, com baixa escala e alto custo, a cadeia passa a operar de forma coordenada, com ganhos consistentes de eficiência.

Sob a ótica técnica, as vantagens são evidentes. A logística reversa exige consolidação de volumes, otimização de rotas, padronização de processos e controle rigoroso de dados. Sistemas coletivos permitem transformar um fluxo disperso em uma operação estruturada, com rastreabilidade de ponta a ponta. Esse nível de controle é fundamental não apenas para a eficiência operacional, mas também para assegurar a conformidade com a legislação e atender às crescentes exigências de transparência do mercado.

Há ainda um aspecto econômico que precisa ser melhor compreendido. Quando um eletroeletrônico ou eletrodoméstico deixa de retornar ao ciclo produtivo, perde-se uma quantidade significativa de materiais reaproveitáveis, como cobre, alumínio, plásticos e vidro. Essa perda amplia a dependência de matéria-prima virgem, pressiona custos e reduz a eficiência da cadeia produtiva. A logística reversa, portanto, deve ser entendida também como uma estratégia industrial.

O mercado está evoluindo rapidamente. Critérios ESG já influenciam decisões de investimento e contratação, e a rastreabilidade tende a se consolidar como um requisito básico nas cadeias produtivas. Organizações que não conseguem comprovar a destinação adequada de seus produtos pós-consumo de uso doméstico tornam-se mais expostas a riscos regulatórios, reputacionais e comerciais.

A indústria de eletroeletrônicos e eletrodomésticos tem, diante de si, uma oportunidade clara: transformar uma obrigação legal em vantagem competitiva. Os sistemas coletivos já demonstram que é possível alcançar eficiência, escala e segurança operacional. O próximo passo é ampliar a adesão e consolidar esse modelo como padrão no país.

Cumprir a legislação é o ponto de partida. Fazer isso de forma estratégica, integrada e eficiente é o que diferenciará as organizações que liderarão o futuro daquelas que ficarão para trás.

*Robson Esteves – Presidente da ABREE — Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos.

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